Tecnofobia e didatismo
Hoje de manhã eu estava em outra cidade (São Carlos). Dormi na casa de uma tia que mora lá pois hoje cedinho precisava fazer a inscrição na USP de lá (onde estudarei pelos próximos 5 anos...). Temendo que fosse muito difícil levantar cedo hoje (fiquei acordado até tarde ouvindo uma banda chamada ProjeKct One), resolvi fazer uma experiência: dormi no chão. Imaginei que seria desconfortável, portanto de manhã estaria ansioso para levantar. O que ocorreu foi muito diferente: acordei várias vezes durante a noite (porra, todo mundo ficou pisando na minha "cama" aí eu acordava). O desconforto perdurou a noite inteira, porém, exatamente na hora de acordar o chão ficou extremamente confortável. Estava até macio (!!). Passei o dia com sono.
Chegando em casa, alimentei minha tecnofobia lendo o caderno semanal de tecnologia do Estadão (o LINK). Deixe-me dar uma explicada em umas notícias
1 - Software ajuda gravadora a prever sucessos (24/01/2005) - De acordo com a matéria, foi desenvolvido um software que, através de análise estatística, prevê com 95% de precisão se uma determinada música vai "estourar" nas rádios. Sim, eu também acho que é história pra boi dormir, mas pelo jeito as gravadoras não acham. E a tendência é usar o software antes de gravar álbuns de novos artistas. Leiam a matéria inteira. Logo depois da matéria está um comentário que eu fiz sobre ela (ignorem o erro ortográfico no acento em "porquê" - não dá pra editar o comentário...). Mas minha tecnofobia não tem nada a ver com esse tipo de avanço científico.
2 - Computadores a um passo da ficção (14/02/2005) - Muito semelhante à matéria mencionada acima, essa afirma que as máquinas atingiram um grau de inteligência artificial suficiente para escrever melhor que a maior parte dos seres humanos. E dá um exemplo de texto produzido por computador. Acho que o comentário que eu fiz no site para a matéria "1" serve também para essa matéria (pra quem teve preguiça de ler, eu basicamente (odeio essa palavra, "basicamente") expliquei que não há motivo a temer, pois a arte continuará sendo arte e o mercado continuará a ser mercado). Portanto, mais uma vez minha tecnofobia não se justifica com esse tipo de avanço científico. Até agora eu estava só enchendo lingüiça, mas a partir do próximo é pra valer!
3 - Foram uma, duas, três matérias sobre "BIOMETRIA" no mesmo dia no LINK (faz tempo: 07/12/2004) que começaram minha paranóia. Você sabe, aquele esquema de identificação de pessoas pelas medidas corporais (bio = vida, metria = medida) - impressão digital, íris ocular, retina, rosto. Hoje já existem até mesmo escolas com leitora de digital para CONTROLE (palavra do dia). E a tendência é de crescimento do mercado.
4 - No dia 31/01/2005 apareceu uma ou outra matéria sobre a mais nova aquisição americana em robótica: um robô soldado para matar pessoas no Iraque - mais preciso que um atirador humano e mais "descartável" também. Não, não é ficção científica. É hoje e agora (na verdade já faz umas semanas...). Mas Ricardo Kobashi já fez o trabalho de comentar a matéria muito melhor do que eu (é claro, ele é jornalista...).
5 - Finalmente o que eu considerei a gota d'água ao ler hoje no jornal: Big Brother desde o berço - Reporta a existência hoje de uma série de escolas maternais que dispõe de serviço de vigilância 24 horas por dia para os pais poderem ver seu filhinho no maternal pela internet. Uma breve explicação sobre esse tipo de pai:
Prometi então a mim mesmo, já que trabalharei na área de engenharia mecatrônica, nunca trair meus ideais, o que no caso se traduz em nunca fazer nenhuma oferenda aos Novos Deuses (foda-se o mercado). É como diz a música: "Um Deus incomoda muita gen-te... Dois Deuses incomodam, incomodam muito má-ais. Dois Deuses incomodam...". No fundo eu tenho a impressão de que Prometeus (clique para ler o melhor texto que eu vi sobre essa importante figura que deu origem ao mito de Lúcifer - infelizmente (para alguns) o texto está em inglês) é mais feliz do que eu jamais poderia ser: tem a eternidade para poder se orgulhar de ter contribuído de maneira significativa em favor da humanidade. Quanto ao castigo divino, bom, até a dor pode ser burlada (e não, eu não espero que você leia TODOS os links que eu deixei aqui).
Hoje aproveitei o dia para ler um livro comprado de um cara na rua (provavelmente o próprio escritor) - é uma literatura "underground". Resolvi conhecê-la. O livrinho (menor que o artigo do último link) chama-se Balada Perdida, de Ricardo Carlaccio. O que mais me interessou foi o final da apresentação do livro ("Ler esta história é (...) aceitar enfim a alegria livre dos que percorrem as ruas orgulhosos de seu despojamento, mestres estes da não vida, os que aceitam suas moedas, caro leitor, mas riem da sua hipocrisia. O riso vence a morte"). Essa técnica (ofender o leitor) foi inaugurada por Machado de Assis (não me lembro em qual livro). É uma história sobre um homem do submundo urbano, que acaba morrendo e descreve-nos sua experiência no "pós-vida" de maneira bem humorada e cética (como já havia feito Machado em Memórias Póstumas de Brás Cubas). O livro faz referência a músicas de bandas como "Grand Funk", "The Doors" (fora a Janis Joplin), além de usar termos (horrorshow, drugue) tirados da história símbolo da minha geração e da anterior ("Laranja Mecânica", de Anthony Burgess - que depois virou filme com Stanley Kubrick). Por mais que eu não tenha achado o livro "nada de mais", gostei da experiência de comprá-lo, pois um dos futuros imaginados para (por) mim é sair por aí tentando vender meu livro pelas ruas. E esse livro parece ter sido impresso em papel sulfite e em uma impressora doméstica. Quem sabe não seja uma boa saída?
Pois bem, espero que vocês tenham gostado desse post. Mas lá vai uma inversão intenção/conseqüência: Se você gostou desse post pode já começar a se decepcionar, pois não pretendo ser tão didático para sempre (eufemismo para "NUNCA MAIS"). Eu estava bonzinho hoje... Se vocês não gostaram do estilo, alegrem-se: não se repetirá. Nunca mais haverá tantos "hiperlinks" em um post meu. Mas pretendo usá-los mais, pois, como já diria Michel Melamed, "Tudo é metáfora. Mas só Deus é hipertexto". Um abração pra vocês (acho que já devem ser uns 4...) leitores de "no tribunal do rei escarlate".
Chegando em casa, alimentei minha tecnofobia lendo o caderno semanal de tecnologia do Estadão (o LINK). Deixe-me dar uma explicada em umas notícias
1 - Software ajuda gravadora a prever sucessos (24/01/2005) - De acordo com a matéria, foi desenvolvido um software que, através de análise estatística, prevê com 95% de precisão se uma determinada música vai "estourar" nas rádios. Sim, eu também acho que é história pra boi dormir, mas pelo jeito as gravadoras não acham. E a tendência é usar o software antes de gravar álbuns de novos artistas. Leiam a matéria inteira. Logo depois da matéria está um comentário que eu fiz sobre ela (ignorem o erro ortográfico no acento em "porquê" - não dá pra editar o comentário...). Mas minha tecnofobia não tem nada a ver com esse tipo de avanço científico.
2 - Computadores a um passo da ficção (14/02/2005) - Muito semelhante à matéria mencionada acima, essa afirma que as máquinas atingiram um grau de inteligência artificial suficiente para escrever melhor que a maior parte dos seres humanos. E dá um exemplo de texto produzido por computador. Acho que o comentário que eu fiz no site para a matéria "1" serve também para essa matéria (pra quem teve preguiça de ler, eu basicamente (odeio essa palavra, "basicamente") expliquei que não há motivo a temer, pois a arte continuará sendo arte e o mercado continuará a ser mercado). Portanto, mais uma vez minha tecnofobia não se justifica com esse tipo de avanço científico. Até agora eu estava só enchendo lingüiça, mas a partir do próximo é pra valer!
3 - Foram uma, duas, três matérias sobre "BIOMETRIA" no mesmo dia no LINK (faz tempo: 07/12/2004) que começaram minha paranóia. Você sabe, aquele esquema de identificação de pessoas pelas medidas corporais (bio = vida, metria = medida) - impressão digital, íris ocular, retina, rosto. Hoje já existem até mesmo escolas com leitora de digital para CONTROLE (palavra do dia). E a tendência é de crescimento do mercado.
4 - No dia 31/01/2005 apareceu uma ou outra matéria sobre a mais nova aquisição americana em robótica: um robô soldado para matar pessoas no Iraque - mais preciso que um atirador humano e mais "descartável" também. Não, não é ficção científica. É hoje e agora (na verdade já faz umas semanas...). Mas Ricardo Kobashi já fez o trabalho de comentar a matéria muito melhor do que eu (é claro, ele é jornalista...).
5 - Finalmente o que eu considerei a gota d'água ao ler hoje no jornal: Big Brother desde o berço - Reporta a existência hoje de uma série de escolas maternais que dispõe de serviço de vigilância 24 horas por dia para os pais poderem ver seu filhinho no maternal pela internet. Uma breve explicação sobre esse tipo de pai:
Os Novos Deuses
Tendo sido abençoado com privacidade durante a infância, nunca soube o mal que é viver sob sua ausência. Aproveitou-se (durante a juventude) dos avanços tecnológicos, talvez até tenha contribuído para esses avanços. Mas agora já está mais velho, substituiu sua vivacidade por um sedentarismo que só pode ser proporcionado com os atuais avanços científicos. O corpo físico de uns tempos para cá começou a ficar cada vez mais obsoleto, uma vez que pode receber estímulos sensoriais de qualquer lugar do mundo sem sair de sua casa. E receber tudo que precisa para manter o corpo vivo sem sair de casa. E trabalhar para comprar os mantimentos sem sair de casa. Tendo perdido seu caráter físico, o homem tornou-se uma espécie de espírito, tendo como principal fonte de prazer apenas dois atos: mandar e observar. Tornou-se um novo Deus. Onipotente em seu território, sua casa. E (aquilo que o caracteriza como Deus) onipresente graças à internet. Todos vivem sob seus olhos julgadores, sua vigilância. E como futuro, seu filhinho que hoje está no maternal pode apenas se inspirar e entrar pra mais um desses programas Big Brother. Mas não, quando ele tiver idade suficiente, não existirá mais Big Brother como vocês conhecem pela globo, pois 1984 já terá deixado de ser ficção.
Prometi então a mim mesmo, já que trabalharei na área de engenharia mecatrônica, nunca trair meus ideais, o que no caso se traduz em nunca fazer nenhuma oferenda aos Novos Deuses (foda-se o mercado). É como diz a música: "Um Deus incomoda muita gen-te... Dois Deuses incomodam, incomodam muito má-ais. Dois Deuses incomodam...". No fundo eu tenho a impressão de que Prometeus (clique para ler o melhor texto que eu vi sobre essa importante figura que deu origem ao mito de Lúcifer - infelizmente (para alguns) o texto está em inglês) é mais feliz do que eu jamais poderia ser: tem a eternidade para poder se orgulhar de ter contribuído de maneira significativa em favor da humanidade. Quanto ao castigo divino, bom, até a dor pode ser burlada (e não, eu não espero que você leia TODOS os links que eu deixei aqui).
Hoje aproveitei o dia para ler um livro comprado de um cara na rua (provavelmente o próprio escritor) - é uma literatura "underground". Resolvi conhecê-la. O livrinho (menor que o artigo do último link) chama-se Balada Perdida, de Ricardo Carlaccio. O que mais me interessou foi o final da apresentação do livro ("Ler esta história é (...) aceitar enfim a alegria livre dos que percorrem as ruas orgulhosos de seu despojamento, mestres estes da não vida, os que aceitam suas moedas, caro leitor, mas riem da sua hipocrisia. O riso vence a morte"). Essa técnica (ofender o leitor) foi inaugurada por Machado de Assis (não me lembro em qual livro). É uma história sobre um homem do submundo urbano, que acaba morrendo e descreve-nos sua experiência no "pós-vida" de maneira bem humorada e cética (como já havia feito Machado em Memórias Póstumas de Brás Cubas). O livro faz referência a músicas de bandas como "Grand Funk", "The Doors" (fora a Janis Joplin), além de usar termos (horrorshow, drugue) tirados da história símbolo da minha geração e da anterior ("Laranja Mecânica", de Anthony Burgess - que depois virou filme com Stanley Kubrick). Por mais que eu não tenha achado o livro "nada de mais", gostei da experiência de comprá-lo, pois um dos futuros imaginados para (por) mim é sair por aí tentando vender meu livro pelas ruas. E esse livro parece ter sido impresso em papel sulfite e em uma impressora doméstica. Quem sabe não seja uma boa saída?
Pois bem, espero que vocês tenham gostado desse post. Mas lá vai uma inversão intenção/conseqüência: Se você gostou desse post pode já começar a se decepcionar, pois não pretendo ser tão didático para sempre (eufemismo para "NUNCA MAIS"). Eu estava bonzinho hoje... Se vocês não gostaram do estilo, alegrem-se: não se repetirá. Nunca mais haverá tantos "hiperlinks" em um post meu. Mas pretendo usá-los mais, pois, como já diria Michel Melamed, "Tudo é metáfora. Mas só Deus é hipertexto". Um abração pra vocês (acho que já devem ser uns 4...) leitores de "no tribunal do rei escarlate".

1 Comments:
oi meu nome é Bianca sou uma grande admiradora e amiga de Ricardo Carlaccio, o autor de Balada Perdida.Achei legal o que vc escreveu sobre o livro é sua opinião e eu respeito.Só tenho duas coisinhas pra comentar:primeiro:o trabalho dele ´e feito em grafica não tem nada de caseiro e ele banca do próprio bolso.um dos poucos que tem culhão pra sair por aí vendendo a sua arte com muita categoria sem ficar "microbando"por aí.
Segundo:vc só leu memórias postumas de brás cubas????bom tudo bem, eu te perdôo.coisa de fã.
Ricardo Carlaccio acabou de lançar o seu novo livro o "Blues Escarlate".esse com certeza vc não vai achar que foi feito numa impressora caseira.trabalho grafico de primeira.o legal desse cara é isso ,a cada livro ele evolui.um dia ainda vamos ouvir falar muito dele.qdo vc for ao espaço unibanco de cinema procure por ele e confira!um abraço! Bianca
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