Depois daquele ultimo post meio sem-vida resolvi voltar ao normal...
Sabe que uma vez me disseram que, quando, em publicidade, não se consegue ter uma boa idéia, põe-se logo um cãozinho na propaganda. Por isso é tão comum de se ver cachorros em propagandas. Como bom publicitário que eu sou, resolvi ir logo apelando pra figura canina. Tem até aquela frase (embora eu ache que é sobre o Diabo) - o Cão é o melhor amigo do homem.
Ontem fui a pé de minha casa até o "Promocenter" (no cruzamento da Augusta com a Paulista). No começo do caminho, eu tava andando pela calçada perto de uma área de entrada de algum prédio (mais elevada, e entre mim e o "degrau" tinha aquelas plantas cheias de espinho que não sei quem acha bonitas), quando um vira-latas enorme apareceu. (em cima do degrau tinha a mesma altura que eu). Como fui pego de surpresa, levei um susto e parei. Ele pulou do degrau bem na minha frente (quase no meu pé). Depois foi me acompanhando pelo caminho, às vezes por trás, às vezes pela frente (ele passava à minha frente, ganhava distância, ficava coçando suas pulgas enquanto eu passava por ele, depois continuava me seguindo). Quando fui acariciá-lo, percebi que seu corpo estava cheio de chagas. Uma ferida no pescoço chegou a me dar tontura. Mas me identifiquei com ele. Dois companheiros, andando naquele sol... os dois de preto. Cada pedestre que passava o cachorro olhava, depois olhava para mim (decidindo quem acompanhar). Em determinado momento pensei em seguir o cachorro e ver para onde ele me levaria. Mas era ele quem me seguia. Quando errei o caminho e voltei, ele voltou atrás de mim. Um pouco antes de começar a subida da Augusta ele finalmente me abandonou. Enquanto subia ele ficou a esperar um ônibus no ponto. Por que me identifico mais com os cachorros do que com os outros seres humanos? Talvez porque me sinta, assim como eles, livre das amarras morais, livre das tradições, sincero comigo mesmo, fiel a meus sentimentos. E ver a triste vida das almas livres é algo que me toca como uma mão etérea, ou como uma mão rígida para meu corpo etéreo (como numa das primeiras cenas do anime "The End of Evangelion"). De qualquer maneira, hiperbolizei um pouco meus sentimentos nesse parágrafo. Não fui tão afetado assim pela experiência. Só coloquei esse fato aqui para estabelecer uma ligação com o que
eu havia prometido falar tanto tempo atrás... algumas pessoas deviam estar pensando que eu esqueci, outras que era uma mentira, mas não. Eu sempre cumpro minhas promessas (ou melhor, meu "eu blog" sempre cumpre suas promessas). Eu havia prometido falar uma coisa ou outra sobre os dois cachorros que moram comigo (o Neo (Matrix) e o Ziggy (David Bowie)).
Apenas uma introdução aos personagens: Neo é o pai, já velho em espírito (embora corporalmente jovem). Um ano e meio depois veio Ziggy, o filho, mais viril, o "macho alfa".
Desde pequeno o Neo gosta de ficar esparramado pelo chão, mas como prefere não ficar sozinho, acaba escolhendo os piores lugares para fazê-lo (sempre em nosso caminho). Assim sendo, é muito comum que tropecemos nele ao andar pela casa. Como ficamos com dó do cachorro, imaginando que possivelmente na cabeça dele a dor seria interpretada como um castigo por algo que ele fez, temendo que dessa maneira ele tirasse alguma conclusão errada do acidente, sempre nos desculpamos com muita ênfase nesses casos, alegrando-o, acariciando-o, enfim, dando atenção a ele. O efeito acabou sendo muito contrário ao que gostaríamos em sua educação, pois em sua mente, o Neo associou a dor à atenção e ao amor. Sendo assim, agora quando tropeçamos nele, ao invés de chorar (como fazia quando criança), o Neo abana o rabo e fica todo alegre, esperando o carinho. Sim, transformamos o Neo em um masoquista (ao menos é um masoquista no melhor sentido da palavra, pois ao meu ver, existem dois tipos de masoquismo: o masoquismo auto-destrutivo, que provém de um ódio a si mesmo, e o masoquismo sexo-fetichista, que é a associação de prazer à dor, sendo esse o caso do Neo). Neo também muitas vezes apresenta comportamento sádico, pois se alegra ao ver qualquer pessoa (ou o Ziggy) levando bronca ou brigando. Nunca consegui identificar as origens desse comportamento. Talvez seja por transposição (imaginar-se na situação do outro), mas não sei se não seria complexo demais para a mente canina...
O Ziggy já é muito diferente do Neo. Sendo um anti-herói picaresco desde o nascimento (estilo o Leonardinho do livro Memórias de um Sargento de Milícias, de Manuel Antônio de Almeida), nossa forma de educá-lo sempre foi diferente. Ele sempre levava bronca ao fazer coisas erradas (pra alegria do Neo). Assim conseguimos embutir um sentido de culpa na mente do pobre cãozinho. Outro dia ele estava lá tentando alcançar a comida na mesa, sorrateiramente, quando chamei seu nome. Ele imediatamente parou o que estava fazendo e se fez de inocente. Ele nunca gosta de ser incomodado, especialmente quando está com sono. Outro dia minha irmã foi fazer um carinho nele e ele rosnou para ela. Ela se afastou, foi fazer outra coisa. Pouco depois ele chegou nela todo se desculpando por ter sido grosso. É um cachorro que fica com a consciência pesada...
Toda vez ao voltar do passeio e em outras ocasiões, os dois cachorros mantém uma relação homossexual incestuosa, sendo Ziggy o ativo e Neo o passivo. Minha mãe sempre fica brava e briga com o Ziggy (que, católico do jeito que é, sempre interrompe suas atividades eróticas). O veterinário disse que o Ziggy faz isso para mostrar-se dominador, estabelecendo a hierarquia. Inicialmente eu não me incomodava com a relação dos dois, mas depois de um tempo percebi que o Neo não gostava de ser enrabado (ele ficava rosnando mais ou menos baixinho durante o ato), por isso hoje vejo tal ato mais como um estupro do que como uma relação sexual consentida.
A observação do comportamento dos meus cachorros serve para calar a boca de todos os homofóbicos que consideram o homossexualismo como anti-natural. Mas também serviu para calar minha boca, que considerava os valores católicos como anti-naturais. Diferente dos humanos, os cachorros não sentem vergonha, não querem privacidade, não são hipócritas. Observá-los para tirar conclusões acerca da humanidade é, por esse motivo, mais fácil do que observar os próprios seres humanos.
Pronto, promessa cumprida. Eu tinha outro "post" pra colocar, muito mais pessoal, adequado ao clima de "tribunal", já que é uma confissão. Além disso, nesse "post", que fica prometido lá pro dia 23 ou algo assim, acaba transparecendo uma grande dica sobre a origem do nome do Blog (sobrando de mistério só a origem do endereço do blog). No post seguinte a esse que tem a dica prometo explicar em detalhes tudo que você sempre quis saber mas tinha medo de perguntar sobre o nome "no tribunal do rei escarlate".
Estou achando esse post muito pequeno (mentira, é só uma desculpa pra falar MAIS uma coisa). Eu comecei a escrever essa mensagem de manhã, e agora estou retomando. Hoje eu tive que voltar (a pé também) ao Promocenter para trocar o que havia comprado errado. No começo do caminho (antes mesmo do local onde ontem encontrei o cachorro), um homem que também estava caminhando iniciou o diálogo, de maneira bem estranha: "É, a rapadura é doce mas não é mole!". Estávamos caminhando lado a lado, e acabamos conversando sobre muitas coisas da vida. Ele me perguntou se eu estava indo para a escola, então eu lhe disse que ia para a faculdade. Ele disse que tinha 37 anos, que por problema com mulheres teve que dormir esses dias na sarjeta. Como ele estava indo para o centro e o Promocenter fica no caminho pro centro, fomos seguindo conversando, e eu sempre conhecendo mais sobre esse homem chamado ######## que tem um sobrinho chamado Daniel (e eu me chamo Daniel e tenho um tio chamado ####### (duas letras de diferença)). Conversamos sobre o estudo (em um momento ele me fez um "pergunta de vestibular": Quem é o pai da relatividade?). Ele me disse que era muito difícil, eu lhe respondi que é muito diferente pra quem estuda em escola pública e pra quem estuda em escola privada, com refeição garantida e moradia, sem ter que se preocupar com nada a não ser estudar, e tendo professores bons. Conversamos sobre a situação do país, e se ele tinha alguma idéia de como mudar as coisas. Não, não tem como mudar. Ainda assim, ######## é um homem muito positivo, não guarda rancores dessa vida, não tem ódio nem inveja da burguesia. Contou-me sobre seus dias, acidentes, de como anda por São Paulo (adora essa cidade), de que tipo de pessoa encontra nas ruas ("Das coisas que você vê acontecerem na rua, acontecem mais coisas boas ou coisas ruins?" - "Está zero a zero"). Conhece oito estados do Brasil, tem um irmão que mora nos EUA (entrou pelo México, correndo risco de ser assassinado pela polícia da fronteira, violentíssima. Hoje é um vencedor, tem carro, casa e até computador) e um outro irmão que mora em uma outra cidade que eu não lembro o nome, sobrando apenas ele com a mãe. Tem 3 filhas e 1 filho, em duas cidades diferentes, que visita e manda dinheiro quando pode. Foi muito ferido pelas mulheres, que "só nos amam enquanto nós temos dinheiro". Acabei convidando-o para tomar uma cerveja numa padaria ao lado do Promocenter. Lá me disse que seu hobby é a "ufologia", que seu sonho é apenas recuperar o que um dia já teve - um carro, uma conta no banco... (A propósito, ######## é cabeleireiro, trabalhava no New Look, 50% de mais valia pro dono, e sem direito a condução, alimentação, etc). Perguntei como havia se tornado cabeleireiro. "É uma história engraçada": tinha 14 anos e, passando na rua viu o anúncio "Precisa-se de engraxate". Começou a trabalhar como engraxate em um salão e ficava assistindo os cabeleireiros, admirando a profissão, e treinando em casa no próprio cabelo. Conversou com o patrão e começou a cortar. "Estragou" muitos cabelos até conseguir, mas em um ano já sabia fazer de tudo. Quando o assunto era a violência das ruas, perguntei-lhe se já foi assaltado. "Acredita que não?" Apenas o haviam roubado, umas três ou quatro vezes, enquanto dormia, a mochila, os sapatos. Por fim, depois de pedir a conta, quando me pediu (encabuladamente) uma ajuda, dei-lhe tudo que podia oferecer no momento (quase 30 reais), nos despedimos ("é o ar que você respira" - uma discussão religiosa foi inevitável), (ele pediu meu telefone "pra não me perder de vista") e eu tenho certeza de que essa experiência foi inesquecível para ambos. Quem sabe nos encontremos mais uma vez para tomar uma cerveja e conversar da vida? Então pedirei autorização para colocar seu nome no blog.
Será que é possível uma amizade sem o sentimento de hierarquia que a sociedade nos impõe? Qual de nós estaria sendo mais egoísta na relação? Ou nenhum?
Espero que esse relato tenha inspirado algum dos (eram 4? Xiii, acho que voltou a ser só três...) leitores a fazer algo semelhante, isto é, conversar seriamente com alguém que anda pelas ruas, pois o pior nas ruas é a solidão (isso não foi ######## quem me disse). É uma experiência muito construtiva - conhecer as pessoas (amigáveis) que habitam esse mundinho. A propósito, congratulo-me pelas 50 visitas! EEEEEE parabéns é um número enorme de visitantes, não? Pena que dessas 50 visitas, umas 25 foram minhas.
Só mais uma coisa (enrolar mais um pouco já que tudo que é bom dura pra sempre) - coloquei na barra da direita links para blogs de pessoas que admiro.
Tony Babalú é um guitarrista brasileiro, tendo participado da banda "Made In Brazil", sendo hoje guitarrista independente e diretor de uma peça infantil há 10 anos. Tive o prazer de conhecê-lo pessoalmente.
Paula Corrêa é uma poetisa de talento, por enquanto com apenas um livro publicado, sendo seu blog o único que acompanho a fundo, pois suas mensagens trazem sempre muitas mensagens, e seus poemas são fascinantes. Também tive o prazer de conhecer pessoalmente. Por fim um blog que leio de vez em quando, o "Blog do Tas" -
Marcelo Tas é jornalista bem humorado (era o "Professor Tibúrcio" do Ra-tim-bum, e o Repórter "Ernesto Varela", famoso por ter perguntado em entrevista ao Maluf se ele é ladrão), e escreve semanalmente no famoso caderno LINK do Estadão. O único dos três que não tive o prazer de conhecer pessoalmente :( Quem sabe um dia?? E Sim, eu espero que as três pessoas que lêem meu blog visitem em algum momento de suas vidas esses blogs.