Antes de tudo devo me apresentar: meu nome é Daniel Abramowicz. E isso é tudo que vocês precisam saber sobre mim por enquanto. Enquanto o enquanto não passa, uma breve introdução ao meu trabalho de pesquisa: minha missão era conseguir o máximo de informação possível sobre o homem que desenvolveu o modelo X para explicar o fenômeno E. Pode parecer uma missão fácil, mas o grau de profundidade de minha pesquisa foi tão grande que eu quase me afoguei (literalmente!) nos dados.
Inicialmente baseei-me nas fontes habituais de pesquisa: um calhamaço cheio de meias verdades (mentiras inteiras) retirado da internet. E não foi só "ctrl c ctrl v", não. Eu li tudo, mesmo. Demorei 1 mês inteiro só separando os dados. E foi nesse processo que eu consegui mais informação - para vocês terem um idéia, eu não sabia nem o nome do banana antes da pesquisa na net. E na net fomos apresentados. Ricardo Carlos, prazer, Daniel Abramowicz.
Ricardo Carlos (na verdade Richard Charles, é que eu tenho mania de ficar abrasileirando o nome das pessoas importantes - Sugismundo Froyd, Jerônimo Bosh, Ronaldo McDonald, etc) nasceu na época T, teve uma infância C (quem não teve?), cursou a Universidade Aquário, enfim, teve uma vida muito I. Mas isso não é o importante - importante foi o modelo X. Para minha pesquisa, tive que ler todos os livros escritos por Ricardo Carlos e muitos mais só para entender a lógica e a importância do modelo X, e como ele se aplica à nossa vida quotidiana. Por exemplo, se você tem um amigo e resolve viajar com ele. No meio da estrada vocês param para tomar um café, mas seu amigo pede um sorvete. Então, depois de descansados, vocês retomam a viagem (isso tudo na ida da viagem, tinha esquecido de dar esse detalhe). Então, como a viagem é longa, você fica com sono e tira uma soneca, enquanto seu amigo dirige. Calmaí, isso não está certo, você tinha acabado de tomar café... ah, desculpe, você que tinha pedido sorvete lá na lojinha do posto, e seu amigo que tinha tomado um café. E você não precisava ficar preocupado com a direção, porque na ida da viagem você que tinha dirigido. Ah é, a gente tava falando da ida, né? Então você que tomou o café e seu amigo o sorvete, e ele dormiu durante a viagem. Ah, nem preciso mencionar, era você quem estava dirigindo (tanto que seu amigo tava dormindo). Bom, pra encurtar a história, o fenômeno E é o que ocorreu entre a viagem de ida e a viagem de volta, que permitiu que fosse você e não seu amigo que tomasse o sorvete. E no final, se você fizer as contas, você tomou dois sorvetes e um café, e seu amigo só tomou o café (o sorvete dele caiu no chão na ida. Digo, na volta) - mais uma vez, fenômeno E. E o modelo X é a única coisa que explica o fenômeno E.
Toda essa explicação confusa não foi realmente uma tentativa de dar uma noção do modelo X a vocês leitores. Na verdade o fenômeno E e o modelo X não têm nada a ver com viagens, cafés e sorvetes. Eu escrevi tudo aquilo lá em cima apenas para vocês terem uma idéia do TIPO de livro que eu tive que ler - substitua cada palavra por um algoritmo com uma quantidade de letras gregas de deixar Homero com inveja. Aparentou-me haver uma contradição inerente ao modelo, que tentei reproduzir no meu exemplo pífio. Essa contradição, que depois provou-se ser verdade, é devido ao método A de se chegar às equações. Mas estou me adiantando, tudo virá no seu próprio tempo. Além disso, estou entediando o pobre leitor que sentiu-se obrigado a terminar de ler o texto, já que começou. Eu também sou assim, mas vou dar uma dica pra vocês: vocês não precisam ir até o fim. Não mesmo, é só parar no meio - parem de ler - agora! É claro que a parte mais legal é a próxima, mas se você tivesse parado na hora que eu falei, você não saberia disso, e estaria livre de dor de consciência de não ter dado uma chance ao escritor. Para os leitores que pararam de ler na hora em que falei, o meu texto é só um monte de bobagem, um texto que não fala nada sobre nada, enfim, um texto chato. Mas para vocês, que agüentaram até aqui, vocês sim terão o privilégio de conhecer uma história que pouco tem a ver com X, A, T, I, C, E etc. No fundo, é uma simples história de amor... (não no sentido tradicional).
Já enrolei demais. Hora de começar (afinal, eu não fiquei meses e meses lendo livros, visitando sites, recolhendo depoimentos em diversos lugares do mundo, consultando até mesmo uma ocultista esotérica fenomenologista (e olha que eu sou o cara mais cético que conheço) que me cobrou uma fortuna para falar em termos imprecisos uma informação "telefone-sem-fio" que eu não tenho nem como provar que seja verdade, enfim, eu não tive todo esse trabalho para não escrever nada.): o primeiro fato importante na vida de Ricardo Carlos (putz, nunca vi nome menos sonoro que esse na minha vida - e Richard Charles é ainda pior!) foi quando ele entrou na Universidade Aquário (U.A. para os íntimos - não confundir com "Unidade Arbitrária" - se bem que essa confusão não é de todo ruim...). Não foi nenhuma surpresa, quando, durante o banho, a campainha tocou e ele estava sozinho em casa, então colocou um roupão e correu para atender a porta, e era o carteiro. Então ele pegou a correspondência, mas não abriu, porque ainda tinha xampu no cabelo. Então ele terminou o banho e quando ele abriu a carta da Universidade Aquário falando que ele tinha entrado não foi nenhuma surpresa (se fosse, ele não ia esperar tirar o xampu antes de abrir a correspondência) - e não foi surpresa porque Ricardo Carlos era um pequeno gênio - um cara muito superior à media das pessoas, um dos poucos que podem ser comparados, assim, na maior, a caras como Alberto Einstein, Frederico Nietzsche, Ludovico Van Beethoven, etc.
Ricardo Carlos chegou na universidade achando que ia encontrar um ambiente adulto, com pessoas sérias, interessadas em aprender, engajadas politicamente, enfim. Mas na Universidade Aquário só tinha palhaço. Comportamentos tão infantis que mesmo durante o colegial as pessoas não apresentavam (ou seja, comportamentos de ginásio) eram facilmente encontrados, em qualquer direção que Ricardo Carlos olhasse. Foi um choque, uma decepção. Os professores, por sua vez, ignoravam esse fato totalmente, e mantinham suas aulas em alto nível (seja lá o que signifique "manter algo em alto nível", mas foi uma citação direta do depoimento de alguém que eu perdi o nome), sendo o desafio das aulas a única coisa que mantinha Ricardo Carlos vivo e pretendendo continuar vivendo.
Nem preciso dizer (mas vou) que, sendo Ricardo Carlos um cara tão foda, ele teve as melhores médias da história da faculdade. Nem precisava dizer isso porque também não tem nada a ver com o que eu vou falar agora: o fato que levou Ricardo Carlos a propor o modelo X. Eu vou falar disso no próximo parágrafo, mas já vou avisando que a explicação envolve muitas letras (letras soltas, tipo S, E, X, etc - não letras juntas, senão é muito fácil dizer que qualquer texto tem muitas letras - menos o último poema que eu li, mas estou fugindo do assunto). Então se você é daqueles (as) caras que não é muito chegado (a) numas letras, que não via a hora do terceiro parágrafo acabar, enfim, se você é desses pentelhos, pule o parágrafo a seguir (duvido que o faça, já que leu tudo até aqui...)
Ricardo Carlos estava no meio do terceiro ano do curso J, quando, durante uma aula, foi introduzido à obra de F. F havia ficado famoso por ter feito um modelo, modelo esse também chamado modelo X (mas hoje em dia ninguém fala mais dele, pois foi totalmente substituído pelo outro modelo X, o do Ricardo Carlos). Ricardo Carlos entrou em uma seríssima discussão com seu professor, Ubaldo S.T. (nem me pergunte o nome "não aportuguesado" desse cara), para alegria de seus colegas, que não só não iam mais precisar assistir a aula, mas podiam ficar se divertindo fazendo guerrinha de giz (se bem que no meio do terceiro ano o pessoal já não fazia mais tanto esse tipo de coisa - e era a esse tipo de coisa que eu estava me referindo quando mencionei comportamento infantil. Mas, raras ou não, durante a discussão é sabido que uns colegas atiraram giz em Ricardo Carlos. Alguns autores até gostam de fazer analogia com a famosa maçã (e ainda existe a teoria de que foi na verdade uma maça, não uma maçã) que caiu na cabeça de Isaque Newton, inspirando-o à gravidade. A verdade é que não foi nem a maçã nem o giz que desencadeou a reação em cadeia nos cérebros de seus respectivos "alvos".). Ricardo Carlos havia percebido uma falha de lógica no modelo X de F. Só para ficar mais fácil a compreensão, para se desenvolver uma teoria, utiliza-se métodos lógicos. São conhecidos os métodos A, D, E, R, V, entre outros, que podem ser usados em qualquer tipo de combinação (ao menos assim imaginava Ubaldo S.T.). Mas F havia utilizado os processos de tal maneira (A (-V/ER - D'logA/D'logE)) numa ordem que era auto-contraditória, pois não se podia ter A multiplicando a expressão que se seguia, ou haveria a negação e a afirmação (ou seja, uma contradição) na teoria. Ricardo Carlos sabia que havia uma contradição no modelo X de F, mas não conseguia demonstrar por quê. A discussão já estava calorosa, quando Ricardo Carlos foi obrigado a aceitar o procedimento de F como válido. Essa resignação representou para Ricardo Carlos, psicologicamente falando, a destruição de sua masculinidade - sua impotência lógica associou-se a uma impotência sexual metafórica (mas esse depoimento todo foi de um cara que nem gostava do Ricardo Carlos - aliás, o próprio cara que jogou giz nele, Guilherme alguma coisa). E é aqui que chego onde nenhum homem jamais esteve: essa minha dissertação totalmente coloquial, de todas as dissertações já feitas sobre Ricardo Carlos (TODAS literalmente - eu sei, eu li!), é a única que se aprofundou o suficiente para descobrir qual foi o REAL motivo do desenvolvimento do modelo X por Ricardo Carlos, e que, depois se provará, implica num fato que nenhum homem jamais ousou sequer imaginar: Ricardo Carlos jamais aceitou o próprio modelo. Desculpe, me animei e me adiantei, deixe-me contar a história toda: Ricardo Carlos, irritado com o professor e irritado até mesmo com a sociedade, que aceita o método lógico empregado por F como válido, necessitando reafirmar sua masculinidade e ao mesmo tempo vingar-se de todos os que diziam que era ELE, e não F, quem estava errado (e acredite, foram muitas pessoas. F era cientista renomado), resolveu adotar o método empregado por F para tirar suas próprias teorias, absurdas é claro, mas todos teriam que aceitar, afinal, é ciência! Não sei se consegui passar uma idéia exata da maquiavelidade do plano de Ricardo Carlos. Para facilitar a compreensão, imagine, por exemplo, que um cientista importante utilize o conceito de espaço-tempo decadimensional (ou seja, a existência de dez dimensões no espaço-tempo). Então, conforme vai teorizando, aproveita-se do engano tradicional de que o tempo seria também uma dimensão do espaço-tempo (o que, embora seja aceito como EXEMPLO de quarta dimensão, jamais pode ser aceito cientificamente como tal). No espaço decadimensional, existem dez dimensões mensuráveis em unidades conversíveis de medida de espaço. Assumir o tempo como uma das dimensões seria o mesmo que dizer que podemos medir o tempo em metros, centímetros, anos-luz. Então, a partir dessa suposição, chegamos à terrível equação “espaço=tempo”. Partindo dessa equação, temos todo um novo modelo de compreensão do universo, baseado, logicamente, em um erro. Por exemplo, sendo espaço=tempo, a sensação de lentidão dos movimentos na Lua, por exemplo, seria explicada por um problema de espaço: o espaço lá é maior, pois, na ausência de moléculas de gases, há maior concentração matéria/espaço, o que significa que o TEMPO lá também é maior. Ainda assim, como nosso corpo na Lua permanece com o mesmo espaço, o tempo metabólico do homem na Lua é igual ao tempo metabólico na Terra. Isso também explicaria porquê vemos os aviões caminharem tão lentamente em nosso céu. Entre muitas outras coisas. Ricardo Carlos fez exatamente isso para desenvolver o modelo X, baseando-se no mesmo princípio lógico (ilógico) presente no modelo X de F. Para ele, esse erro era tão claro como é claro para nós que espaço não é igual a tempo. Mas, inserido em equações e princípios muito mais complexos do que o de espaço decadimensional, tal erro jamais poderia ser percebido por nós, meros humanos semi-racionais (eu mesmo não entendi porquê o uso do método A por F seria contraditório...). A “contradição F”, como inclusive foi demonstrado por Ricardo Carlos, é impossível de ser provada (a ciência J não é tão exata quanto sua fama dá a entender). A vingança de Ricardo Carlos seria montar um modelo totalmente errado, mas que, como é impossível provar que está errado, teríamos que aceitar como dogma da ciência, assim como aceitávamos o modelo X de F. Ricardo Carlos seria o novo “papa” da ciência.
Pouco importa o que ocorreu depois disso. Ainda assim vou contar: Ricardo Carlos passou alguns dos seus próximos anos trabalhando no modelo X (o seu, não o de F). E chegou a conclusões que não eram tão absurdas como ele gostaria que fossem. Ainda assim, para um homem do naipe dele, as contradições eram evidentes. Terminado o modelo, que rendeu-lhe inúmeros prêmios importantes e a fama de gênio que perdurou sua (curta) vida, Ricardo causou literalmente uma revolução na J. Muitos fenômenos antes não explicados deixaram finalmente de atormentar as pobres mentes curiosas e absolutistas dos seres humanos semi-racionais. No começo, Ricardo Carlos ficou orgulhoso de sua contribuição para a (destruição da) J. Jamais admitiu para ninguém (alguém) que todo seu modelo era baseado numa mentira. Até hoje o modelo X é ensinado nos cursos mais avançados de J. Mas minha pesquisa não terminou por aí. A fim de saber se sua consciência o esteve atormentando no final de sua vida, consultei uma renomada paranormal, que prometia ter o poder de dar-me informações sobre a situação de Ricardo Carlos durante sua morte ou após. De acordo com a mulher, Ricardo Carlos não mais se encontrava entre os mortos, porém, boatos rolavam soltos sobre alguns de seus feitos no pós-vida. Uma dessas histórias (a única que meu dinheiro pôde pagar) é de que numa bela manhã de Maio estava Ricardo Carlos observando-nos de cima, quando o Criador, passando perto, resolveu-lhe acompanhar na observação. Seguiu-se que Ricardo Carlos comentou: “Fui eu que fiz!”. É claro que essa história são só rumores passados de boca em boca, e pode ser que na realidade tenha sido o Criador que fez o comentário. Ou o comentário pode ter sido simplesmente parte de uma conversa maior.
Espero que o estilo coloquial dessa dissertação não tenha comprometido sua credibilidade. A verdade é que ninguém ousaria duvidar formalmente do modelo X – nem eu, nem Ricardo Carlos.