Paranóia
São 4:41 da manhã, do dia 15 de Abril de 2005. Fui dormir ontem pensando nas próximas provas, nas derivadas, nas integrais, etc do curso. Sonhei com números, acordei às 2:30 da manhã ainda pensando em números. Os números não me deixavam dormir - e eu tinha que dormir, pois no dia seguinte acordaria às 8:30 para estudar química para a prova de terça feira (hoje é sexta). Ainda pretendo acordar às 8:30 para estudar química, mas entendi que escrever esse texto é mais importante que todas as provas desse ano. Isso porque nas horas que se seguiram após eu acordar, depois de me livrar da lógica numérica que atormentava minha mente, comecei a refletir sobre minha vida. E cheguei à conclusão que boa parte de minha infelicidade é causada por minha paranóia. Minha paranóia, por sua vez, é integralmente (ou quase integralmente) causada por dois simples fatores. O primeiro deles é a teoria do convite. O segundo deles não tem nome, mas vou tentar explicar assim mesmo, depois de explicar a teoria do convite.
Teoria do convite: Existe uma maneira de se pensar o mundo como se as coisas fossem apenas as coisas sem serem outras coisas. Um carro é apenas um carro, sem ser, por exemplo, a extensão do ego do dono do carro. ("You must remember this, a kiss is just a kiss"). Mas as coisas são as coisas apenas em um determinado momento - em outro momento, as coisas se transformaram em outras coisas. Uma fatia de pão em um determinado momento é uma fatia de pão. Em outro momento, será matéria em decomposição - fungos e microorganismos e o que quer que tenha sobrado da fatia. Um homem vivo num momento é um homem morto no momento seguinte (ainda não chegamos na teoria do convite). Agora, podemos pensar que houve "intenção" no decorrer das ações. Exemplo: depois de vermos o pão embolorado, dizemos que a fatia de pão queria se tornar um pão embolorado. O homem vivo queria se tornar o homem morto. É agora que entra a mágica da teoria do convite: até aqui, observamos o estado final e o inicial, e dizemos que o estado inicial queria tornar-se o estado final. Agora, veja a diferença disso para a proposição da teoria: "As coisas são convites à outras coisas". De acordo com a teoria do convite, antes mesmo do pão virar embolorado, a fatia de pão era um convite ao pão embolorado. Antes de vermos o homem morto, o homem vivo já era um convite ao homem morto (dessa maneira o homem se torna morto ao mesmo tempo em que vive). O beijo é um convite ao sexo. O telefonema é um convite ao encontro. Dessa forma, o paranóico, antes de dar o beijo ou o telefonema, pensa se quer o sexo ou o encontro - pois, caso não queira, terá de fazer um esforço artificial e muito grande para barrar o "convite".
A outra componente da minha paranóia é muito mais séria do que a teoria do convite, embora também seja apenas um problema de visão de realidade. O que ocorre é que eu acredito que a todo instante alguma coisa é esperada de mim. Os outros SEMPRE esperam algo de mim - quando estou conversando, o outro espera que eu diga algo inteligente. Quando estou passeando, o outro espera que eu esteja sempre atento a tudo que acontece ao meu redor. Quando estou chapado, o outro espera que eu me mantenha minimamente sóbrio. Quando faço uma prova, o outro espera que eu tire uma nota alta. Quando faço uma escolha, o outro espera que eu fique satisfeito. É óbvio que algumas vezes o outro REALMENTE espera algo de mim. Mas a paranóia provém do fato de que o outro foi interiorizado por mim. O outro espera algo de mim mesmo quando não existe o outro (e o outro não existe mesmo, nunca, pois estou sempre sozinho, mesmo quando estou acompanhado). Esse trauma provém, em grande parte, do meu pai, que cumpriu o papel do outro minha vida inteira e ainda cumpre.
Pois é. Mas agora estou tranqüilo, pois a compreensão de um problema é um convite à sua solução (e espera-se que eu solucione em breve).
Agora provavelmente vocês entendem por que esse texto era mais importante que a prova de terça e as provas de quarta e as aulas de cálculo e minha noite de sono. Se não entendem, há algo de errado com suas prioridades. São 5:10 da manhã, talvez eu consiga dormir um pouco, talvez eu consiga ser feliz.
[obs do dia seguinte: tentei corrigir os erros de gramática sem alterar a estrutura do texto]
Teoria do convite: Existe uma maneira de se pensar o mundo como se as coisas fossem apenas as coisas sem serem outras coisas. Um carro é apenas um carro, sem ser, por exemplo, a extensão do ego do dono do carro. ("You must remember this, a kiss is just a kiss"). Mas as coisas são as coisas apenas em um determinado momento - em outro momento, as coisas se transformaram em outras coisas. Uma fatia de pão em um determinado momento é uma fatia de pão. Em outro momento, será matéria em decomposição - fungos e microorganismos e o que quer que tenha sobrado da fatia. Um homem vivo num momento é um homem morto no momento seguinte (ainda não chegamos na teoria do convite). Agora, podemos pensar que houve "intenção" no decorrer das ações. Exemplo: depois de vermos o pão embolorado, dizemos que a fatia de pão queria se tornar um pão embolorado. O homem vivo queria se tornar o homem morto. É agora que entra a mágica da teoria do convite: até aqui, observamos o estado final e o inicial, e dizemos que o estado inicial queria tornar-se o estado final. Agora, veja a diferença disso para a proposição da teoria: "As coisas são convites à outras coisas". De acordo com a teoria do convite, antes mesmo do pão virar embolorado, a fatia de pão era um convite ao pão embolorado. Antes de vermos o homem morto, o homem vivo já era um convite ao homem morto (dessa maneira o homem se torna morto ao mesmo tempo em que vive). O beijo é um convite ao sexo. O telefonema é um convite ao encontro. Dessa forma, o paranóico, antes de dar o beijo ou o telefonema, pensa se quer o sexo ou o encontro - pois, caso não queira, terá de fazer um esforço artificial e muito grande para barrar o "convite".
A outra componente da minha paranóia é muito mais séria do que a teoria do convite, embora também seja apenas um problema de visão de realidade. O que ocorre é que eu acredito que a todo instante alguma coisa é esperada de mim. Os outros SEMPRE esperam algo de mim - quando estou conversando, o outro espera que eu diga algo inteligente. Quando estou passeando, o outro espera que eu esteja sempre atento a tudo que acontece ao meu redor. Quando estou chapado, o outro espera que eu me mantenha minimamente sóbrio. Quando faço uma prova, o outro espera que eu tire uma nota alta. Quando faço uma escolha, o outro espera que eu fique satisfeito. É óbvio que algumas vezes o outro REALMENTE espera algo de mim. Mas a paranóia provém do fato de que o outro foi interiorizado por mim. O outro espera algo de mim mesmo quando não existe o outro (e o outro não existe mesmo, nunca, pois estou sempre sozinho, mesmo quando estou acompanhado). Esse trauma provém, em grande parte, do meu pai, que cumpriu o papel do outro minha vida inteira e ainda cumpre.
Pois é. Mas agora estou tranqüilo, pois a compreensão de um problema é um convite à sua solução (e espera-se que eu solucione em breve).
Agora provavelmente vocês entendem por que esse texto era mais importante que a prova de terça e as provas de quarta e as aulas de cálculo e minha noite de sono. Se não entendem, há algo de errado com suas prioridades. São 5:10 da manhã, talvez eu consiga dormir um pouco, talvez eu consiga ser feliz.
[obs do dia seguinte: tentei corrigir os erros de gramática sem alterar a estrutura do texto]

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