Prelúdio
Ariel sonhava um mundo possível dentro do nosso mundo, no qual o mendigo Vinicius era um superherói que não conseguia dinheiro ou uma vida digna por meio de seu heroísmo, a travesthy Madonna tivera no passado um duradouro relacionamento lésbico do qual florescera um filho ou filha alternando sob as influências libertárias de suas duas mães divorciadas. A liberal Elisa no ano que completaria sessenta anos comemoraria sessenta amantes (uma média de 5 por mês!), Leonel se deixaria seduzir por uma dominatrix, com quem teria emoções tão intensas que o absorveriam de todas as trivialidades que o atormentam a cada instante (que invariavelmente deixa(va) transbordar de si para afogar os circundantes). Nesse mundo sonhado, Ariel, a despeito de uma maldição que lhe havia sido jogada, de por onde andar apenas encontrar pelo chão moedas de 1 ou no máximo 5 centavos, ainda haveria de encontrar centenas de moedas mais valiosas, não parando nas de 1 real, pois as mais antigas, de colecionador, valeriam mais que seu peso em platina. Enquanto totalmente chapado, trazendo, além das alterações químicas vindas de fora, as veias carregadas de serotonina e adrenalina das noites de amor, prazer e dor consentida, olharia pela janela, para o escritório ao lado, e veria, para seu espanto (encanto), subvertendo a ordem da sociedade do consumo em prol de seus desejos primitivos irreprimíveis, as duas dentre quase mil e quatrocentas pessoas que a cada instante devem estar transando, considerando uma média de 15 minutos de sexo por semana por pessoa igualmente (im)prováveis em qualquer instante da semana.
Fuga
1 - Ariel:
Qual o sentido da vida? Pareceria, a um observador de fora, como é o caso de Ariel, que para o mendigo Vinicius o sentido da vida estava em absolutamente todas as coisas, como o ar que respiramos. O fato de estarmos vivos para mais um dia... Para Leonel a vida era feita do cuidadoso planejamento para desfrutar da família e da arte em segurança. Elisa acreditava que o sentido da vida estava na felicidade, em sentir-se bem consigo mesma e desfrutar de todas as pequenas coisas prazerosas. Para o próprio Ariel, um ser curiosíssimo cujo maior prazer era a busca de objetos valiosos pelo caminho, aí estava o sentido de sua vida (uma versão distorcida do sentido de Elisa...). Madonna, por fim, via a vida como a constante e dolorosa afirmação de si mesma, como uma cicatriz que se faz ver por seu portador. Mas isso tudo, eu dizia, eram aparências absorvidas de fora, resumidas simplisticamente. Observemos mais de perto o caso de Ariel...
Quando pequeno, seu bisavô lhe trazia da rua pequenos objetos encontrados pelo chão. Por motivos já apagados pelas décadas, foi desse forte e feliz homem que Ariel herdou seu conceito de felicidade, e o ritual de caminhar pelas calçadas olhando o chão foi conservado até a idade adulta. O que fazia com os objetos encontrados variava... era muito comum lavá-los e entregar a alguma de suas paixões platônicas do presente, escolhendo a pessoa a quem o presente caberia melhor. Algumas das coisas guardava para si mesmo, como a ponta de um beck, guardado por meses até ser finalmente desfeita e ter seu conteúdo blendado a outra erva, sendo re-bolado em um novo cigarro utilizado em uma reunião de amigos. De todas as coisas que encontrava, não guardava muito carinho por "nenduas", desfazendo-se delas conforme a ocasião apropriada. havia um tipo, entretanto, do qual nunca se desfazia (a não ser numa ocasião em que precisou muito de dinheiro, tendo arrependido-se amargamente do ocorrido desde o fatídico evento): moedas. Em seus mais de 10 anos de perambulação atenta pelas ruas (antes da terrível maldição), acumulara porcos e mais porcos de cada tipo de moeda. E agradáva-lhe um estranho divertimento de dar a cada porco o nome de um compositor (o pobre César Franck, arrecadador das nobres moedas de 1 real, foi quem sofreu o assassinato que mancharia a alma de Ariel por toda a eternidade, tendo sido sua função transferida a Maurice Ravel e, quando este aposentou-se, Richard Strauss tomara a profissão).
Sendo Ariel uma pessoa muito culta e dada à leitura de contos fantásticos, uma fantasia lida prendeu sua atenção - a história de um colecionador de moedas. Não como ele, que gostava de encontrar suas próprias moedas, mas um rico e inescrupuloso comprador, tendo a seu serviço dezenas de confeccionadores de moedas, bem como informantes e ladrões espalhados pelo reino. Nessa história, ao final da vida desse burguês celerado, já não havia no mundo nenhuma moeda cujo tipo não encontrava semelhante na imensa coleção, ou que, de um novo governo em formação, não tivesse seu formato já previsto e esculpido por um dos artesãos do burguês. Após meses de desespero, um informante retornara de suas expedições com notícias de uma moeda encantada, a mais radiante e bela de todas as moedas. Uma moeda que, dizia-se, uma vez possuída, eliminaria qualquer necessidade ou desejo de outra moeda, a moeda para encerrar a coleção, a obra da vida do nobre burguês. Entretanto, para obtê-la, o inescrupuloso burguês teve de lançar mão de quase todos seus recursos e seu dinheiro (travou uma guerra particular, literalmente, contratando um exército mercenário), acumulando no decorrer uma quantidade copiosa de novos ítens numa coleção de espécie singular: a de inimigos. Obteve, por fim, a moeda tão desejada, do decepado braço de seu rival, mas a que custo... seus inimigos acabaram por arruiná-lo e seus miseráveis últimos anos deixaram-lhe, no momento da morte, como espólio a quem encontrasse (já que não tinha herdeiros), como únicas possessões os trapos que vestia e a encantada moeda, que provou-se amaldiçoada, pois cada um de seus detentores foi vítima de diversos tormentos.
Ariel era um humanista fervoroso e muito dado à filantropia. Não só lhe agradava presentear os amigos com os achados da rua, como dedicava quatro horas por semana a visitar doentes terminais do hospital perto de sua casa, ouvindo suas histórias e oferecendo-lhes às vezes uma visão de mundo com belezas sutis e que em alguns casos podiam até despertar centelhas de esperança nos enfermos mais sensíveis, recebendo em troca uma coleção de experiências e visões maduras de mundo, por vezes excessivamente pessimistas. Talvez Ariel desejasse um conhecimento transcendental, maravilhoso e único. Um desses pacientes, um senhor de quase setenta anos, padecia de um câncer fatal no pulmão em provável decorrência do vício do tabaco. Afeiçoaram-se um ao outro rapidamente. O Senhor W... ainda conservava um brilho nos olhos e o otimismo de quem encontra prazer em cada um dos últimos dias de sua vida. Suas histórias e estórias encantavam Ariel, e muitas delas ainda seriam escritas por ele em seus contos particulares. Seus ensinamentos moldariam para sempre a personalidade e os ideais de Ariel, que passava até mais do que quatro horas por semana com W..., contrabandeava-lhe cigarros, maconha e até cocaína numa ocasião, assim como muitos de seus achados. Pode-se dizer que W... era uma de suas paixões platônicas, até que um acontecimento o afastou para sempre de seu tutor (que morreu sozinho, arrependido) (embora seus ensinamentos e sua imagem tivessem permanecido com seu valor inalterado à lembrança de Ariel), assim como dessa mórbida forma de filantropia. É o que se narra no parágrafo seguinte:
O senhor W... sabia que não lhe sobrava muito mais tempo de vida, e há tempos nutria um profundo desejo que tinha muito medo de não ver realizado e que por conta disso o impeliu a ser muito mais precipitado do que deveria... numa noite em que Ariel dormiria em seu quarto, depois de fumarem maconha clandestinamente, W... confidenciou que havia roubado uma coisa para ambos usarem, apresentando a Ariel uma cartela de Lexotan. Aproximadamente 30 minutos depois de tomarem dois comprimidos cada, ficaram muito sentimentais, chorarando juntos não por tristeza, mas pela emoção e pelo amor que tinham um pelo outro. Conversaram por bastante tempo, até que o assunto chegou na sexualidade. Ariel era bastante liberal, tendo diversos amigos gays e até uma amiga travesthy, Madonna. Entretanto, nunca sentira nenhum desejo por homens nem por travestis, apenas por mulheres (o desejo tímido e amedrontado de um adolescente inexperiente, embora Ariel tivesse 25 anos na ocasião, e algumas experiências com mulheres). W... lhe confessou ser gay, algo que Ariel já sabia. Depois disso, W... lhe confessou que sentia muito desejo por ele. Como em outras vezes que isso lhe aconteceu, Ariel logo pôs-se a afastar as esperanças do pobre W..., mas este soube usar dos sentimentos aflourados naquela noite, aos poucos foi convencendo Ariel de entregar-se a uma experiência. O amor deles ia além disso, W... era um homem deitado numa cama à espera da morte. Ariel estava especialmente carente, talvez devido ao efeito do Lexotan, e lhe agradava a idéia de oferecer ao seu ídolo um último prazer intenso. W... permanecia calmo e soube usar as palavras certas para acalmar Ariel, que a cada instante voltava a se assustar, mas não muito, talvez devido ao efeito do Lexotan. Foi convencido a desnudar-se e desnudar o velho, tudo muito lentamente. O corpo de W... causava um pouco de repulsa a Ariel, com sua púbis e próstata inchadas, seus testículos grandes e soltos na extendida bolsa escrotal, seu pênis, apesar de circuncisado, retraído com a glande parcialmente coberta por pele. Ariel, por sua vez, apresentava ambos testículos e pênis retraídos, talvez por receio. Começaram a acariciar-se mutuamente os genitais, e depois do que pareceu bastante tempo, o pênis de W... começava a apresentar sinais de ereção. O de Ariel, ao longo de toda a experiência, permaneceria flácido (talvez devido ao efeito do Lexotan). Encarava tudo como uma espécie de sacrifício pessoal em benefício de alguém que admirava muito. Deixou o velho tentar enrijecê-lo com o uso da boca, e depois de mais algum tempo acabou convencendo-se de fazer o mesmo por W... A experiência não foi muito além disso, W... dormiu fatigado e extasiado, e acordou sozinho em seu quarto do hospital. Ariel ficou bastante assustado, não soube como lidar com isso. Um dia iria aprender, e também estava fadado a levar para o túmulo o remorso por sua reação ao ocorrido.
Aproximadamente um mês depois desse último encontro, bateram à porta da casa de Ariel. O Senhor W... havia falecido e deixado para ele uma caixa, assim como uma carta, na qual lamentava profundamente o ocorrido, esperava que Ariel não guardasse dele apenas a recordação ruim. No verso, dizia que havia guardado dele um segredo, de que fora detentor da tal moeda encantada que constituía a herança de Ariel. Dizia sobretudo para não temê-la. Os piores males de sua vida eram obra de suas próprias ações, não do encantamento da moeda. Não apenas isso, mas a moeda continha um encantamento positivo capaz de cosolar dos infortúnios nos quais se metesse e que a felicidade com que ele se apresentava a Ariel todos os dias desde o primeiro encontro era em boa parte decorrente desse encanto. Ariel abriu a caixa, e dentro dela resplandecia sua preciosidade. Nesse ponto, eu, narrador, uso um recurso muito antigo do qual particularmente tendo a abusar, que é o de apelar para a impossibilidade do meu teclado de computador registrar com letras uma beleza que em tanto ultrapassa as possibilidades das palavras. Incapacidade, preguiça, o que quer que seja.
Naquela noite, antes de dormir ou depois, Ariel sentiu um prazer tão intenso que só encontra paralelo em opiáceos. Ainda no dia seguinte ao acordar sentia seus efeitos etéreos. A possessão de um objeto tão valioso via como uma recompensa, não pelo sacrifício erótico a que se submetera, mas por todo um conjunto de valores pessoais que o levaram a procurar coisas valiosas no percurso de sua vida em qualquer que fosse a fonte: calçadas públicas, casa de uma travesthy, leitos do hospital. De fato, a moeda "encontrada" era tão valiosa que julgava jamais ser capaz de encontrar qualquer coisa comparável a ela. Suas buscas perdiam parte do sentido nesse momento.
Na noite seguinte, Ariel teria um sonho do qual se lembraria em absolutamente todos os detalhes, algo até então inédito. Uma mulher muito bonita... uma deusa, para ser mais exato, de cabelos e pelos vermelhos, olhos verdes, tez rosada, envolvida em um vestido de tecido gasoso transparente e gelado. Dizia ser a alma da moeda encontrada. Que proporcionaria prazeres nunca nem ao menos sonhados, como os da noite anterior, enquanto mantivesse a moeda em sua possessão. Entretanto, tambem haveria de cuidar das necessidades dela. Paratanto, bastava de início que parasse de se doar tanto a compositores supervalorizados. Ariel neste momento fitou-a com uma expressão tão inequívoca de dor e sofrimento que a deusa se compadeceu. Uma concessão, neste caso: apenas a Schumann, o Louco, e a Schubert, o Miserável, seria permitido alimentar. E nem que tentasse, não encontraria meios de se dedicar a nenhum outro, a não ser que se desfizesse da moeda maravilhosa, que exigia para si por completo o altar de Beethoven. E esse altar não seria porco, mas gato. A deusa então desapareceu com o súbito despertar de Ariel, continente no meio da noite. Após usar o banheiro, voltou a dormir, sonhando novamente com a deusa Beethoven, que desta vez o presenteou com uma amostra do prazer que desfrutaria entregando-se a seu comando irrestrito. Era através de uma dominação extremamente sensual e controle completo de Ariel que ela despertava desejos que ele em vão tentara esquecer ao longo de seus anos. Esse sonho, no entanto, não pôde ser recordado em todos os detalhes, deixando apenas seu sabor na memória de Ariel: prazer e dominação. Mais especificamente, prazer por meio de submissão.
Como pode-se supor, Schumann era o porquinho de 5 centavos, Schubert o de 1. Ariel ainda tentou em vão encontrar moedas mais valiosas pelo chão, por vários dias. Pesava os prós e os contras de ter um objeto que exigia tanta dedicação quanto Beethoven, mas o sentimento por tê-la encontrado superava infinitamente qualquer prazer conhecido até então. Depois dessa pequena rebeldia, resignou-se a aceitar o fim de sua coleção e parou de procurar objetos pelo chão. Por um lado, suas noites eram recheadas de amor, prazer e dor consentida. Seus sonhos um refúgio maravilhoso. Por outro, o sentido de sua vida havia sido procurar e encontrar coisas belas. Agora havia sido impelido antes de sua vontade a desfrutar do mais belo de seus achados. Seus amigos ressentiam silenciosamente o fim dos curiosos presentes.
Do sonho da noite de 31 de Março, Ariel lembrava o seguinte diálogo:
-Eu havia exigido o altar de Beethoven na forma de gato. Não vi nenhum esforço de sua parte nessa direção.
Beethoven empunhava um chicote com o qual proporcionava prazeres que não convém ao tom desse conto descrever com muitos detalhes. Permito-me ressaltar ao leitor, entretanto, que, quando em sonhos, certos excessos não resultam em consequências prejudiciais à saúde do corpo.
-Mas como haveria eu de apreciar a visão tão bela de seu corpo físico quando este estiver dentro de um gato?
-Apreciará quando quiser, isso posso lhe garantir. Sou e hei de ser sempre sua, enquanto me aceitar.
Começou em Abril um novo projeto. Confeccionou ele mesmo uma escultura de vidro em forma de gato, com a moeda no centro. Assim ganhou duas coisas: poderia olhar sempre para ela, além de todo esse esforço ter sido muito apreciado e recompensado por Beethoven. Terminou no tempo exato de comemorar um ano de maldição. Ariel estava perdido. Era como um trabalhador que se aposentava. Qual seria sua função agora que estava impedido de fazer exatamente aquilo que em última análise o levara a Beethoven? Continuava adiando a reestruturação de sua existência, usando sempre como consolo o fato de a qualquer momento poder se desfazer de Beethoven. Apenas não desejava isso ainda. Às vezes enxergava esse fim, para então tornar a caminhar como antes, procurando... mas procurar o quê se já havia encontrado? Perto de Beethoven qualquer descoberta era pálida. Por outro lado, não podia sacrificar sua vida por um sonho. Por ainda outro lado (mas que polígono!), essa tendência vulgar de separar tanto as coisas, desconsiderar o sonho (8 horas por dia, um terço do tempo) como se não fosse parte da vida humana, era totalmente desprezada por ele.
Como era de se esperar de uma vida cujo refúgio de felicidade encontrava-se no sonho, Ariel passou a sonhar mais. Passou a sonhar desperto também. Em seus sonhos diurnos, sonhava um mundo possível dentro do nosso mundo. Mas depois de sonhar esse mundo por um tempo, sozinho retornou à realidade, e percebeu o quanto era infantil a visão de universo que gerava esse mundo dentro do nosso. Em seus anos de vivência já seria capaz de algo mais sensível do que isso. Então reestruturou sua visão sobre todas essas pessoas (com exceção talvez da idéia de Vinicius ser um super-herói), misturando o que sabia com o que inventava, dessa vez de forma mais coerente, gerando essas histórias seguintes:
2 - Leonel:
Leonel era uma dessas pessoas para quem a risada era um ato essencialmente de comunicação. Por mais engraçado o que estivesse lendo (e não havia nada que ele fizesse com mais afinco do que ler), Leonel nunca ria sozinho. Entretanto, mesmo que estivesse desfrutando de um prazer tão solitário quanto a leitura, se houvesse mais alguém na sala, ria até mesmo das pequenas ironias sem graça de certos escritores. Na noite do dia 31 de Março, enquanto eu estava tendo um sonho molhado e prazeroso, Leonel em sua insônia lia um livro sobre uma sociedade na qual o poder de contar histórias (contos, como esse) era privilégio apenas de uma classe. Dessa forma, essa classe criava valores e ditava os rumos da sociedade. O fato era ilustrado por muitos exemplos de como nessa sociedade uma ficção podia moldar a realidade. Eu não saberia dizer se a história dessa civilização era real ou fictícia. Em casos como esse não chega a fazer diferença para mim, basta o fato de ser verossímil e coerente. Leonel era diferente. Leonel sabia se era "verdade" ou "mentira". Se fosse eu o leitor desse livro tão curioso, certamente teria passado os meses de Abril, Maio, talvez até Junho influenciado por essas idéias. Tanto poder nas mãos da criatividade! De que forma não seria a nossa realidade também moldada por ficções, contos, casos. Eu nunca fui assaltado, mas já ouvi tantas histórias... Mas o leitor desse livro nesse último dia de Março não era eu. Leonel, ao contrário, tem uma personalidade muito mais forte que a minha. Lia, guardava a história, começava outro livro e seguia o curso de sua vida inalterável. Talvez devido aos mais de trinta anos de experiências a mais que eu para diluir toda essa informação nova. Nenhuma dominatrix iria distraí-lo das banalidades da vida cotidiana que o incomodavam, pois não eram meras banalidades que o atormentavam. Eram banalidades, sim, os tormentos que deixava extravazar. Por exemplo, foi um dia com sua então mulher, depois de alguns anos de casado, numa lanchonete um pouco mais barata. Serviram os sanduíches, bem como os sachês de condimentos. Leonel abriu um sachê de ketchup e estava colocando no seu sanduíche, quando viu que sua mulher havia tentado abrir o sachê na vertical, ocasionando um rasgo nada propício para a saída da maionese que tentava colocar no seu hamburguer. Ela apenas comentou "detesto quando isso acontece". Leonel chegou a ficar bravo com ela. Na sua visão, sua esposa estava culpando uma espécie de força desconhecida por algo que ela havia causado e que estava no poder dela aprender o que fazia com que "isso acontecesse", desenvolvendo uma técnica adequada para abrir sachês de condimento para não ser condenada a passar o resto da vida reclamando quando "isso acontece". Por causa de casos como esse, em minha visão infantil, imaginava que uma dominatrix poderia distraí-lo de todas essas banalidades cotidianas. Não tinha parado para refletir que Leonel passara a vida em busca de um ideal de família do qual obtivera apenas pedaços distorcidos. Sua primeira mulher mudara de país com seus dois filhos, com os quais só conseguia falar de vez em quando a altíssimas tarifas de telefonia a distância. Isso sem contar a vez que ela mudou o telefone sem avisar ninguém, deixando Leonel desesperado atrás de uma maneira de falar com seus filhos. Vivia numa casa sublocada, com um salário indigno, o peso de três casamentos arruinados ("mulher dura pouco, mas ex-mulher é para a vida toda") e um histórico de depressão na família. As pequenas banalidades do dia a dia o lembravam do quanto seu ideal de vida teve de ser flexionado, fraturado, tudo por pequenas coisinhas, uma de cada vez. Para completar o quadro, já pertencia à mais antiga geração de sua família, a próxima a desaparecer. Seu consolo último era o desfrute, aos seus sessenta anos, de uma amante madura, embora dez anos mais jovem que ele:
3 - Elisa:
A liberal Elisa. Orgulhava-se por não ter tido filhos. Vivera a época entre a descoberta da pílula e a disseminação da AIDS. Quem a conhecia era influenciado por seus valores liberais - poligamia, libertinagem. Desde que, é claro, feitos com segurança. Elisa desprezara o casamento, desprezara filhos, a única coisa que prezava era sua liberdade, as infinitas possibilidades abrindo-se como a vagina de uma mulher quando estimulada... mas agora sentia que perdia uma parte inportante desses lábios de possibilidades. Não poderia mais ter filhos e era muito pouco provável que se casasse. Um caminho para o qual fechara as portas agora fechava as portas para ela. Elisa continuava não desejando filhos ou marido. Mas, ainda assim, era doloroso escorregar em direção ao vale de sua linha da vida. Ainda era desejada, sim, uma "coroa gostosa". Ainda poderia tirar cabaços de garotos tímidos na flor da idade. Mas... por quanto tempo? Quanto tempo até que a vida lhe fechasse a porta das possibilidades que a agradavam? Sessenta amantes aos sessenta anos, ah, como eu desejava que fosse possível! Tal como Sade, gostava de dar números aos desejos, passava tardes enumerando seus amantes imaginários de acordo com os gostos sexuais. Este entregava-lhe um "cinto-pinto" e queria ser comido por ela. Aquele fazia seu corpo curvar-se para frente enquanto segurava seus braços por trás, de maneira dolorosa, deixando-a totalmente incapaz de oferecer qualquer resistência ou fazer qualquer movimento, enquanto penetrava-lhe o que quisesse ouvindo seus gemidos. O outro queria que lhe chutasse o saco inúmeras vezes, até que se recolhesse em posição fetal em agonia e êxtase, numa espécie de preliminar antes de uma relação selvagemente prazerosa. Haviam os que tinham sua excitação redobrada ao ouví-la falar, "surpreendida", do tamanho enorme de seus pintos (que nem sempre eram grandes). Esses também gostavam de segurar sua cabeça durante a felação. Tinha aquele que não conseguia uma ereção até que ela lhe assegurasse que seu pênis tinha um tamanho normal (o que era verdade). Ainda havia um terceiro que gostava que lhe humilhasse ridicularizando o tamanho do seu instumento, rindo dele e desprezando sua capacidade como amante - lhe satisfazia com cunilingus pois gostava de pensar que era incapaz de dar prazer a uma mulher de outra forma. Ah como as mulheres eram diferentes (e em tudo que fazia por uma podia ter certeza de receber em troca uma amostra do mesmo tipo de prazer), havia uma que gostava de ser lambuzada com mel, depois lambida inteira. A brincadeira não acabava por aí - depois tomavam juntas um banho sensual de banheira durante o qual cada uma levava a outra ao orgasmo diversas vezes. Outra gostava de ser vendada e ter pedras de gelo passadas lentamente em seu corpo (mas não gostava nem um pouco de ter a pedra de gelo inserida em qualquer orifício seu). Uma segunda também era vedada, além de amarrada. Então Elisa deixava escorrer cera quente em seu umbigo, subindo pela barriga, até os mamilos. E ela realmente adorava. E as orgias... tinha uma garota que Elisa maltratava como a uma escrava, até que seu próprio dono chegava para castigá-las - um homem, e se fosse negro ainda melhor. Comia ambas de forma degradante, fazendo uma lamber na outra a prova de sua virilidade. Imaginar essas sexualidades diversas era uma de minhas fugas-de-realidade favoritas, e Elisa a representante máxima da possibilidade de conhecê-las todas. Palavras dela: "Que maneira melhor de chegar ao âmago de uma pessoa do que encenando suas fantasias? Se uma pessoa sente-se à vontade para realizar com você uma fantasia, o que ela lhe ocultaria? Se você deseja compreender realmente os outros seres humanos, é imperioso que se transe com eles". Elisa era psicóloga. Freudiana, mas havia passado por uma fase reichiana. As pessoas em geral não gostam de Freud - sentem ao entrar em contato com suas idéias de que o ser humano é uma máquina de acumular doenças. Preferem pensar que o passado é apenas uma fonte de experiências que elas irão dispor como preferirem. Não gostam da idéia de que o comportamento e até parte da personalidade delas tenha causa específica. Me diga um livro de auto-ajuda que não despreze Freud? Que não diga que temos o poder de moldar nosso futuro independentemente de nossas origens? Outra coisa que as pessoas não gostam é da idéia de que a origem de todas essas doenças está ligada a nossa sexualidade. Preferem pensar em sexo só quando estão lúbricas (ou quando esse interesse lhes é explorado para vender algum produto), reduzir sua importância e viver duas vidas separadas, dando até um nome especial para a outra vida, a Vida Sexual. Outras pessoas agarravam-se à sua sexualidade com tal força que eram forçadas a passar a vida afirmando-se como ser existente, para não desaparecerem. Numa eterna luta para ser aceita pelos outros (para assim finalmente provar a si mesma sua auto-aceitação) encontrava-se a vizinha de Elisa, representante dessa difícil afirmação da própria sexualidade à sociedade.
4 - Madonna:
Madonna tinha aversão a amapoas (as travesthys absorveram muitas palavras da língua africana bajubá, que se tornaram gírias próprias, expandindo-se para outras partes da comunidade gay. Uma possível explicação para a relação entre a língua africana e o modo de vida das travestis é o fato de muitas terem um lado bruxa, frequentando terreiros de umbanda e candomblé, sendo essa cultura muito mais receptiva e amistosa ao modo de vida travesthy do que qualquer outra). Embora pudesse ser uma boa babá, jamais seria capaz de fazer uma criança. Situada numa sexualidade que ultrapassava as barreiras de gênero, era procurada por ocós que desejavam uma Gisele Bundchen com neca, um nicaô para comer-lhes o edi. Mas, como a maior parte das travas, Madonna se entregava a esse ato apenas para agradar ao parceiro ou para conseguir aqüé nos tempos em que fazia programa. Seu maior desejo sexual era poder agir como a amapô que era, entregando-se ao sexo de forma passiva, algo raramente permitido a uma trava nos seus encontros sexuais usuais, que são os casuais. Apenas em relacionamentos mais estáveis obtinha esse tipo de satisfação. Madonna lembrava que a música Geni e o Zepellin, de Chico Buarque, é o canto de uma travesty. Perseguidas pela sociedade (mais de uma vez Madonna apanhou na rua sem motivo aparente), consideradas o lixo do lixo, eternas habitantes do submundo. Foram elas que levantaram a bandeira para a causa gay na maior parte do mundo (inclusive, Junho é mês do Orgulho Gay por conta de um evento na madrugada de 27 para 28 de junho de 1969, quando um grupo de drags e transformistas foi assediado por alibãs no bar Stonewall, em New York, resistindo à prisão e iniciando um conflito que duraria três dias, até que o prefeito se comprometeu a encerrar a perseguição de gays, lésbicas e transgêneros). Em São Paulo, no primeiro esboço de parada gay, um ato na praça Roosevelt reunindo cerca de 500 pessoas em 1996, eram na maioria drags e travestis, pessoas sem medo de se expôr, que iniciaram o movimento pelos direitos da diversidade sexual. Depois são obrigadas a pagar mais caro e restritas a certos ambientes em baladas gays que provavelmente nem existiriam sem a luta delas.
Mas para além do ativismo político havia uma pessoa, originalmente um ocó, que teve de se romper em mil pedaços para tomar essa decisão que moldaria todos os dias de sua vida. Transformar-se em uma cicatriz para o mundo, o retrato do que as pessoas não querem ver. E para justificar a si mesma, encarar o papel de mártir em todas as suas facetas - viver cada noite numa empolgação confundida com cocaína pelos demais - mas sem nunca usar drogas, ajudar os necessitados, sustentar a família que um dia a expulsou de casa e encarar o fato de apenas se mostrarem amigáveis por ser ela quem traz o dinheiro. Enfrentar as intrigas dos colegas de trabalho, sua indignação por ela existir. Resignar-se a migrar de local de trabalho o tempo todo. É claro que havia uma válvula de escape: Madonna escrevia aquele grito tão alto que não gritava (ou que quando gritava ninguém ouvia). Acostumada a se expor, atualizava um fotolog com fotos suas bastante sexualizadas, acompanhadas dos textos que comprovavam sua autoconsciência - do que representa para si e para os demais - um escombro, um perigo, um incômodo, sexo sem corpo. Em seu fotolog vomita as mágoas de uma existência tão difícil - é difícil para Madonna existir. E os visitantes comentam, mas nem sequer entendem aquilo que ela escreve, apenas acham bonitinhas as fotos. Cada um vê nela o que quer ver. Para aqueles que julgam sem conhecer, era uma caricatura do que há de mais promíscuo e vulgar no mundo, um ser reduzido a sua sexualidade. Para outras travestis e pessoas iniciando-se no universo transformista, era uma guia espiritual, culta, inteligente, uma veterana de tudo que havia para se viver nessa vida, com suas classificações dos tipos gays que habitam o mundo por aí, seu domínio do dialeto travesthy, a grande e protetora anja Madonna das transformistas. Para mim, Madonna era a representante dos mártires dos dias de hoje, com sua conduta perfeita para nunca ninguém poder dizer que merecia as condições na qual vivia. Uma amapoa altamente sexualizada, com poderes de deixar constrangida qualquer pessoa não habituada ao seu mundo. E também um ser humano muito inteligente, melhor escritora do que eu. Uma vez eu estava fazendo uma peça sobre um rapaz que refletia sobre o suicídio na beirada de um prédio, com a peça terminando antes da conclusão. Madonna me disse que o rapaz devia refletir sobre o suicídio olhando a xícara de chá que acabavam de lhe ser servir num café. O suicídio era uma indagação cotidiana, não o ápice de uma vida.
Na noite do dia 31 de Março, Madonna ouviu a campainha. Lembrou-se que tinha oferecido a casa para um amigo que vivia na rua tomar banho e talvez dormir no sofá. identificava-se com ele pela solidão em meio à maior metrópole da américa latina. Antes de tudo, acomodaram-se na mesa de madeira da sala para uma conversa amigável.
5 - Vinicius:
- Já te contei de como acabei parando na sarjeta?
- Você me disse que uma ou mais amapoas acabaram te arruinando. Ocó esperto vai atrás de ocó...
- As mulheres só nos amam enquanto temos dinheiro. Depois elas vão embora e a gente continua mandando dinheiro...
- Aceita alguma coisa?
- Um copo de água.
- Ainda bem, pois não tenho cerveja em casa.
Silêncio enquanto separados pela parede da cozinha
- Bonito seu mural de recados
- Ah, lembra aquele bofe que colecionava moedas que você conheceu aqui? Ele que fez esse mural com placas de madeira e isopor que encontrou na rua, e papéis de chocolates, balas, etc.
- Ah, sim, o garoto que andava com a cabeça baixa mesmo feliz, procurando coisas pelo chão. Espero que esteja bem.
- Não sei dizer, nunca mais nos falamos. Como vai você?
- Precisando desabafar. Sabe, andar na rua é uma coisa complicada. Sempre tem alguém pra te ajudar, até quando você não precisa. Já fui daqui ao mar andando, e não faltou nada. Ah, mas de vez em quando as pessoas decidem te ignorar, e como dizer isso... já cheguei a pensar que era invisível. Sabe, você fala com uma pessoa, não precisa nem pedir nada. Ele passa os olhos rapidamente por você, depois vira para frente e finge que você era só uma ilusão de ótica. Preferia que a pessoa simplesmente falasse, sabe, "sua existência me incomoda", aí eu pelo menos podia ter certeza que existo.
- Quer tomar um banho?
- Obrigado, já vou. Madonna, sabe, quando te conheci nunca achei que você pudesse ser uma boa pessoa. A gente vem carregando tanto preconceito... mas hoje, quando penso em você, você é a pessoa que mais confio. Na verdade, a única pessoa que confio. Eu nunca desabafo com ninguém, sou uma pessoa muito alegre o tempo todo
- Ah, eu sei como que é. Eu nunca fico reclamando da vida verbalmente, você sempre vai me ver alegre.
- Sim, mas com você é diferente. Eu me sinto à vontade para derramar sobre você aquilo que sou realmente, para ser pessimista, para pedir apoio. Apoio emocional, pois dinheiro ou chuveiro muita gente pode me dar.
(e você nunca vai fazer o mesmo por mim. Mas tudo bem, já estou acostumada a essas coisas...)
- Madonna, eu queria te contar uma coisa que nunca contei a ninguém...
- Ah, e o que é então?
- Eu não falei a verdade sobre como acabei na sarjeta. Ah, se eu soubesse que ia acabar assim tinha atravessado a fronteira do México com os Estados Unidos com meu irmão. Ele está muito bem hoje, e eu tentando recuperar o que perdi... queria minha conta bancária, meus números todos de volta. E também um lugarzinho para morar, com carro na garagem... ah mas eu volto a ter isso, vou voltar a cortar cabelos...
- Meu bem, páre de tergiversar e conte logo!
- Eu tenho tanta vergonha disso, me sinto tão burro, eu que sempre me achei inteligente. Nunca terminei os estudos, isso é certo. Mas me achava muito mais esperto que todo mundo. O que acontecia com os outros não ia acontecer comigo, porque eu era esperto. Quando eu estudava tirava mais nota que todos os meus colegas, saí porque meu pai me fez trabalhar...
- Por que você está na rua, Vinicius?
- Por causa de drogas. Não me olhe com essa cara de "é sempre assim", comigo foi diferente, acho. Eu sempre soube que não era para tomar essas merdas todas. Eu não era idiota. Mas eu tinha encontrado a fonte da felicidade, sabe? Uma pílula da felicidade! E eu não ia ser idiota de reduzir minha vida a isso, igual vi meus colegas fazerem. Eu tinha nas minhas mãos o segredo do universo, e fiquei dias pensando no que fazer com aquilo. Sabe, a felicidade tem uma razão de ser na nossa vida, foi isso que concluí.
(Tem ela uma razão de não ser na minha vida também?)
- A gente não pode simplesmente ficar brincando com ela, sabe, de repente ao invés de sermos recompensados por fazermos algo bom de nossas vidas, a felicidade nos é dada como recompensa por engolir um tóxico... isso não está certo, e só pode dar errado. É por isso que não era para acontecer comigo. Eu sabia disso. Mas eu queria ser uma pessoa feliz, e aquilo era felicidade de verdade. Então estabeleci uma regra: eu ia me recompensar por tudo que fizesse de bom, por mim e pelos outros. Ia ser igual Deus nos fez, com a diferença que eu seria MAIS feliz do que o normal... minha vida ia ser ótima. E foi... até que... bem, na época eu não era mais engraxate, já estava cortando cabelos há treze anos. E tudo ia muito bem, todos gostavam de mim pois eu fazia bem a todo mundo, minha vida profissional estava estável, casado e com duas filhas, e um estoque de felicidade escondido atrás da geladeira. Só que não acontecia nada na minha vida que me fizesse feliz. As coisinhas do dia-a-dia como um cliente que saía satisfeito, a Luiza voltando com uma nota alta da escola, um boquete da mulher, essas coisas não me faziam mais feliz, e sem me sentir feliz eu me policiava pra não tomar a pílula da felicidade, mas eu já estava de saco cheio. Então comecei a fazer boas ações, doava dinheiro, ajudava as pessoas, pra poder tomar a pílula. Quando as coisas começaram a ficar difíceis, a Fran foi embora, ou melhor, eu fui embora, deixei a casa, o carro, etc. É por causa disso que não me sinto mal de dizer que foram as mulheres que me deixaram na rua... só que na ocasião eu fiquei num hotel. Eu ainda tinha emprego... só que eu tava desesperado, viciado em felicidade. Rapidinho perdi o emprego... ah, você pode imaginar.
- ...
- ...
- E aí?
- E aí nada, acabei ficando viciado em fazer o bem, só que era muito mais fácil fazer para os outros do que para mim. Quando passava o efeito da pílula eu me sentia um lixo. Fiquei anos sobrevivendo desse jeito. Cheguei a me machucar seriamente para ajudar uma mulher num acidente, pra poder tomar aquela droga.
- ...
- Eu joguei tudo fora. As pílulas, digo. Faz mais de um ano. Às vezes me arrependo, sabe? Faz mais de um ano que não sinto felicidade... no máximo aquele comecinho que antes fazia eu engolir uma pílula e ficar extasiado por horas. E parece que ela não chega mais, sabe? Mas eu vou reconstruir minha vida, voltar a cortar cabelos, ter casa, carro, visitar minhas filhas... e não vou mais tomar aquelas pílulas, mesmo que eu nunca possa ser feliz...
- ...
- vou tomar meu banho agora.
- Vai lá. Tem toalha na gaveta de baixo, eu te empresto uma roupa minha de quando me fantasio de ocó. Eu também trabalho de vez em quando, "sabe?"
- Não precisa, eu trouxe uma roupa na minha maleta. Obrigado.