05/12/2007

Meu segundo coração

Vocês já foram a uma feira de antiguidades? Dependendo do dia tem no pátio do MuBE, no vão do MASP... em geral as peças encontradas lá são muito caras, não é como se fosse um sebo, no qual se encontram livros valiosíssimos por 1 real. Entretanto, outro dia meu pai me levou a uma, não lembro onde era, que não era tão cara. E de todas as coisas que haviam lá, tinha uma espécie de escultura de cristal, muito complexa, que eu não saberia descrever (eu tentei mas ficou ruim e achei melhor apagar), estava bem conservada, era muito antiga e essa escultura não estava cara, e eu consegui convencer meu pai a comprá-la (para mim). É uma sensação muito boa quando o Destino permite que uma pessoa como eu tenha acesso a uma coisa dessas, que só pode ter pertencido a aristocratas em outros tempos. Eu guardei a escultura no meu quarto, num móvel que fica de frente para a cama, e eu passava horas e horas admirando. Às vezes, quando eu ia ficar muito tempo no computador, mudava a escultura de lugar para ficar mais fácil de olhar para ela. Foi numa dessas vezes que eu acabei esbarrando nela sem querer, e um pedacinho se soltou. Quando eu volto da escola eu fico sozinha em casa pois meu pai trabalha, e eu estava sozinha quando isso aconteceu. Quando cristal quebra ele faz um som muito agudo, parece uma fadinha chorando. Peguei um super-bonder que tinha na geladeira e colei o pedacinho que tinha caído. A escultura é muito intrincada, e para colar o pedacinho acabei cortando o dedo. Não ficou igual era antes, agora tinha uma rachadura. Depois dessa vez, a escultura quebrou ainda muitas e muitas vezes, e eu sempre conserto sozinha, às vezes de madrugada, às vezes à tarde. E até agora não consegui consertá-la nem uma única vez sem machucar minha mão, já me acostumei com esse "custo". E cada vez ela vai ficando mais marcada, o tipo de coisa que diminui o valor dela para um possível comprador no futuro, mas que a mim só a torna mais cara... pois cada rachadura (e cicatriz) é uma lembrança, é algo que me diz respeito e que a torna mais complexa. Meu pai um dia viu minha mão e ficou até assustado com a quantidade de cortes que ela tinha. Me perguntou o que estava acontecendo, e eu expliquei que tinha cortado consertando a escultura. "Mas tantos cortes assim!?" "É que ela quebrou várias vezes...". Me disse que caso acontecesse de novo para deixar que ele consertava para mim. Menti que sim, para ele não ficar triste. Mas não ia deixar ninguém nesse mundo consertar a minha escultura. Quando eu colo um pedaço um pouco torto, ou quando falta uma lasca, continuo a achá-la tão linda quanto antes, mas se outra pessoa fizesse isso ia achar que tinham-na estragado. Da última vez que a escultura quebrou (faltei na escola ontem consertando...), caíram 4 pedaços, um deles bem mais profundo que os outros 3. Mas se eu consertasse qualquer dos 3 antes, minha mão não ia alcançar o outro pedaço. Quando enfiei minha mão para colar esse pedaço, as farpas dos outros três rasgavam meu punho, e mesmo sentindo toda aquela dor e o risco de me machucar seriamente, preferia terminar o que tinha começado. Ia ter que passar por aquilo de qualquer forma (e imagina se a mão grande do meu pai ia alcançar aquele lugar...). Sabe, meu maior medo nessa vida é um dia deixar a escultura quebrar de uma forma que eu não consiga consertar... ver todos os pedaços no chão, acho que ia ficar meses tentando encontrar uma maneira de colar. No final ia pegar um pedacinho mais bonitinho, guardar numa caixa como lembrança do que já tive e que não soube conservar. Quando minha mãe morreu, meu pai me disse que ela agora estava com Deus, e que quando Ele achasse que era nossa hora, a gente ia poder encontrar de novo com ela. Isso me ajudou muito a enfrentar a ausência dela. Se minha escultura de cristal quebrar, ninguém pode dizer que vou encontrá-la numa próxima vida...

2 Comments:

Blogger Penalva said...

Talvez algumas esculturas sejam mais vivas que a maioria dos humanos...

11:12 AM  
Anonymous Anônimo said...

Eu te amo.

1:13 PM  

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