23/02/2005

Não é um poema

Acalmem-se todos. Vou adiar provisoriamente as explicações prometidas (nome do blog). Fiquei com vontade de escrever um discurso, em versos. Hoje sabe-se que um poema não é mais caracterizado por suas estrofes e versos, uma vez que existem poemas concretistas que acabaram com essa noção. Assim, também tenho direito de escrever um discurso em versos sem que seja um poema. E foi o que eu fiz. Por que não é um poema? Porque não tem nenhuma intenção poética. Simples assim. Uma vez li uma definição de "conto" que era o seguinte: "Conto é o que o autor disser que é um conto". Pois bem, poema é o que o autor disser que é um poema, discurso é o que o autor disser que é um discurso (desafio-o a escrever um discurso concretista ahahahaha)

NÓS E ELES

Um homem entra em um cinema (oh yeah)
Depois vai ao banheiro (uh uh uh)
Dá um tiro no espelho (espelho!)
E volta metralhando (bang! bang!)
Várias pessoas vivas (ah ah ah)
Algumas pessoas mortas (mortas!)

Quem é esse indivíduo -
Todos se perguntam
Quem é esse indivíduo?
Então todos respondem:

Não há indivíduo culpado
Só há indivíduos mortos
E quem os matou foi:

Marylin Mason e seus rocks satânicos
Duke Nuken e sua violência interativa
Clube da Luta e sua violência animada
Cigarro, maconha e drogas pesadas
Ratinho, Leão, Cidade Alerta - televisão

Então quem sou eu? Quem é ele?
Ninguém. Não existe indivíduo.
O Indivíduo é uma ilusão coletiva
O indivíduo é uma ilusão coletiva.



Não, não aceito.



Nós sabemos hoje que a matéria sólida é feita de espaço vazio?
Nós sabemos hoje que a massa é uma das formas de armazenamento de energia?
Nós sabemos hoje que a estrela mais próxima fora o Sol fica a três anos-luz da Terra?
Nós sabemos hoje que a composição da atmosfera de Saturno é 88% Hidrogênio, 11% Hélio?

Nós levantamos cidades de pedra enormes?
Nós somos capazes de construir complexos aparelhos eletrônicos?
Nós dominamos o calor do deserto, a imensidão dos oceanos e o frio das calotas polares?
Nós construímos satélites de comunicação e os colocamos ao redor da Terra? Nós fomos à Lua?

Não, não, não, não, não, não, não, não.
Sabemos que existe um Deus preocupado apenas com nossos desejos?
Sabemos que todo mal é culpa de Satanás?
Sabemos que para falar com alguém temos que apertar uns botões.?
Sabemos repetir para sempre o que nos foi repetido sempre?
Talvez.

Então quem somos nós?
Nós não é ninguém.
O coletivo é uma ilusão individual
O Coletivo é uma ilusão individual.



Como estou com um bom humor dos infernos, vou me livrar de uma vez da obrigação de explicar para vocês jovens desatentos o sentido oculto subliminar por trás do inocente título "no tribunal do rei escarlate". No último "post" vocês devem ter percebido que meu "nick" no msn no momento daquela conversa era "In the court of the Crimson King (banho)". Ignorem o banho... é que eu tinha esquecido de tirar. O que importa é o nome em inglês. É o título de uma música do King Crimson. A título (da previdência? não...) de curiosidade, aqui está a letra da música:

In the court of the Crimson King

The rusted chains of prison moons
Are shattered by the sun.
I walk a road, horizons change
The tournament’s begun.
The purple piper plays his tune,
The choir softly sing;
Three lullabies in an ancient tongue,
For the court of the crimson king.

The keeper of the city keys
Put shutters on the dreams.
I wait outside the pilgrim’s door
With insufficient schemes.
The black queen chants
The funeral march,
The cracked brass bells will ring;
To summon back the fire witch
To the court of the crimson king.

The gardener plants an evergreen
Whilst trampling on a flower.
I chase the wind of a prism ship
To taste the sweet and sour.
The pattern juggler lifts his hand;
The orchestra begin.
As slowly turns the grinding wheel
In the court of the crimson king.

On soft gray mornings widows cry
The wise men share a joke;
I run to grasp divining signs
To satisfy the hoax.
The yellow jester does not play
But gentle pulls the strings
And smiles as the puppets dance
In the court of the crimson king.

Essa música está presente no álbum "In the court of the Crimson King", o primeiro álbum do King Crimson, de 1969, álbum esse que revolucionou o conceito de rock progressivo (alguns afirmam que é o primeiro álbum verdadeiramente progressivo). "no tribunal do rei escarlate" é uma tradução livre do título da música, visivelmente errada, pois a tradução mais adequada seria "na CORTE do rei escarlate", pois, apesar de "Court" poder ser traduzido como tribunal ou corte, a figura do "yellow jester" não deixa dúvidas de que não se trata de um tribunal. Entretanto, a idéia de tribunal dá um sentido totalmente diferente à música. E é muito adequada ao blog, pois, andei percebendo, o principal tema do blog é justamente a culpa. Existe um estudo bastante extenso da letra dessa música, dentro do contexto do álbum da banda, que relaciona o "rei escarlate" a Frederick II. Entretanto, para nós que não temos saco de estudar tão profundamente esse assunto especificamente, ou para nós que, como Alberto Caeiro, não nos vemos desejosos de encontrar significados ocultos no que se nos mostra simples, Rei Escarlate é simplesmente "Beelzebub", que por sua vez não é ninguém menos que Baal (embora na demoniologia cristã tudo não passa de uma só entidade, que é Satanás). E a idéia de um tribunal no qual o diabo é o juiz já fez parte de meu imaginário em uma redação para a escola que fiz na sexta série, e que me marcou até hoje. Essa é a explicação para o nome do blog. Apenas para saciar e atiçar a curiosidade dos leitores, este é o símbolo de Baal: (obs: a imagem foi "roubada" desse site. Se sair do ar mande-me um e-mail)

Despeço-me com um caloroso abraço digital artificial.