23/02/2005

A difícil decisão de NÃO vender minha alma

Esqueçam os outros "posts" do blog. Esse é de longe o melhor texto até agora. Levantei da cama no meio da madrugada só pra escrever isso.

A difícil decisão de NÃO vender minha alma

Outro dia, lendo um blog interessante, me deparei com um link para um site chamado "We Want Your Soul". De início foi muito intrigante. O site prometia comprar minha alma para sempre, em dólares. Ingênuo como sou quando me deparo com as coisas pela primeira vez, confesso que fiquei tentado a vender minha alma. Desde a primeira vez que alguém mencionou a história de Fausto fiquei intrigado com esse negócio. Pouco depois do meu entusiasmo inicial, já comecei a suspeitar do site. Lembrei-me do filme "A Paixão de Cristo", que não vi, mas que me deu a brilhante idéia de um dia fazer um filme sobre Cristo. Por que? Simplesmente porque qualquer coisa que leve o nome dele fatura uma PUTA (adoro palavrões, apesar de não acreditar neles) grana. Aliás, é apenas por isso que o livro Código Da Vinci (que ainda não li) fez tanto sucesso, inspirando tantos plagiadores. Então a idéia do site "We Want Your Soul" já ficou mais clara na minha cabeça. Como havia sido ingênuo ao acreditar que poderia haver qualquer outra motivação no mundo além de dinheiro. Sim, o site é COMERCIALMENTE PERFEITO! Muito melhor que minha idéia de fazer um filme sobre Cristo, porque é mais barata, e porque FOI FEITO. Ao mesmo tempo que seu texto é extremamente convincente no sentido de parecer ser uma corporação, seu visual foi cuidadosamente escolhido para ter um design diabólico, desde os sorrisos "sinistros" na foto da página inicial até a escolha das cores laranja e preto. Além disso, para os descrentes, há no site uma "brincadeira" que é ver o grau de pureza de sua alma. Atinge todos os visitantes do site, independentemente de suas convicções. Percebi o potencial lucrativo do site. É quase infinito. E comecei a imaginar o quanto um site desses não faria sucesso num país como o nosso que tão hipocritamente misturou esoterismo e catolicismo. Quantas pessoas no Brasil não acessariam o site e acabariam comprando os produtos que "aumentam a pureza da alma"? Muitos. E o dono do site ia ganhar uma fortuna, pois foi a maior idéia de márqueting desde a martirização. Comecei a pensar seriamente em roubar a idéia do "WWYS" e fazer algo semelhante no Brasil. Ele nem poderia me processar, pois certamente sua idéia não estava registrada como "explorar a ignorância das pessoas fingindo ser uma empresa que compra almas humanas". Pouco depois minha admiração pela inteligência do criador do WWYS me proibiu de continuar com essa idéia. Ao invés disso, comecei a me imaginar mandando um e-mail para o gênio por trás do site oferecendo-me para abrir uma "filial" de sua empresa no Brasil. Além de traduzir a página, eu usaria os contatos que tenho para divulgar o site no estilo "nossa, olha que absurdo, o que acontece hoje no mundo!". Nesse caso "não existe má propaganda", ou seja, quanto mais difamado fosse "meu" site, melhor. E ainda teria a satisfação de sentir aquela sensação de superioridade... pobres mortais, nem entendem que é simplesmente um golpe de marketing, que não existe nenhuma motivação maior que dinheiro para o site. Então parei para refletir sobre os efeitos de minha ação sobre a sociedade: sim, eu ia ganhar uma PUTA grana. Mas, para isso, meu site representaria para os leitores desavisados, não "um absurdo demoníaco" (como eu gostaria que representasse), mas "uma prova irrefutável da existência de vida após a morte" - pois "ninguém colocaria tanto dinheiro em algo inexistente" (dois erros de quem pensa assim: 1 - eu não estaria colocando dinheiro algum, pois, obviamente, eu não tenho interesse nenhum em comprar almas. 2 - as pessoas colocam, sim, seu dinheiro em coisas inexistentes). O site WWYS usa termos científicos (genética, medicina, etc) para falar das almas. Assim, se eu fosse abrir uma flial, ajudaria a enfiar no inconsciente coletivo a idéia de que ciência e religião caminham de mãos dadas, idéia essa que causa muito mal à humanidade em geral (nem vou gastar minha... caneta (?) discutindo o porquê disso). Não vejo nenhum problema moral em lucrar com a ignorância das pessoas. Mas lucrar AUMENTANDO, DISSEMINANDO, APOIANDO a ignorância das pessoas é algo que eu não admito. Por isso abandonei sem nenhuma dor de consciência a idéia de abrir uma filial brasileira da WWYS. O dinheiro que eu ganharia é certamente muito tentador. Mas para isso teria de trair meus ideais. AGORA ENTENDI!!! Esse site me deu REALMENTE a oportunidade de vender minha alma, e tive de buscar fundo nela para chegar à conclusão de que é melhor mantê-la.