Tudo começou um tempinho atrás, láááá em São Carlos. Voltava eu da casa de um amigo quando percebi um morador de rua andando na mesma direção que eu. Ele fez um comentário de longe sobre um colar que eu estava usando, que minha mãe trouxe lá da África de presente para mim. Deixe-me ser 100% sincero: eu senti, sim, medo de ser assaltado, mesmo sabendo que na maior parte das vezes esse medo que eu sinto é infundado, baseado apenas em PRECONCEITOS SOCIAIS. Eu detesto ser abordado na rua, mas haverá oportunidade melhor para explicar meus sentimentos mais pra frente no conto. Então o homem pediu para que eu parasse um pouco, e foi o que eu fiz (detalhe importante: em São Carlos assaltos são MUITO raros, principalmente à luz do dia). Aí ele pediu uma grana, uns 4 reais, e eu dei para ele. Ele então todo inseguro me perguntou se eu tava dando dinheiro pra ele porque eu estava com medo ou se era pra ajudá-lo mesmo. Naquele momento eu não estava mais com medo (Ele disse que ia pegar uns tickets-bandejão que ele tinha para me dar em troca, mas eu disse que não precisava). A gente já tinha se apresentado, "Afrânio - Daniel". Eu não estava com ânimo de trocar idéias com o cara. Ainda assim, lembrando uma experiência positiva que tive uma vez com um morador de rua de São Paulo, com quem tomei uma cerveja, ofereci-me para pagar uma cerveja para o Afrânio. Já naquele momento eu senti que estava fazendo uma grande cagada: no caso do ######## (o cara de São Paulo cujo nome omito num sinal de respeito), eu ESTAVA afim de uma conversa significativa, de conhecer o OUTRO LADO (o escritor Ferréz é quem leva o mérito), enfim, de saber o que se passa com essas pessoas que a gente vê todo dia sofrendo nas ruas. No caso do ########, era EU quem estava com as "rédeas" da situação, e, só para não omitir um comentário cínico, naquele caso eu me sentia como um cara que ajuda o outro, me sentia de certa forma superior (palavra-tabu de hoje em dia). Já com o Afrânio era o contrário - eu estava amarrado pela pica sendo arrastado de lá para cá pela situação - ele já tinha chegado em mim jogando pela culpa ("já ficou dessa cor aqui?" - e me mostrava uma mancha na pele - "e dessa? e dessa?"). Se eu não estava afim de tomar uma cerveja com o cara porque eu o havia convidado? Já naquele momento comecei a me odiar pela previsibilidade. Eu estava cansado.
O Afrânio não bebia álcool (paguei um refrigerante para ele, dentro da USP, onde conversamos), mas fumava. Disse-me que quando eu encontrar um cara na rua pedindo dinheiro para comprar comida, não dar o dinheiro, mas comprar a comida para o cara. Eu já sabia disso, mas sempre fico com preguiça. Afrânio com um sorriso no rosto me disse que
com aquele dinheiro eu estava ajudando a tirar um cara da rua. Ele tinha uma avó lá em Minas Gerais que tinha dinheiro e o tinha aceitado para morar com ela, mas ele precisava comprar a passagem. Ele já tinha juntado o que precisava. As duas filhas dele já estavam com a avó lá em MG. Conversamos um pouco mais. Ele tinha tido um problema com cocaína, tinha assaltado umas pessoas, ido preso e criado uma péssima fama na cidade, de modo que (sendo a cidade pequena) pouca gente o ajudava hoje em dia. Meses havia levado para juntar o que tinha. Conversamos, conversamos. Mas havia um detalhe: ele conseguiria chegar em MG com o dinheiro que tinha juntado, mas não havia ônibus diretamente para a cidade aonde ele ia. Então ele ia ter que ficar lá até arranjar R$ 7,80 para o segundo ônibus. Ficou insistindo um monte para que eu o ajudasse, e o pensamento que eu tinha na hora (sim esse era na hora mesmo, não agora) era que não ia fazer tanta falta para mim, e eu realmente desejava NUNCA MAIS ver o Afrânio em minha vida. Até me lembro que pensei comigo mesmo que se eu o visse em São Carlos não o ajudaria novamente, pois ele tinha que ir para MG viver com a avó. Durante a conversa Afrânio cumprimentou um estudante que conhecia. O guardinha da USP já estava rondando o lugar onde estávamos. Enfim nos despedimos e eu voltei para casa. No caminho fiquei ABSOLUTAMENTE desesperado ao me tocar que havia aberto minha grande boca e falado mais detalhes pessoais do que deveria. Não consegui tirar isso da minha cabeça. Ah, agora lembrei que dia foi que isso aconteceu: 18 de Maio de 2005, uma Quarta-feira, o aniversário do primo que mora comigo em São Carlos. Minha tia havia preparado uma festa surpresa para ele naquele dia. Cheguei em casa, não pensava em outra coisa senão falar com minha tia (a dona da casa) sobre minha tremenda cagada, desculpar-me e odiar-me (o pior é que eu não aprendi a lição: em outra situação uns 4 ou 5 dias depois abri minha grande boca numa cagada muito pior e só por MUITA MUITA MUITA sorte a pessoa que ouviu não registrou - a partir desse dia passei a me amar um tanto menos e a falar menos também). A festa estava começando, vários amigos do meu primo já tinham chegado, e eu não prestava atenção em outra coisa senão conseguir um lugar para falar com minha tia sem que ninguém mais ouvisse. Depois de uma meia hora de agonia, consegui. Já cheguei falando "tia, fiz uma puta cagada". Então expliquei para ela exatamente o que tinha acontecido, e ela riu de mim e disse que isso é neurose de cidade grande, que ela sabia quem que era esse Afrânio, que teve uma época que os habitantes estavam com medo dele, mas que não tinha problema, não ia acontecer nada. Ela me confirmou algumas coisas que o Afrânio falou que eu não tinha acreditado. Ufa!
O conto continua uns dias depois, mais precisamente Primeiro de Junho de 2005, Quarta-feira também. Voltava da faculdade mais uma vez estressado, quando me aparece adivinha quem? Afrânio... Estou com sono, vou continuar a história amanhã.
Ontem fiquei tentando dormir mas não consegui. Essa história ficou martelando na minha cabeça. Eu coloquei uma sinfonia do Prokofiev pra ajudar, mas não adiantou. Entretanto, depois de algum tempo consegui pensar em alguma outra coisa e adormecer. Hoje acordei muito menos mau-humorado do que estava ontem quando escrevi a primeira parte do conto. Acho que estava daquele jeito por causa da ressaca... a segunda ressaca da minha vida. A pior delas. Chega de enrolação, vamos à segunda e mais importante parte do conto.
Primeiro de Junho de 2005 (também conhecido como Anteontem). Subindo a ladeira me deparo com o Sr. Afrânio, carregando um carrinho de supermercado. Ele não se lembrava direito do meu nome, mas eu lembrava muito bem o dele. A primeira coisa que disse quando me encontrou foi "Se eu te disser que aquele dinheiro que você me deu ainda está aqui no meu bolso você acredita?", "sim", menti. Ele ficou muito feliz por minha demonstração de "confiança na pessoa dele". Disse-me que não precisou viajar porque conseguiu um emprego em São Carlos. Tinha me procurado, mas não me encontrou. Agora ele carregava frango para um açougue e pegava embalagens para reciclagem. Estava carregando um carrinho de supermercado cheio de embalagens. Sentamos para conversar. Agora o papo era outro. Ele queria uma ajuda. Mas ele não esperava essa ajuda assim de graça, não senhor, "Você achou que eu ia pedir sem te dar nada em troca, né?". Ele tinha um monte de tickets-bandeijão, e estava disposto a me dar os tickets pelo dinheiro que eu já havia dado a ele e mais alguns que eu por favor poderia comprar. A filha dele nasceu prematura, e tem que tomar um leite especial (ele falou o nome, mas eu não lembro), cuja lata custa 42 reais. Se eu pudesse peloamordedeus ajudá-lo a filhinha dele não ia mais passar fome. Eu disse que não tinha nenhum trocado, que só tinha uma nota de 50 reais, e que ia precisar do dinheiro para comprar uma passagem de ônibus para São Paulo (uma mentira - eu já sabia que ia pegar mais dinheiro no banco antes de viajar). A passagem custava 32 reais. "Eu não preciso de todo o seu dinheiro, só os 18 já são o que eu preciso". Só que os tickets não estavam lá com ele, estavam na casa dele. Aí eu disse que ele poderia pegar os tickets e eu comprava dele quando ele os tivesse. Ele quase chorou que a filha dele precisava do leite, estava passando fome, que eu poderia acompanhá-lo até sua casa onde eu receberia os tickets. No caminho trocaria a nota de 50 reais. Eu não tinha nenhum ânimo para ir até a casa dele, entretanto eu tinha tempo (apesar de ter mentido para ele dizendo que precisava estudar para uma prova). O problema é um sentimento que eu sempre sinto quando sou abordado na rua por alguém pobre precisando de ajuda. Eu não sinto dó da pessoa (ou se sinto não é tanto dó assim). O que eu sinto é um tremendo sentimento de CULPA. Minha relação com a culpa não é saudável - em outras épocas, se eu tivesse recebido outra educação, se eu fosse arrogante o suficiente para achar que essa culpa que eu sinto É a maneira certa de viver, eu teria me tornado o mais moralista dos puritanos. Não foi a religião que inventou a culpa - a culpa é um sentimento tão natural quanto o amor e o ódio. Eu, culpado, recebendo boa alimentação, boa educação, com dinheiro suficiente até mesmo para ir ao teatro de vez em quando. Enquanto o outro, nascido no lixo, sem nenhuma perspectiva de mudança. Sinto-me culpado pela situação do outro. Eu não queria ajudar o Afrânio. Eu estava pouco me fudendo para a filha dele (que provavelmente nem existe). Mas ver aquela cara de frustração de uma pessoa que estava esperando uma ajuda, dizendo (implicitamente) que se eu não o ajudasse eu seria em parte responsável pela morte do bebê dele, aquilo era muito difícil de agüentar. Fomos andando. No caminho, uma mulher carregando um carrinho de bebê pediu um cigarro para o Afrânio. Eles conversaram um pouco. Ele beijou a criança. A mulher me pediu UM real para comprar leite para a filha dela. Eu lhe disse que eu já ia dar tudo o que eu podia pro Afrânio. O Afrânio, por sua vez, deu um real para a mulher. Antes que os dois se despedissem, mais uma pessoa apareceu: um homem vestindo uma roupa do Peixe Brasil, um bar/restaurante perto de onde estávamos. Ele começou a gritar com o Afrânio para que ele lhe devolvesse uma fita. Os dois quase saíram no soco. Em um momento Afrânio se aproximou dele, conversando em voz baixa apoiando a mão na cintura (torci para que não fosse um canivete). Depois de um tempo eles estavam conversando normalmente, como amigos. Despediram-se (Afrânio disse que eles eram amigos, que esse era o modo da amizade deles. "Não fica pensando mal de mim não, detesto quando as pessoas pensam mal de mim") Seguimos nosso caminho para o posto ao lado do Peixe Brasil, para trocar minha nota de 50 reais. Eu não tinha medo de ser assaltado pelo Afrânio, provavelmente porque de certa forma eu até desejasse ser assaltado por ele (talvez ainda não soubesse ao certo por quê, mas haverá ocasião mais propícia para essa explicação mais para o final do conto). Tentei desistir várias vezes ao longo do longo caminho. Ele sempre conseguia manipular a culpa que eu sentia, para que continuasse nessa "jornada". Agora tenho que ir para a faculdade, continuarei a escrever o conto quando tiver tempo (provavelmente dentro do ônibus para São Paulo).
Onde eu estava mesmo? Ah! chegando no posto de gasolina. Chegamos e o Afrânio perguntou por um suposto conhecido dele que trabalhava lá (e provavelmente era mentira, porque o frentista não conhecia nenhum Zé). Perguntei para o frentista se ele poderia trocar 50 reais para mim. Quando tirei a nota da carteira o Afrânio falou brincando que a nota era falsa, no que o frentista respondeu "Se a onça rugir é porque é verdadeira mesmo!". Não achei a menor graça. Seguimos nosso caminho em direção à Vila Pureza, bairro mais perigoso de São Carlos, onde Afrânio mora em seu barraco. No meio do caminho ele parou e ficou insistindo um tempão pra eu pagar antes pra ele poder comprar o leite especial no caminho (a filha dele nasceu prematura). Eu achei estranho, disse para ele que assim que ele tivesse os tickets eu comprava dele. Afrânio pediu para eu ser sincero com ele e falar que eu não queria pagar os 18 reais para ele naquela hora porque eu não confiava nele. "É exatamente isso", eu disse. Ele retrucou dizendo que a filhinha tava lá sem alimento, que ele queria comprar o leite no caminho (quase chorando de novo), e que ele achava que eu queria ajudá-lo. Se ele quisesse me roubar já tinha feito isso faz tempo. Ele já tinha roubado antes. Por fim, ofereceu-me como garantia que eu ficasse com seu carrinho de R$ 50,00 e sua pochete com seus documentos até que ele voltasse com os tickets. Provavelmente naquele momento eu ainda não tinha perdido completamente as expectativas de receber alguns tickets-bandejão (que eu nem precisava, tinha uns 30 na carteira. Eu só estava ajudando o cara por culpa, mesmo), não. Isso só aconteceu depois de ter dado uns 5 passos. De qualquer maneira, o que aconteceu aconteceu como aconteceu e não poderia ter acontecido de maneira diferente (que é uma das morais da história). Quando entendi que eu não receberia os tickets, eu não cheguei a perceber que aquilo era a melhor coisa que poderia acontecer na situação. Eu ainda não tinha compreendido que no momento em que entreguei 20 reais nas mãos do Afrânio recebendo 2 de troco, eu estava a 1 passo de resolver para sempre um problema que há muito estava me incomodando. Explicarei isso melhor quando chegar na parte do conto em que eu percebi isso. Por enquanto eu estava caminhando com o Afrânio, me achando o homem mais idiota do mundo (o que me irritava mais era pensar "o que será que esse Afrânio pensa de mim? Passou no vestibular e é um completo ingênuo, que eu consegui enganar duas vezes e tirar mais grana do que eu poderia imaginar"). Afrânio percebeu minha desconfiança e hesitação (naquele momento eu ainda as demonstrava), e retrucou dizendo que EU O ESTAVA DEIXANDO ESTRESSADO. Com isso em mente, decidi que estava na hora de tentar, conformado com a situação, tirar algum proveito dela. Eu não tinha alternativa senão continuar andando ao lado do Afrânio, não havia fuga da situação. Tudo que eu queria era que aquilo passasse o mais rápido possível (eu me perguntei se eu o estava acompanhando apenas para saber qual seria a desculpa dele pra não entregar os tickets. Não, eu não tinha NENHUMA curiosidade quanto à sua estória. O acompanhava por ausência de alternativas mesmo). Querendo acender um cigarro, Afrânio descobriu que a mulher que tinha pedido cigarro para ele tinha ficado com seu isqueiro. Ficou muito bravo, e, procurando em sua pochete abriu um bolso onde pude ver uma fita K7 (a do cara do Peixe Brasil). Como eu ia dizendo, eu queria que aquilo acabasse o mais rápido possível (como uma prostituta que espera o gozo do cliente), e foi o que eu implicitei mais uma vez a Afrânio dizendo que eu estava com pressa pois ainda tinha que estudar. Mas Afrânio testava meus limites, ou por sadismo ou para ter mais tempo para inventar a desculpa - cumprimentava CADA pessoa que via na rua e conversava um pouco com ela. Estávamos chegando. Ele me apontou o local onde ficava seu barraco, pediu que eu esperasse lá, pois o lugar era perigoso. Como garantia ficava com seu carrinho e sua pochete. Afrânio conversou em voz baixa com 2 "manos" que passavam na rua. Comecei a temer que o golpe que eu estava recebendo se tornasse mais sério, com alguém roubando de mim o carrinho de Afrânio. Afrânio se movia lentamente, entretanto depois de pouco tempo (uns 3 minutos) eu o vi de relance atravessando rapidamente a rua no sentido oposto à sua casa. Ainda temendo mais uma vez que o golpe se tornasse mais sério, fui até a esquina espioná-lo, abandonando o carrinho. Ele conversava com um terceiro "mano", que estava ouvindo um RAP, e Afrânio já tinha me falado que era seu estilo de música favorito. Era provavelmente disso que falavam. Afrânio voltou, um pouco bravo por eu ter abandonado seu carrinho. Disse que (não me lembro quem) não estava na casa e que a porta estava trancada. Combinamos de nos encontrar na mesma pracinha onde a gente tinha tomado refrigerante (na USP) no dia seguinte às 16 horas sem falta. Se um não estivesse lá, o outro esperaria por 15 minutos. Mas ele ia estar lá às quatro. É claro que naquele momento eu poderia ter ficado com a pochete dele de garantia, mas eu já tinha me conformado fazia tempo com o golpe e, como já disse antes, meu maior desejo era que aquele encontro acabasse o mais rápido possível. Vi ali uma oportunidade e agarrei-a. "4 horas então? Responsa, eim Afrânio, tou confiando em você". Voltei pra casa. É óbvio que eu não tinha prestado atenção ao caminho na ida e me perdi um pouquinho, mas acabei chegando lá. Meu primo estranhou que eu estava suado, mas não ficou perguntando muito. Enviei um e-mail pra minha mãe, que estava (e ainda estava enquanto escrevi o conto e ainda está enquanto eu digito) na África (de novo). Contei para ela (não em tantos detalhes quanto aqui) o que tinha acontecido, e como esse tipo de experiência fazia parte do pacote "more sozinho-cresça bastante", que me tornava cada vez mais adulto. Mas, depois disso, aquilo tudo ainda não tinha saído da minha cabeça. Foi então que eu me toquei de um detalhe e enviei outro e-mail pra minha mãe:
Daniel Abramowicz to bettyabramowicz:
Eu estava refletindo sobre o cara que eu ajudei (Afrânio) e,
sinceramente, prefiro que ele não traga os vale-refeições amanhã. Se
ele trouxer vai ser muito mais difícil negar uma ajuda a ele... e eu
detesto ajudar as pessoas - eu não me sinto melhor, aliás, eu não me
sinto nem bem, eu apenas me sinto menos pior. Ajudo por culpa e
piedade. Se ele não trouxer isso vai me deixar mais insensível, o que
me fará uma pessoa mais feliz. Pode ser uma coisa malvada de se dizer,
mas é como eu me sinto no momento. Principalmente quando ajudar os
outros implica em sentir-me um ingênuo idiota.
Naquele mesmo dia, um convite inesperado e inesperadamente aceito por mim acabou fazendo com que eu tivesse a pior ressaca da minha vida no dia seguinte (N.A. : Contribuindo também para que eu não tivesse tempo para digitar o conto até hoje, 9 de Junho).
Dia de ressaca é sempre horrível. Eu estava na USP, faltavam 20 minutos para as 4. O meu grupo ia se reunir para fazer o trabalho que nós mal tínhamos começado e precisávamos terminar em menos de 15 dias (N.A. : Agora faltam 4 dias e ele não evoluiu muito). Disse-lhes que ia pegar um "ENGOV" na minha casa e depois me encontraria com eles. Menti porque não queria que eles soubessem que eu havia levado um golpe, mas eu tinha que ir encontrar o Afrânio de qualquer maneira para dar o cheque-mate. Era tudo um jogo: EU vs MINHA CONSCIÊNCIA. Mesmo sem ter percebido, no momento em que paguei os 18 reais para Afrânio eu tinha "comido a dama" dele. Ele havia usado TODAS AS MANEIRAS QUE EU CONHEÇO E MAIS ALGUMAS para fazer com que eu me sentisse culpado. E eu me senti. Mas agora, se ele aparecesse de mãos vazias (ou nem aparecesse at all), isso faria com que toda a culpa que eu senti até aquele momento tivesse sido em vão, inútil. Se ele não aparecesse com os tickets-bandejão (o que era mais do que extremamente provável), eu não me sentiria mais culpado, não só em relação a ele, mas em relação a TODOS OS "ECONOMICAMENTE DESFAVORECIDOS" (que é uma maneira politicamente correta de dizer POBRES) que me pedissem dinheiro ATÉ O FIM DA MINHA VIDA - MESMO que essas pessoas usassem as estratégias mais dolorosas, como lamentarem que têm uma filha recém-nascida morrendo de fome (não significa que eu nunca mais darei esmola, significa apenas que não será por culpa e que não vou mais sofrer tanto nem me sentir responsável pela dor alheia, NUNCA MAIS).
O tempo não passava. Eu ficava atento a todos os lados da praça, sentado no lugar combinado, na esperança de que Afrânio não aparecesse (assim eu não ia nem ter que perder tempo falando com ele, e eu não agüentava mais perder tempo - e ainda tinha o risco dele trazer os tickets (embora naquele momento eu não sabia se realmente faria tanta diferença)). Faltavam 5 minutos. Em minha ressaca eufórica eu já estava quase falando sozinho (N.A. : Mentira, eu já estava falando sozinho, mas baixinho). Mate em 5... 4... 3... 2... 1... 0! Eu estava em ÊXTASE. Fui encontrar-me com meu grupo quase saltitando. Eu não conseguia encontrar UMA maneira de olhar para a situação sem que ela fosse boa. Quem não pagaria 32 reais (contando a Coca-Cola do primeiro dia) para ser mais feliz até o fim da vida? Além disso, o dinheiro ao menos serviria para ajudar alguém com sérias dificuldades financeiras (será que ele foi comprar pó com esse dinheiro?). Por fim, não havia nenhuma maneira melhor de me livrar tão completamente da culpa. Nenhuma.
O conto já era pra ter acabado (e já tinha acabado), mas fez-se necessário o acréscimo de dois parágrafos.
Meu maior medo era de que essa sensação de ausência de culpabilidade fosse passageira, e que no momento em que me encontrasse com Afrânio e ele começasse a falar que tinha ido lá, mas não tinha me encontrado, comigo noutro estado de espírito, eu acabaria me sentindo culpado de novo.
Encontrei Afrânio no Domingo, dia 5 de Junho. Estava voltando cansado, como sempre, às 8 horas da noite, depois de um dia desgastante de trabalho (o mesmo trabalho). Ele demonstrou alegria ao me ver. Disse que tinha ido lá na faculdade me entregar os tickets, se eu duvidasse, que nós fossemos então naquele momento mesmo confirmar com o guardinha da porta da USP. Eu disse que tudo que eu queria era chegar em casa. "Por que?" - Porque estava tarde e eu estava cansado. Eu nem queria mais os tickets. Eu o tinha ajudado, ele pôde comprar o leite pra filha dele naquele dia, então estava tudo bem. Com um olhar quase ofendido ele disse "Não, pra mim não está tudo bem, não.". "pra VOCÊ não está tudo bem?" disse, com ênfase no VOCÊ, pensando que ele teria ficado ofendido com a idéia que eu fazia dele e que deixei transparecer, provavelmente. Então ele me disse que tinha levado dois tiros noutro dia, que tinha um cara querendo matar ele e que a polícia não ia fazer nada. "É uma pena!", respondi. "É uma pena que eu vou morrer, né?", "é.", "E ninguém pode ajudar, não é mesmo? NÃO, na verdade você pode ajudar, sim, assim como dois outros garotos me ajudaram". Se eu me sentisse como um personagem num conto, assim como sou para vocês leitores, eu teria continuado a conversa. Mas eu não sou um personagem. Cortei o papo por aí com um "Eu não quero mais te ajudar, Afrânio. Desculpa." bem seco, e voltei realmente feliz para casa.