O homem escrevia com sua linguagem própria nos pilares da ponte e eu o observava, apenas, com culpa e escrevia.
- Seu vampiro! escreve sobre mim, faz um livro, fica rico, enquanto eu fico aqui vivendo de lixo e morrendo de fome. Me tira tudo que eu tenho e vende.- Não estou escrevendo sobre você. Escrevo de mim mesmo enquanto vejo você escrever de você.
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Ela estava tão ocupada, tão concentrada que não tinha tempo para mim. Todos sabiam disso, menos eu. Eu estava tão ocupado, tão concentrado, só pensava em chegar até ela. Mas ela não podia estar comigo. Eles sabiam disso, e me seguravam, me impediam. Mas eu estava tão preocupado, tão concentrado que nem os enxergava. Alcançá-la e nada mais.
- Diga, se você é tudo que importa para mim, por que eu não posso ser tão importante para você?
Eu não compreendia. Ela estava ocupada.-----------------------------------------
Quantas fotos! Fotos de alegria, fotos de mulheres, fotos de sexo. E eu ia olhando, e conforme fosse lembrando que aquelas pessoas só existiam na minha imaginação, suas imagens iam desaparecendo das fotos. Eu chorava e sabia que aquele era o limite da tristeza. Senti uma espécie de orgulho. Tinha atingido o limite.
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Ele havia angariado tanto conhecimento ao longo da vida e as mulheres o admiravam (de longe) por isso.
- Na sua ignorância você não pode compreendê-lo. Sem um conhecimento minimamente comparável ao dele tudo que lhe resta é uma admiração cega. Ele se reduz a um sábio estrangeiro.
- Você que o está reduzindo a apenas isso. Eu o considero uma pessoa completa, com um lado que não compreendo e admiro. Ademais, ele me é tão próximo como qualquer outro poderia ser.
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Estávamos juntos, eu e ela. Eu queria falar com ela, só pra vê-la virar-se e concentrar-se em mim. Mas não tinha nada pra dizer. Sentávamo-nos lado a lado, olhando para frente. E sonhava conversas vazias, interessadas. Sonhava meu amor em dobro.
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- Quando eu menti?
- Quando disse que me amava.
- É verdade.
- Mas você tinha prometido nunca mais mentir pra mim, lembra? Já faz uns dois anos. Nós não estávamos mais apaixonados naquela época do que estamos agora. Ousaria dizer que até menos. Como que isso aconteceu?
- Eu não sei, acho que já mentia desde aquela época. Eu não consigo. Eu quero falar a verdade, mas é impossível. Menti antes, minto agora e acho que mentirei para sempre. A verdade é feita para ser descoberta. Seguro de meu amor por você, deixei de pensar nele. Comecei a interpretar. Interpretava de aumentar todos os seus defeitos, pois julgava conhecer sua real medida. Interpretava não dar a mínima pra você. Interpretava ser você inatingível, pois acreditava que acreditava acertar você sempre no alvo. Dizem que depois de muito fingir o ator passa a acreditar na própria fantasia. Mas não foi isso que aconteceu. Não pode ter sido. Minha fantasia tinha por objetivo apenas engrandecer seu nome. "Veja como ela é especial, casada com uma pessoa que a enxerga em suas medidas reais, conhece suas qualidades e seus defeitos, não precisa mentir aos outros nem a si mesmo. E ainda assim a ama. Amemos-na também!". Agora tal pensamento parece idiota, mas ele foi se construindo aos poucos. Era a sinceridade que me fascinava: queria que as pessoas te admirassem por eu ser sincero (e modesto, e lúcido). E para isso mentia (para os outros, nunca para você. Aliás, com você quase não cheguei a trocar palavras durante esse período). Então teve aquele dia no ônibus. Ante-anteontem, voltando de São Carlos. Eu estava sentado feliz da vida na janela, quando vi uma mulher bonita vindo em minha direção. Sorri para ela, pensando que era ela a afortunada que sentaria ao meu lado. Ela sentou-se na outra fileira, e seu namorado, um homem também bonito, foi quem sentou-se comigo. Tinha um rosto que me lembrava um tipo de carinho paterno que não vem do pai. Então era eu na janela e um casal separado por um corredor de ônibus. Foi quando o rapaz bonito virou-se para mim e perguntou-me se eu não poderia fazer um favor a ele e sua amante e trocar de lugar com ela para que eles pudessem ficar juntos. Antes mesmo de refletir sobre minha ação já estava semilevantado pronto para fazer a transição, quando lembrei-me que as cadeiras que ficam no corredor não são atingidas pela iluminação do ônibus, o que dificultaria bastante a leitura dos livros que trazia (trazia três livros: Dublinenses, livro de contos de James Joyce; Carta ao pai, carta cuja publicação invadiu a privacidade do então já falecido Franz Kafka e seu respectivo pai; e Lanterna Mágica, auto-biografia de Ingmar Bergman que atualmente influencia minha maneira de pensar). A lembrança desse detalhe do ônibus trouxe-me uma expressão de dor e arrependimento à face, assim como um gemidinho, que foi interrompido pela mulher bonita que disse "Mas é a janela, né?" Confirmei com um "É" meio fanho. "Tudo bem, não tem problema". E o braço dela atravessou o corredor para pousar-se sobre a mão do amante, numa cena melodramática que me lembrou o filme "Dumbo". Comecei a olhar a janela, meio que pra justificar o fato de não ter trocado de lugar, mas aquilo começou a me atormentar. O casal aproveitaria o lugar mais do que eu - a mudança geraria um "superávit de felicidade" em nós três (o aumento de felicidade dos dois seria maior que minha diminuição de felicidade, principalmente agora que não conseguiria ocupar o atual lugar sem um sentimento de culpa). Além disso, desde que nasci tenho bem claro um dos meus objetivos de vida: ser amado pelas pessoas ao meu redor. E naquela configuração eu era o garotinho egoísta que não queria ceder lugar ao casal. Um empecilho ao amor deles. Senti o ódio crescendo no homem-paterno ao meu lado. Se eu tivesse mudado de lugar, por outro lado, seria um garoto legal, cúmplice, patrono do amor do casal. Comecei a reconsiderar a mudança de lugar, mas ainda estava indeciso. Mas pensei em um motivo muito mais forte do que esses: a mulher bonita tinha compreendido minha dor e nem esperou para sugerir que a mudança poderia ser negativa para mim. Ela preferia ficar na dela do que incomodar um estranho. Desse modo, ela era igual a mim. Só que eu não havia agido igual a mim. Então virei para o homem-pai-bonito e disse para ele que havia pensado naquilo e que não haveria problema em mudar de lugar (eu sabia que me arrependeria daquilo, mas ia me arrepender mais se não fizesse aquilo). Ele me respondeu que "não precisa, pode ficar aí, não tem problema". A mulher ouviu as palavras do amante e arregalou seus olhões verdes e não me lembro exatamente como ocorreu essa inversão mas de repente era a mulher que insistia em incomodar o estranho e o homem que fazia papel de mim. "Eu mudo, não há problema nenhum mesmo" (agora que já não havia mais volta minha confirmação apenas acelerou a cena incômoda). O gentil estranho faz um sacrifício pelo próximo. Vede como é bondoso! E não recebe outra recompensa senão um humilde "obrigado". Senti-me ridículo, até mesmo humilhado. Ao meu lado agora havia uma garota, também bonita, que nem chegou a virar o rosto enquanto o estranho sentava ao seu lado. Ela não havia concedido o favor ao casal, mas eu havia. Com isso em mente comecei a explicar a ela (na minha cabeça, é claro) todos os motivos que me levaram a fazer esse favor (egoísmo, vaidade, etc). Levei meia hora nessa explicação (me embananei uma pá de vezes), mas ela era paciente. Então me disse que era o destino que tinha feito com que eu mudasse de lugar para me sentar ao lado dela. Enquanto pensava no quanto desprezava as convicções egocêntricas da garota ao meu lado (deitada de costas para mim por enquanto na vida real), expliquei para ela de maneira surpreendentemente respeitosa minha visão sobre o destino: "Sentarmos um ao lado do outro foi uma oportunidade.". No fundo nossas diferenças de concepções eram uma questão de linguagem. Tive que interromper a fantasia por aí, pois enquanto isso na vida real a princesinha nem havia me olhado nos olhos. Nem havia se voltado para mim. Foi então que a metalinguagem mental, o pensar sobre o pensar, me ocorreu. Eu havia percebido pela primeira vez que desde que eu nasci eu converso com pessoas que não conheço. Eu sempre explico a elas a maneira como funciono, elas ficam fascinadas pela minha personalidade. Elas me perguntam sobre mim. A garota de óculos, por exemplo, me perguntou por que eu tinha gostado mais dela do que da amiga dela que é mais bonita que ela. "Esses óculos te dão um ar intelectual e eu gosto de garotas intelectuais". Meu colega de universidade falava com uma garota bonita sobre mim: "ele é um nerd". Então eu chegava e falava "Como é que você fala mal de uma pessoa para alguém que você nem conhece? (ele tinha conhecido a garota naquela hora). Mas é engraçado, isso aconteceu comigo há pouco tempo: eu conheci um garoto que tinha acabado de terminar com o namorado dele, e ficava falando mal dele pra mim. Eu tinha acabado de conhecer o garoto - era amigo dele assim como poderia ser amigo do ex dele. Como que eu poderia confiar no testemunho do amigo recém-conhecido mais do que no ex dele? (essa história era apenas 50% verdade) Mas a gente faz essas coisas. Você, por exemplo (agora estou falando com a garota), acredita que eu seja um nerd porque conheceu um cara há 10 minutos que disse isso, um cara que por sinal não sabe nada sobre mim..." e por aí vai. Às vezes quando estou caminhando sozinho explico minha vida, meu eu a alguma garota bonita (é sempre uma garota bonita) que não só eu não conheço como nem existe. Foi criada naquele momento só pra mim. Passei a vida dando satisfações a estranhos, justificando cada ação minha, cada crença. Eu estava pensando nisso quando você apareceu e nós conversamos e você descobriu a verdade. Mais do que isso, você descobriu que apesar da minha promessa, eu havia mentido para você. Minha atuação foi aos poucos construindo uma barreira que me separou de você. Agora quando eu inventava mentiras sobre sua pessoa não era mais por me sentir seguro quanto a quem você era. Eu não negava nem afirmava minhas mentiras. apenas não pensava nelas. E entendi que ninguém nunca vai te admirar por minha sinceridade fingida. Nunca. Fiquei tão abismado com essa constatação que nem respondi ao "desculpe" da princesinha que tão delicadamente esbarrou em mim. Apenas fiquei calado. Mas tive que voltar à realidade para responder "de nada" ao casal mais uma vez, e fui encontrar meu pai e por isso adiei essa conversa até hoje.