28/01/2005

República da Hipocrisia

Hoje houveram três ocasiões (uma quase metalingüística) para presenciar a República da Hipocrisia. E o dia nem acabou...
1- A primeira delas: alistamento militar. Muitas pessoas acreditam que o humor está em presenciar cenas inesperadas, surpreendentes. Porém, na maioria das vezes, o que me põe a rir internamente é presenciar as cenas mais absurdamente previsíveis, principalmente quando elas não fazem sentido. E foi o Caso de uma dessas oCasiões. Começou na fila que me puseram antes de entrar lá no quartel (ou qualquer que seja o nome daquele lugar cheio de milico). Um monte de homem (jovens, da minha idade) em duas filas, com um militar de frente para nós, tentando exibir autoridade ao gritar com algumas pessoas da fila ("Tira esse colar!", "Desencosta da parede!", "Ôoo porco! para de coçar o nariz, seu porco!"). Naquele momento reconheci que aquele militar havia gastado boa parte de sua vida (talvez nem tão boa parte, mas ao menos um ano) e não tinha NADA para demonstrar de melhor. Um ano inútil. A única coisa que podia fazer era ficar assustando os recrutas. E ele havia escolhido esse caminho, assim como muitos ao meu lado na fila escolheriam. Escolheriam atraídos por esse poder tão baixo, que para eles parece tanto... é como enquanto somos crianças. Uma criança tem um boneco que gira. Um boneco que nem é tão legal, e ela nem gosta. Mas ela teve que insistir muito pros pais comprarem aquele boneco. Boneco cujo destino, nenhum oráculo diria o contrário, seria ficar jogado na prateleira para sempre depois de alguns dias de usufruto.... Então, como eu ia dizendo, essa criança, que já percebeu que seu brinquedo é uma merda, tem um amigo. E para esse amigo, a criança não fala "meu boneco é uma bosta". Ela fala que ela ganhou um bonecossuperlegalquegiraefaznãoseiquantasoutrascousas. E mais, ela brinca forçosamente com o objeto que desgosta, só para que ele seja mais atraente aos olhos de um garoto que não teve que passar meses enchendo o saco do pai e da mãe pra comprar aquele brinquedo. O amigo do garoto, quase invariavelmente terá inveja do brinquedo do garoto. "Posso brincar?" - "NÃO!, É MEU!". Então o amigo do garoto não terá outra escolha senão ficar enchendo o saco dos pais pra comprar a merda do brinquedo. (Só quem ganha com isso é a loja de brinquedos, no caso, tão sutilmente chamada "República da Hipocrisia"). (Obs: tudo que ocorreu até minha saída do quartel apenas reforçou minha visão, acrescentando um conhecimento prático da burocracia da República, representado fisicamente (temporalmente) por 3 horas e meia de espera em filas que se seguiam a outras filas, sem que UMA delas apresentasse uma função senão a de guiar-nos marionetes para mais uma fila. Só um último comentário sobre o caso, o chefe do recrutamento (...desconheço profundamente as denominações oficiais...) era o mesmo da última vez que estive lá (sim, o macro imita o micro - cada visita àquele lugar apenas direciona à outra visita, e outra...), e lembro-me que naquela ocasião, seu celular tocou e, para minha surpresa, seu ringtone era "Light My Fire" (The Doors).).
2 - Ao contrário do primeiro caso, este nada tem de engraçado. Nem pretendo me ater muito nele, pois me entristece (talvez porque seja EU o hipócrita em questão). Eu estou fazendo um "cursinho" preparatório para a prova do Detran que me permitirá fazer as aulas práticas que me renderão a tal "PPD - Permissão Para Dirigir" (hoje em dia é assim que funciona - o cursinho, por sinal, é obrigatório). O que me entristece é ver que a professora (embora tente), é ruim. Poucas coisas consegue ela explicar com clareza. E eu sei que esse é o padrão das escolas públicas. As pessoas ao meu redor, percebo-as muito acostumadas a não entender e não perguntar (eu pessoalmente quase nunca pergunto). A prova do Detran em si seria o equivalente à aprovação automática nas escolas públicas (talvez aqui eu tenha exagerado... mas no mínimo é equivalente a um ENEM). A própria professora me entristece, pois ela é (apesar de tudo) uma pessoa inteligente. Ela compreende sua função. Ela tem a intenção de formar melhores condutores. E enxerga (como citarei no caso 3) a República da Hipocrisia. Mas nada é melhor representativo da República da Hipocrisia do que aquela aula (o micro imita o macro). Enquanto eu viajava desenhando figuras surrealistas no livrinho/guia, a pobre professora tentava com cada vez mais confusos e infrutíferos exemplos explicar as funções legislativas e administrativas de cada um dos órgãos (com direito a uma pausa para falar no celular com uma amiga). E eu gostaria, como gostaria, de prestar atenção à aula, ser o "bom aluno" que sempre fui na escola, ajudar a professora. Mas a perspectiva de quatro horas seguidas de aula (mentira - tem um intervalo), com um assunto desinteressante e mal explicado, quase sem finalidade, (me lembrou algumas aulas de química - e é aí que reside o problema da maioria dos professores: começar explicando a regra pela exceção) enfim, tudo que minha mente atordoada me permitia era ficar lá, sentado, quieto. A professora perguntava "Quem aqui prestou USP", "Quem já viajou para o exterior", "Quem sabe o que é fluvial/pluvial" e eu lá... sem conseguir encontrar força de vontade para falar alto. Enquanto isso a professora tinha a impressão (impressão verdadeira mas por falsos motivos) de que o ensino no Brasil é uma porcaria, pois nós não sabemos nem a diferença entre uma alameda e uma rua (esse eu confesso que não sabia mesmo...). E pela segunda vez tive contato com aquela crítica que tanto me põe culpa: os estudantes de escolas públicas não conseguem vagas nas universidades públicas, pois os estudantes de escolas privadas pegam todas as vagas. Sobre pra eles, quem sabe, uma carreira de 150 reais por mês como recruta do exército. A República da Hipocrisia sou eu. Eu, que tantas vezes sinto-me culpado ao ver pessoas pedindo esmolas na rua. Há, nesse caso, uma inversão de intenção/consequência. Explicarei isso outro dia pois hoje pretendo ater-me à República.
3 - Embora todo esse item 2 tenha me destruído o humor, o caso 3 (o tal quase metalingüístico) não é totalmente desprovido deste. Vou dar um tempo pro clima melancólico passar (sugiro que o leitor faça o mesmo - vá tomar uma água, ou algo assim)............... Pronto. Onde eu estava? Ah, o caso 3: durante a mesma aula a professora expôs-nos um caso típico da República da Hipocrisia no sistema de trânsito: qualquer turista estrangeiro, suponhamos no caso um japonês para efeitos demonstrativos. Qualquer turista estrangeiro pode dirigir em nosso país sem muitos problemas. Imaginem agora, um japonês, todo acostumado àqueles ideogramas, um japonês que não sabe falar, ler ou escrever em português. Tal japonês é um analfabeto em nosso país. Entretanto, exige-se dos condutores de veículos que sejam letrados para tirar a carteira de motorista. Resumindo/”redundando”: não se precisa saber ler para dirigir, porém é necessário ser alfabetizado para tirar a carta.

Seguindo o exemplo do último "post" do blog, aqui vai a frase do dia (mais uma vez é minha): "Esqueçam tudo que escrevi aqui em cima - sou péssimo para fazer críticas sociais. Ousaria ainda dizer que qualquer crítica social feita por mim é... hipocrisia".

Observação acerca da República da Hipocrisia: não é algo que podemos ver a qualquer momento, embora apareça a nós a todo instante. Tente um dia concentrar-se... tente desvendar os gestos, as ações, as situações... e a República da Hipocrisia se erguerá diante de seus olhos como uma gigante cidade antes submersa. Torres levantarão-se dos bueiros. Cada pessoa se transformará em um tijolo da muralha circundante. Toda sua magnitude apenas será reforçada por cada movimento de cada elemento de nossa cidade medieval. Porém, tal cidade, tão forte, tão austera, tão... augusta; é ao mesmo tempo tão frágil... pois tal qual castelos de areia desintegrando-se nas ondas, a República da Hipocrisia esvai-se no ar, assim que ganhamos algum brinquedo novo. Sobra-nos apenas a dúvida... quem poderá um dia responder se realmente houve uma vez obra tal como a República da Hipocrisia? Nem mesmo seus criadores.

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