02/02/2005

A Clockwork Orange????

Antes que eu começasse as tão famosas (no meu Blog) aulas teóricas de condução de veículos, minha tão admirada irmã me disse que fizeram ela assistir um vídeo horrível, com cenas de acidentes violentíssimas, que ela saiu de lá prometendo a si mesma dirigir a 20 Km/h. Então, ontem, quando estava pensando no meu Blog, já tinha formulado toda uma comparação dessa experiência com o filme “Laranja Mecânica”, de Stanley Kubrick: No filme, por ter cometido diversos crimes, Alex é submetido a um tratamento que, através de remédios e imagens de ultraviolência, acabam associando na mente de Alex a dor alheia com sua dor. Porém, como as imagens eram acompanhadas das músicas de Ludwig Van Beethoven, o pobre criminoso acabou associando suas músicas tão amadas à dor também. Na vida real, antes mesmo que eu pudesse pegar um veículo, seriam exibidas a mim tais imagens ultraviolentas que associariam infrações à dor. Essa era a comparação que eu pretendia fazer. Mas era apenas uma suposição. O que aconteceu de verdade foi o seguinte: iniciada a aula, a professora advertiu-nos das cenas que veríamos. Então ligou o vídeo. Antes que eu pudesse falar “a”, o televisor começou a tocar uma música de Philip Glass. Lembrei-me de A Laranja Mecânica e senti um pavor profundo. Olhei para a porta, pensei em sair. Mas, por sorte, era o filme errado. Ufa! Depois de colocado o filme certo (e devidamente explicado o motivo de exibição das imagens que se seguiriam – “conscientização”), realmente devo admitir que as imagens eram chocantes. Apesar da má qualidade da fita cassete, o meu tão gostoso almoço ameaçou fugir de seu triste destino corrosivo. Entretanto, os produtores da fita tiveram a consciência de não colocar nenhuma trilha sonora ao fundo. Então foi colocado outro vídeo no aparelho. Uma gravação de Globo Repórter. Pois é, a Globo virou obrigatória aos motoristas. No vídeo, como dita o padrão Globo, entrevistadores faziam perguntas induzindo respostas aos entrevistados. As cenas não eram mais tão chocantes e a trilha sonora ao fundo criava um melodrama que só posso categorizar como ridículo. E ainda dizem que é o Michael Moore que é tendencioso em seus documentários... Como tudo que a Rede Globo faz, o vídeo começou a me entediar (se não fosse tão “Globo” eu até ficaria comovido com as histórias). Me distraí tentando identificar as músicas que os editores colocavam ao fundo. Foi uma tarefa difícil, pois a qualidade do som era ruim e só eram tocados pequenos trechos das músicas. Mas consegui identificar alguns artistas: Queen, Elvis Presley, U2, Michael Jackson e até mesmo (pasmem!) Angelo Badalamenti (com a música tema de Twin Peaks). Depois desse vídeo, nos foi exibido ainda outro, também da Globo. Esse que começava com uma música do Philip Glass. Menos comovente ainda. E depois de uma pequena prova, estava livre para sempre (espero) das aulas teóricas do “CFC”. Resumindo: em pouco tempo passei de “I know the law, you bastards!” para “I was cured allright”. Só uma curiosidade acerca do filme, “Orange”, no título original, provavelmente não se refere a uma “laranja”, mas sim a um orangotango (um primata). Assim percebe-se que o título foi provavelmente mal traduzido. Mas prefiro-o assim. Dá um ar maior de mistério. E pelo menos não tem um subtítulo irritante (Exemplo: “Laranja Mecânica - um criminoso muito louco!”)

Como não fui tão afetado pela aula como havia sido no “post” anterior, resolvi parar de adiar a tão esperada (por quem? Por mim!) explicação sobre a inversão intenção/conseqüência. Entretanto, antes descreverei mais uma cena cotidiana de adesivo em ônibus. Havia um adesivo escrito “Passageiro: sua opinião faz a diferença”. Mas em cima dele havia sido colado com fita adesiva um papel com os dizeres:
“PROCURO UM AMOR
MOÇAS ME LIGUE
82851***
SOU MORENO CLARO
175 Mts 36 ANOS
AS DANIEL”
Achei interessante o suficiente para citar aqui. Me lembrou um cartaz que vi um rapaz segurando em um evento chamado “Anime Dreams” (um espécie de “carnaval de nerds” cheio de gente fantasiada de personagens de desenhos animados japoneses e personagens de jogos eletrônicos. Recomendo esse tipo de evento para todos os amantes da arte da animação (como eu) assim como pessoas que adoram ver gente diferente (como eu (duplo sentido)) ou até mesmo quem tem um senso de humor apurado (...).). Neste evento havia um rapaz com a placa “Case comigo (só mulheres)”. Será que a mensagem no ônibus era um sincero grito por afeto? Seria uma brincadeira de mal gosto com o dono do telefone citado? Ou algum esquema criminoso para seqüestro de pessoas desavisadas? (ocultei os últimos três dígitos por medo que algum visitante fosse vítima por minha causa).

Inversão Intenção/Conseqüência: xiii, a fonte que eu ia consultar não era a que eu achei que era... (acabei de reler “dinamicamente” um livro de ética que eu achei que citava a história que eu ia usar para exemplo...) – terei de lembrar a história de cabeça. Figura ela entre as muitas de “As Mil e Uma Noites” (eu acho...). Nessa história, um homem caminhando pelo deserto encontra uma linda prisioneira de um gênio, que dorme. A mulher, interessada em dormir com o viajante, diz: Você deitará comigo. Se assim fizer e o gênio não acordar, sairá livre. Caso contrário, acordarei o gênio e contarei que você deitou-se comigo. É aí que está a inversão. No caso que eu citava em relação a mim e pessoas medicando, devo ainda citar mais uma informação: em uma palestra do escritor Ferréz (escritor de “Capão Pecado”, “Manual Prático do Ódio” e organizador da revista “Literatura Marginal”), este contou que uma vez viu um garoto de rua conhecido seu todo feliz porque um passante disse “não” quando pediu dinheiro a ele. Quando indagado sobre o motivo de sua felicidade, disse: “Ao menos ele respondeu. A maioria passa reto”. Além desse dado, posso ainda citar uma pesquisa do psicólogo Fernando Braga, autor da tese da chamada “invisibilidade social”, isso é, homens invisíveis por terem condição social desfavorecida (o psicólogo desenvolveu a tese a partir de uma experiência como aluno: vestiu uma roupa de gari e permaneceu pelo campus onde estudava por um bom tempo, e ninguém o reconheceu, ou ao menos disse “oi”. Nem mesmo os professores que haviam dado aula para ele naquela manhã). Portanto, agora a aplicação do conceito de inversão intenção/conseqüência no caso de mendigos e passantes: se eu estou passando, sem dinheiro (ou sem vontade de dar dinheiro), por onde tem um garoto de rua, e eu dou atenção para ele (para dizer “não tenho”, ou simplesmente “não”), o garoto sente-se mais confiante para insistir e tornar-me mais culpado (ou até mesmo ser agressivo, como aconteceu em uma ocasião em que eu disse “não tenho” e o garoto respondeu “Prova, então. Deixa eu ver sua carteira”). Entretanto, se eu passar reto sem olhar para o garoto (ou usar óculos escuros), e simplesmente não responder ao apelo do pobre garoto, sou deixado em paz. O garoto não insiste, não tenta me deixar culpado. Se alguém tem alguma sugestão para esse dilema, por favor apresente-se (agora possibilitei comentários anônimos no blog).

Se você tem alguma sugestão, pedido ou crítica, deixe um comentário. (Assusta-me pensar que TUDO QUE EU DISSER pode e será usado contra mim “no tribunal do rei escarlate”...)

Vou deixar mais uma promessa no ar para que todos fiquem curiosos: no próximo “post” (a não ser que seja adiado, o que é provável), prometo fazer uma análise psicológica de comportamentos humanos teorizando uma suposta “naturalidade” nos valores católicos e dando uma possível explicação para comportamentos masoquistas, tudo isso baseado na observação direta da conduta de meus dois cachorros (o Neo e o Ziggy). Aguardem!

E-mails: mandem para abramo6@estadao.com.br