23/02/2005

A difícil decisão de NÃO vender minha alma

Esqueçam os outros "posts" do blog. Esse é de longe o melhor texto até agora. Levantei da cama no meio da madrugada só pra escrever isso.

A difícil decisão de NÃO vender minha alma

Outro dia, lendo um blog interessante, me deparei com um link para um site chamado "We Want Your Soul". De início foi muito intrigante. O site prometia comprar minha alma para sempre, em dólares. Ingênuo como sou quando me deparo com as coisas pela primeira vez, confesso que fiquei tentado a vender minha alma. Desde a primeira vez que alguém mencionou a história de Fausto fiquei intrigado com esse negócio. Pouco depois do meu entusiasmo inicial, já comecei a suspeitar do site. Lembrei-me do filme "A Paixão de Cristo", que não vi, mas que me deu a brilhante idéia de um dia fazer um filme sobre Cristo. Por que? Simplesmente porque qualquer coisa que leve o nome dele fatura uma PUTA (adoro palavrões, apesar de não acreditar neles) grana. Aliás, é apenas por isso que o livro Código Da Vinci (que ainda não li) fez tanto sucesso, inspirando tantos plagiadores. Então a idéia do site "We Want Your Soul" já ficou mais clara na minha cabeça. Como havia sido ingênuo ao acreditar que poderia haver qualquer outra motivação no mundo além de dinheiro. Sim, o site é COMERCIALMENTE PERFEITO! Muito melhor que minha idéia de fazer um filme sobre Cristo, porque é mais barata, e porque FOI FEITO. Ao mesmo tempo que seu texto é extremamente convincente no sentido de parecer ser uma corporação, seu visual foi cuidadosamente escolhido para ter um design diabólico, desde os sorrisos "sinistros" na foto da página inicial até a escolha das cores laranja e preto. Além disso, para os descrentes, há no site uma "brincadeira" que é ver o grau de pureza de sua alma. Atinge todos os visitantes do site, independentemente de suas convicções. Percebi o potencial lucrativo do site. É quase infinito. E comecei a imaginar o quanto um site desses não faria sucesso num país como o nosso que tão hipocritamente misturou esoterismo e catolicismo. Quantas pessoas no Brasil não acessariam o site e acabariam comprando os produtos que "aumentam a pureza da alma"? Muitos. E o dono do site ia ganhar uma fortuna, pois foi a maior idéia de márqueting desde a martirização. Comecei a pensar seriamente em roubar a idéia do "WWYS" e fazer algo semelhante no Brasil. Ele nem poderia me processar, pois certamente sua idéia não estava registrada como "explorar a ignorância das pessoas fingindo ser uma empresa que compra almas humanas". Pouco depois minha admiração pela inteligência do criador do WWYS me proibiu de continuar com essa idéia. Ao invés disso, comecei a me imaginar mandando um e-mail para o gênio por trás do site oferecendo-me para abrir uma "filial" de sua empresa no Brasil. Além de traduzir a página, eu usaria os contatos que tenho para divulgar o site no estilo "nossa, olha que absurdo, o que acontece hoje no mundo!". Nesse caso "não existe má propaganda", ou seja, quanto mais difamado fosse "meu" site, melhor. E ainda teria a satisfação de sentir aquela sensação de superioridade... pobres mortais, nem entendem que é simplesmente um golpe de marketing, que não existe nenhuma motivação maior que dinheiro para o site. Então parei para refletir sobre os efeitos de minha ação sobre a sociedade: sim, eu ia ganhar uma PUTA grana. Mas, para isso, meu site representaria para os leitores desavisados, não "um absurdo demoníaco" (como eu gostaria que representasse), mas "uma prova irrefutável da existência de vida após a morte" - pois "ninguém colocaria tanto dinheiro em algo inexistente" (dois erros de quem pensa assim: 1 - eu não estaria colocando dinheiro algum, pois, obviamente, eu não tenho interesse nenhum em comprar almas. 2 - as pessoas colocam, sim, seu dinheiro em coisas inexistentes). O site WWYS usa termos científicos (genética, medicina, etc) para falar das almas. Assim, se eu fosse abrir uma flial, ajudaria a enfiar no inconsciente coletivo a idéia de que ciência e religião caminham de mãos dadas, idéia essa que causa muito mal à humanidade em geral (nem vou gastar minha... caneta (?) discutindo o porquê disso). Não vejo nenhum problema moral em lucrar com a ignorância das pessoas. Mas lucrar AUMENTANDO, DISSEMINANDO, APOIANDO a ignorância das pessoas é algo que eu não admito. Por isso abandonei sem nenhuma dor de consciência a idéia de abrir uma filial brasileira da WWYS. O dinheiro que eu ganharia é certamente muito tentador. Mas para isso teria de trair meus ideais. AGORA ENTENDI!!! Esse site me deu REALMENTE a oportunidade de vender minha alma, e tive de buscar fundo nela para chegar à conclusão de que é melhor mantê-la.

Não é um poema

Acalmem-se todos. Vou adiar provisoriamente as explicações prometidas (nome do blog). Fiquei com vontade de escrever um discurso, em versos. Hoje sabe-se que um poema não é mais caracterizado por suas estrofes e versos, uma vez que existem poemas concretistas que acabaram com essa noção. Assim, também tenho direito de escrever um discurso em versos sem que seja um poema. E foi o que eu fiz. Por que não é um poema? Porque não tem nenhuma intenção poética. Simples assim. Uma vez li uma definição de "conto" que era o seguinte: "Conto é o que o autor disser que é um conto". Pois bem, poema é o que o autor disser que é um poema, discurso é o que o autor disser que é um discurso (desafio-o a escrever um discurso concretista ahahahaha)

NÓS E ELES

Um homem entra em um cinema (oh yeah)
Depois vai ao banheiro (uh uh uh)
Dá um tiro no espelho (espelho!)
E volta metralhando (bang! bang!)
Várias pessoas vivas (ah ah ah)
Algumas pessoas mortas (mortas!)

Quem é esse indivíduo -
Todos se perguntam
Quem é esse indivíduo?
Então todos respondem:

Não há indivíduo culpado
Só há indivíduos mortos
E quem os matou foi:

Marylin Mason e seus rocks satânicos
Duke Nuken e sua violência interativa
Clube da Luta e sua violência animada
Cigarro, maconha e drogas pesadas
Ratinho, Leão, Cidade Alerta - televisão

Então quem sou eu? Quem é ele?
Ninguém. Não existe indivíduo.
O Indivíduo é uma ilusão coletiva
O indivíduo é uma ilusão coletiva.



Não, não aceito.



Nós sabemos hoje que a matéria sólida é feita de espaço vazio?
Nós sabemos hoje que a massa é uma das formas de armazenamento de energia?
Nós sabemos hoje que a estrela mais próxima fora o Sol fica a três anos-luz da Terra?
Nós sabemos hoje que a composição da atmosfera de Saturno é 88% Hidrogênio, 11% Hélio?

Nós levantamos cidades de pedra enormes?
Nós somos capazes de construir complexos aparelhos eletrônicos?
Nós dominamos o calor do deserto, a imensidão dos oceanos e o frio das calotas polares?
Nós construímos satélites de comunicação e os colocamos ao redor da Terra? Nós fomos à Lua?

Não, não, não, não, não, não, não, não.
Sabemos que existe um Deus preocupado apenas com nossos desejos?
Sabemos que todo mal é culpa de Satanás?
Sabemos que para falar com alguém temos que apertar uns botões.?
Sabemos repetir para sempre o que nos foi repetido sempre?
Talvez.

Então quem somos nós?
Nós não é ninguém.
O coletivo é uma ilusão individual
O Coletivo é uma ilusão individual.



Como estou com um bom humor dos infernos, vou me livrar de uma vez da obrigação de explicar para vocês jovens desatentos o sentido oculto subliminar por trás do inocente título "no tribunal do rei escarlate". No último "post" vocês devem ter percebido que meu "nick" no msn no momento daquela conversa era "In the court of the Crimson King (banho)". Ignorem o banho... é que eu tinha esquecido de tirar. O que importa é o nome em inglês. É o título de uma música do King Crimson. A título (da previdência? não...) de curiosidade, aqui está a letra da música:

In the court of the Crimson King

The rusted chains of prison moons
Are shattered by the sun.
I walk a road, horizons change
The tournament’s begun.
The purple piper plays his tune,
The choir softly sing;
Three lullabies in an ancient tongue,
For the court of the crimson king.

The keeper of the city keys
Put shutters on the dreams.
I wait outside the pilgrim’s door
With insufficient schemes.
The black queen chants
The funeral march,
The cracked brass bells will ring;
To summon back the fire witch
To the court of the crimson king.

The gardener plants an evergreen
Whilst trampling on a flower.
I chase the wind of a prism ship
To taste the sweet and sour.
The pattern juggler lifts his hand;
The orchestra begin.
As slowly turns the grinding wheel
In the court of the crimson king.

On soft gray mornings widows cry
The wise men share a joke;
I run to grasp divining signs
To satisfy the hoax.
The yellow jester does not play
But gentle pulls the strings
And smiles as the puppets dance
In the court of the crimson king.

Essa música está presente no álbum "In the court of the Crimson King", o primeiro álbum do King Crimson, de 1969, álbum esse que revolucionou o conceito de rock progressivo (alguns afirmam que é o primeiro álbum verdadeiramente progressivo). "no tribunal do rei escarlate" é uma tradução livre do título da música, visivelmente errada, pois a tradução mais adequada seria "na CORTE do rei escarlate", pois, apesar de "Court" poder ser traduzido como tribunal ou corte, a figura do "yellow jester" não deixa dúvidas de que não se trata de um tribunal. Entretanto, a idéia de tribunal dá um sentido totalmente diferente à música. E é muito adequada ao blog, pois, andei percebendo, o principal tema do blog é justamente a culpa. Existe um estudo bastante extenso da letra dessa música, dentro do contexto do álbum da banda, que relaciona o "rei escarlate" a Frederick II. Entretanto, para nós que não temos saco de estudar tão profundamente esse assunto especificamente, ou para nós que, como Alberto Caeiro, não nos vemos desejosos de encontrar significados ocultos no que se nos mostra simples, Rei Escarlate é simplesmente "Beelzebub", que por sua vez não é ninguém menos que Baal (embora na demoniologia cristã tudo não passa de uma só entidade, que é Satanás). E a idéia de um tribunal no qual o diabo é o juiz já fez parte de meu imaginário em uma redação para a escola que fiz na sexta série, e que me marcou até hoje. Essa é a explicação para o nome do blog. Apenas para saciar e atiçar a curiosidade dos leitores, este é o símbolo de Baal: (obs: a imagem foi "roubada" desse site. Se sair do ar mande-me um e-mail)

Despeço-me com um caloroso abraço digital artificial.

21/02/2005

Meu insuperável egocentrismo

Esse post já estava pronto desde 15/02/2005, mas eu não podia colocar no ar, porque eu menciono uma festa surpresa que só iria ocorrer hoje (dia 21/02/2005) (e que acabou não acontecendo). É algo muito mais introspectivo do que qualquer outro "post" (talvez até mais do que a mensagem de introdução), e se trata de parte de um diálogo por MSN que tive com um amigo, conservado intacto (até mantive os erros de português). A idéia inicial era nem colocar no blog, mas acabei mudando.


15/02/2005



In the court of the Crimson King (banho) diz:
João
In the court of the Crimson King (banho) diz:
eu tenho uma confissão a fazer (que nao tem absolutamente nada a ver com vc, mas eu preciso falar isso e acho melhor q nao seja no blog)
In the court of the Crimson King (banho) diz:
blz vamos começar:
In the court of the Crimson King (banho) diz:
desde pequeno eu sempre fui muuuito egocêntrico
In the court of the Crimson King (banho) diz:
eu gosto de ser sempre o centro das atenções
In the court of the Crimson King (banho) diz:
e desde pequeno eu sempre consigo
In the court of the Crimson King (banho) diz:
o que costuma fazer mal para todas as pessoas ao redor
In the court of the Crimson King (banho) diz:
por exemplo
In the court of the Crimson King (banho) diz:
meu pai semanalmente leva eu, minha irmã e meu irmão para jantar
In the court of the Crimson King (banho) diz:
e eu sempre falo alguma coisa que deixa ele muito bravo
In the court of the Crimson King (banho) diz:
que ele n]ão consegue se controlar
In the court of the Crimson King (banho) diz:
e tem que discutir na hora
In the court of the Crimson King (banho) diz:
muitas vezes ignorando meus irmãos
In the court of the Crimson King (banho) diz:
eu não faço isso conscientemente
In the court of the Crimson King (banho) diz:
é algo inconsciente
In the court of the Crimson King (banho) diz:
(mas talvez tenha mais a ver com meu pai do que meus irmãos, pois mesmo quando estamos só eu e ele a gente dá um jeito de discutir)
In the court of the Crimson King (banho) diz:
talvez eu só me sinta seguro se eu souber que as pessoas estão falando de mim
In the court of the Crimson King (banho) diz:
meu irmão fica com ciúmes (ele so tem 8 anos)
In the court of the Crimson King (banho) diz:
a gente nunca briga
In the court of the Crimson King (banho) diz:
mas eu percebo que ele não gosta
In the court of the Crimson King (banho) diz:
mas é incontrolável
In the court of the Crimson King (banho) diz:
minha irmã nunca foi tanto o centro das atenções
In the court of the Crimson King (banho) diz:
desde que eu nasci ela tem se acostumado
In the court of the Crimson King (banho) diz:
eu tenho esse ímpeto de falar o que não deve ser falado
In the court of the Crimson King (banho) diz:
o que me mantém sempre no centro
In the court of the Crimson King (banho) diz:
e agora indo para São Carlos
In the court of the Crimson King (banho) diz:
me dá uma espécie de satisfação melancólica
In the court of the Crimson King (banho) diz:
ver minha mãe tendo problemas, minha irmã chorando
In the court of the Crimson King (banho) diz:
porque eu estou indo embora
In the court of the Crimson King (banho) diz:
eu fico triste ao mesmo tempo
In the court of the Crimson King (banho) diz:
de me perceber tão egocêntrico assim
In the court of the Crimson King (banho) diz:
outro
In the court of the Crimson King (banho) diz:
dia
In the court of the Crimson King (banho) diz:
(agora eh o que mais me deixa culpado)
In the court of the Crimson King (banho) diz:
esse outro dia foi hoje mesmop
In the court of the Crimson King (banho) diz:
minha irmã falou
In the court of the Crimson King (banho) diz:
que a gente devia dar uma festa surpresa pra minha mae
In the court of the Crimson King (banho) diz:
td bem que eu tinha acabado de acordar e ainda estava confuso
In the court of the Crimson King (banho) diz:
mas na minha mente a idéia de alegrar minha mãe
In the court of the Crimson King (banho) diz:
se relacionou ao fato dela estar chateada
In the court of the Crimson King (banho) diz:
por eu estar indo embora
In the court of the Crimson King (banho) diz:
e quando eu perguntei se era por isso
In the court of the Crimson King (banho) diz:
minha irmã disse brava
In the court of the Crimson King (banho) diz:
"não, é pro aniversário dela"
In the court of the Crimson King (banho) diz:
pois é
In the court of the Crimson King (banho) diz:
avassalador
In the court of the Crimson King (banho) diz:
bom, eu precisava confessar isso tudo
In the court of the Crimson King (banho) diz:
talvez vc nem leia tudo isso
In the court of the Crimson King (banho) diz:
eu queria não ser tão egocêntrico
In the court of the Crimson King (banho) diz:
na escola eu tava sempre nas fotos nos corredores
In the court of the Crimson King (banho) diz:
(olimpiada de fisica etc)
In the court of the Crimson King (banho) diz:
e eu sempre falava nas aulas
In the court of the Crimson King (banho) diz:
(tipo responder o professor)
In the court of the Crimson King (banho) diz:
em alguns momentos eu falava só por puro tédio, pra aula ir mais rápido (ficar esperando resposta eh foda)
In the court of the Crimson King (banho) diz:
mas talvez em outros momentos fosse só pra aparecer
In the court of the Crimson King (banho) diz:
não tenho certeza
In the court of the Crimson King (banho) diz:
de qualquer maneira, em outro momento a gente se fala
In the court of the Crimson King (banho) diz:
ainda vou pensar mais se é melhor colocar ou não essa auto-crítica no blog
In the court of the Crimson King (banho) diz:
até mais
João diz:
bom.....
João diz:
vc é um caso perdido
João diz:
hahahahahahahahaah
In the court of the Crimson King (banho) diz:
opa vc ta ai
João diz:
to tentando ler faz tempo
João diz:
agora q vc parou de screver
João diz:
se acostume
João diz:
faz parte de vc
João diz:
ñ há oq mdar
João diz:
hahahahah

Pronto. Foi.

16/02/2005

O Cumpridor de Promessas

Depois daquele ultimo post meio sem-vida resolvi voltar ao normal...
Sabe que uma vez me disseram que, quando, em publicidade, não se consegue ter uma boa idéia, põe-se logo um cãozinho na propaganda. Por isso é tão comum de se ver cachorros em propagandas. Como bom publicitário que eu sou, resolvi ir logo apelando pra figura canina. Tem até aquela frase (embora eu ache que é sobre o Diabo) - o Cão é o melhor amigo do homem.
Ontem fui a pé de minha casa até o "Promocenter" (no cruzamento da Augusta com a Paulista). No começo do caminho, eu tava andando pela calçada perto de uma área de entrada de algum prédio (mais elevada, e entre mim e o "degrau" tinha aquelas plantas cheias de espinho que não sei quem acha bonitas), quando um vira-latas enorme apareceu. (em cima do degrau tinha a mesma altura que eu). Como fui pego de surpresa, levei um susto e parei. Ele pulou do degrau bem na minha frente (quase no meu pé). Depois foi me acompanhando pelo caminho, às vezes por trás, às vezes pela frente (ele passava à minha frente, ganhava distância, ficava coçando suas pulgas enquanto eu passava por ele, depois continuava me seguindo). Quando fui acariciá-lo, percebi que seu corpo estava cheio de chagas. Uma ferida no pescoço chegou a me dar tontura. Mas me identifiquei com ele. Dois companheiros, andando naquele sol... os dois de preto. Cada pedestre que passava o cachorro olhava, depois olhava para mim (decidindo quem acompanhar). Em determinado momento pensei em seguir o cachorro e ver para onde ele me levaria. Mas era ele quem me seguia. Quando errei o caminho e voltei, ele voltou atrás de mim. Um pouco antes de começar a subida da Augusta ele finalmente me abandonou. Enquanto subia ele ficou a esperar um ônibus no ponto. Por que me identifico mais com os cachorros do que com os outros seres humanos? Talvez porque me sinta, assim como eles, livre das amarras morais, livre das tradições, sincero comigo mesmo, fiel a meus sentimentos. E ver a triste vida das almas livres é algo que me toca como uma mão etérea, ou como uma mão rígida para meu corpo etéreo (como numa das primeiras cenas do anime "The End of Evangelion"). De qualquer maneira, hiperbolizei um pouco meus sentimentos nesse parágrafo. Não fui tão afetado assim pela experiência. Só coloquei esse fato aqui para estabelecer uma ligação com o que eu havia prometido falar tanto tempo atrás... algumas pessoas deviam estar pensando que eu esqueci, outras que era uma mentira, mas não. Eu sempre cumpro minhas promessas (ou melhor, meu "eu blog" sempre cumpre suas promessas). Eu havia prometido falar uma coisa ou outra sobre os dois cachorros que moram comigo (o Neo (Matrix) e o Ziggy (David Bowie)).
Apenas uma introdução aos personagens: Neo é o pai, já velho em espírito (embora corporalmente jovem). Um ano e meio depois veio Ziggy, o filho, mais viril, o "macho alfa".
Desde pequeno o Neo gosta de ficar esparramado pelo chão, mas como prefere não ficar sozinho, acaba escolhendo os piores lugares para fazê-lo (sempre em nosso caminho). Assim sendo, é muito comum que tropecemos nele ao andar pela casa. Como ficamos com dó do cachorro, imaginando que possivelmente na cabeça dele a dor seria interpretada como um castigo por algo que ele fez, temendo que dessa maneira ele tirasse alguma conclusão errada do acidente, sempre nos desculpamos com muita ênfase nesses casos, alegrando-o, acariciando-o, enfim, dando atenção a ele. O efeito acabou sendo muito contrário ao que gostaríamos em sua educação, pois em sua mente, o Neo associou a dor à atenção e ao amor. Sendo assim, agora quando tropeçamos nele, ao invés de chorar (como fazia quando criança), o Neo abana o rabo e fica todo alegre, esperando o carinho. Sim, transformamos o Neo em um masoquista (ao menos é um masoquista no melhor sentido da palavra, pois ao meu ver, existem dois tipos de masoquismo: o masoquismo auto-destrutivo, que provém de um ódio a si mesmo, e o masoquismo sexo-fetichista, que é a associação de prazer à dor, sendo esse o caso do Neo). Neo também muitas vezes apresenta comportamento sádico, pois se alegra ao ver qualquer pessoa (ou o Ziggy) levando bronca ou brigando. Nunca consegui identificar as origens desse comportamento. Talvez seja por transposição (imaginar-se na situação do outro), mas não sei se não seria complexo demais para a mente canina...
O Ziggy já é muito diferente do Neo. Sendo um anti-herói picaresco desde o nascimento (estilo o Leonardinho do livro Memórias de um Sargento de Milícias, de Manuel Antônio de Almeida), nossa forma de educá-lo sempre foi diferente. Ele sempre levava bronca ao fazer coisas erradas (pra alegria do Neo). Assim conseguimos embutir um sentido de culpa na mente do pobre cãozinho. Outro dia ele estava lá tentando alcançar a comida na mesa, sorrateiramente, quando chamei seu nome. Ele imediatamente parou o que estava fazendo e se fez de inocente. Ele nunca gosta de ser incomodado, especialmente quando está com sono. Outro dia minha irmã foi fazer um carinho nele e ele rosnou para ela. Ela se afastou, foi fazer outra coisa. Pouco depois ele chegou nela todo se desculpando por ter sido grosso. É um cachorro que fica com a consciência pesada...
Toda vez ao voltar do passeio e em outras ocasiões, os dois cachorros mantém uma relação homossexual incestuosa, sendo Ziggy o ativo e Neo o passivo. Minha mãe sempre fica brava e briga com o Ziggy (que, católico do jeito que é, sempre interrompe suas atividades eróticas). O veterinário disse que o Ziggy faz isso para mostrar-se dominador, estabelecendo a hierarquia. Inicialmente eu não me incomodava com a relação dos dois, mas depois de um tempo percebi que o Neo não gostava de ser enrabado (ele ficava rosnando mais ou menos baixinho durante o ato), por isso hoje vejo tal ato mais como um estupro do que como uma relação sexual consentida.
A observação do comportamento dos meus cachorros serve para calar a boca de todos os homofóbicos que consideram o homossexualismo como anti-natural. Mas também serviu para calar minha boca, que considerava os valores católicos como anti-naturais. Diferente dos humanos, os cachorros não sentem vergonha, não querem privacidade, não são hipócritas. Observá-los para tirar conclusões acerca da humanidade é, por esse motivo, mais fácil do que observar os próprios seres humanos.

Pronto, promessa cumprida. Eu tinha outro "post" pra colocar, muito mais pessoal, adequado ao clima de "tribunal", já que é uma confissão. Além disso, nesse "post", que fica prometido lá pro dia 23 ou algo assim, acaba transparecendo uma grande dica sobre a origem do nome do Blog (sobrando de mistério só a origem do endereço do blog). No post seguinte a esse que tem a dica prometo explicar em detalhes tudo que você sempre quis saber mas tinha medo de perguntar sobre o nome "no tribunal do rei escarlate".

Estou achando esse post muito pequeno (mentira, é só uma desculpa pra falar MAIS uma coisa). Eu comecei a escrever essa mensagem de manhã, e agora estou retomando. Hoje eu tive que voltar (a pé também) ao Promocenter para trocar o que havia comprado errado. No começo do caminho (antes mesmo do local onde ontem encontrei o cachorro), um homem que também estava caminhando iniciou o diálogo, de maneira bem estranha: "É, a rapadura é doce mas não é mole!". Estávamos caminhando lado a lado, e acabamos conversando sobre muitas coisas da vida. Ele me perguntou se eu estava indo para a escola, então eu lhe disse que ia para a faculdade. Ele disse que tinha 37 anos, que por problema com mulheres teve que dormir esses dias na sarjeta. Como ele estava indo para o centro e o Promocenter fica no caminho pro centro, fomos seguindo conversando, e eu sempre conhecendo mais sobre esse homem chamado ######## que tem um sobrinho chamado Daniel (e eu me chamo Daniel e tenho um tio chamado ####### (duas letras de diferença)). Conversamos sobre o estudo (em um momento ele me fez um "pergunta de vestibular": Quem é o pai da relatividade?). Ele me disse que era muito difícil, eu lhe respondi que é muito diferente pra quem estuda em escola pública e pra quem estuda em escola privada, com refeição garantida e moradia, sem ter que se preocupar com nada a não ser estudar, e tendo professores bons. Conversamos sobre a situação do país, e se ele tinha alguma idéia de como mudar as coisas. Não, não tem como mudar. Ainda assim, ######## é um homem muito positivo, não guarda rancores dessa vida, não tem ódio nem inveja da burguesia. Contou-me sobre seus dias, acidentes, de como anda por São Paulo (adora essa cidade), de que tipo de pessoa encontra nas ruas ("Das coisas que você vê acontecerem na rua, acontecem mais coisas boas ou coisas ruins?" - "Está zero a zero"). Conhece oito estados do Brasil, tem um irmão que mora nos EUA (entrou pelo México, correndo risco de ser assassinado pela polícia da fronteira, violentíssima. Hoje é um vencedor, tem carro, casa e até computador) e um outro irmão que mora em uma outra cidade que eu não lembro o nome, sobrando apenas ele com a mãe. Tem 3 filhas e 1 filho, em duas cidades diferentes, que visita e manda dinheiro quando pode. Foi muito ferido pelas mulheres, que "só nos amam enquanto nós temos dinheiro". Acabei convidando-o para tomar uma cerveja numa padaria ao lado do Promocenter. Lá me disse que seu hobby é a "ufologia", que seu sonho é apenas recuperar o que um dia já teve - um carro, uma conta no banco... (A propósito, ######## é cabeleireiro, trabalhava no New Look, 50% de mais valia pro dono, e sem direito a condução, alimentação, etc). Perguntei como havia se tornado cabeleireiro. "É uma história engraçada": tinha 14 anos e, passando na rua viu o anúncio "Precisa-se de engraxate". Começou a trabalhar como engraxate em um salão e ficava assistindo os cabeleireiros, admirando a profissão, e treinando em casa no próprio cabelo. Conversou com o patrão e começou a cortar. "Estragou" muitos cabelos até conseguir, mas em um ano já sabia fazer de tudo. Quando o assunto era a violência das ruas, perguntei-lhe se já foi assaltado. "Acredita que não?" Apenas o haviam roubado, umas três ou quatro vezes, enquanto dormia, a mochila, os sapatos. Por fim, depois de pedir a conta, quando me pediu (encabuladamente) uma ajuda, dei-lhe tudo que podia oferecer no momento (quase 30 reais), nos despedimos ("é o ar que você respira" - uma discussão religiosa foi inevitável), (ele pediu meu telefone "pra não me perder de vista") e eu tenho certeza de que essa experiência foi inesquecível para ambos. Quem sabe nos encontremos mais uma vez para tomar uma cerveja e conversar da vida? Então pedirei autorização para colocar seu nome no blog.
Será que é possível uma amizade sem o sentimento de hierarquia que a sociedade nos impõe? Qual de nós estaria sendo mais egoísta na relação? Ou nenhum?
Espero que esse relato tenha inspirado algum dos (eram 4? Xiii, acho que voltou a ser só três...) leitores a fazer algo semelhante, isto é, conversar seriamente com alguém que anda pelas ruas, pois o pior nas ruas é a solidão (isso não foi ######## quem me disse). É uma experiência muito construtiva - conhecer as pessoas (amigáveis) que habitam esse mundinho. A propósito, congratulo-me pelas 50 visitas! EEEEEE parabéns é um número enorme de visitantes, não? Pena que dessas 50 visitas, umas 25 foram minhas.

Só mais uma coisa (enrolar mais um pouco já que tudo que é bom dura pra sempre) - coloquei na barra da direita links para blogs de pessoas que admiro. Tony Babalú é um guitarrista brasileiro, tendo participado da banda "Made In Brazil", sendo hoje guitarrista independente e diretor de uma peça infantil há 10 anos. Tive o prazer de conhecê-lo pessoalmente. Paula Corrêa é uma poetisa de talento, por enquanto com apenas um livro publicado, sendo seu blog o único que acompanho a fundo, pois suas mensagens trazem sempre muitas mensagens, e seus poemas são fascinantes. Também tive o prazer de conhecer pessoalmente. Por fim um blog que leio de vez em quando, o "Blog do Tas" - Marcelo Tas é jornalista bem humorado (era o "Professor Tibúrcio" do Ra-tim-bum, e o Repórter "Ernesto Varela", famoso por ter perguntado em entrevista ao Maluf se ele é ladrão), e escreve semanalmente no famoso caderno LINK do Estadão. O único dos três que não tive o prazer de conhecer pessoalmente :( Quem sabe um dia?? E Sim, eu espero que as três pessoas que lêem meu blog visitem em algum momento de suas vidas esses blogs.

14/02/2005

Tecnofobia e didatismo

Hoje de manhã eu estava em outra cidade (São Carlos). Dormi na casa de uma tia que mora lá pois hoje cedinho precisava fazer a inscrição na USP de lá (onde estudarei pelos próximos 5 anos...). Temendo que fosse muito difícil levantar cedo hoje (fiquei acordado até tarde ouvindo uma banda chamada ProjeKct One), resolvi fazer uma experiência: dormi no chão. Imaginei que seria desconfortável, portanto de manhã estaria ansioso para levantar. O que ocorreu foi muito diferente: acordei várias vezes durante a noite (porra, todo mundo ficou pisando na minha "cama" aí eu acordava). O desconforto perdurou a noite inteira, porém, exatamente na hora de acordar o chão ficou extremamente confortável. Estava até macio (!!). Passei o dia com sono.
Chegando em casa, alimentei minha tecnofobia lendo o caderno semanal de tecnologia do Estadão (o LINK). Deixe-me dar uma explicada em umas notícias
1 - Software ajuda gravadora a prever sucessos (24/01/2005) - De acordo com a matéria, foi desenvolvido um software que, através de análise estatística, prevê com 95% de precisão se uma determinada música vai "estourar" nas rádios. Sim, eu também acho que é história pra boi dormir, mas pelo jeito as gravadoras não acham. E a tendência é usar o software antes de gravar álbuns de novos artistas. Leiam a matéria inteira. Logo depois da matéria está um comentário que eu fiz sobre ela (ignorem o erro ortográfico no acento em "porquê" - não dá pra editar o comentário...). Mas minha tecnofobia não tem nada a ver com esse tipo de avanço científico.
2 - Computadores a um passo da ficção (14/02/2005) - Muito semelhante à matéria mencionada acima, essa afirma que as máquinas atingiram um grau de inteligência artificial suficiente para escrever melhor que a maior parte dos seres humanos. E dá um exemplo de texto produzido por computador. Acho que o comentário que eu fiz no site para a matéria "1" serve também para essa matéria (pra quem teve preguiça de ler, eu basicamente (odeio essa palavra, "basicamente") expliquei que não há motivo a temer, pois a arte continuará sendo arte e o mercado continuará a ser mercado). Portanto, mais uma vez minha tecnofobia não se justifica com esse tipo de avanço científico. Até agora eu estava só enchendo lingüiça, mas a partir do próximo é pra valer!
3 - Foram uma, duas, três matérias sobre "BIOMETRIA" no mesmo dia no LINK (faz tempo: 07/12/2004) que começaram minha paranóia. Você sabe, aquele esquema de identificação de pessoas pelas medidas corporais (bio = vida, metria = medida) - impressão digital, íris ocular, retina, rosto. Hoje já existem até mesmo escolas com leitora de digital para CONTROLE (palavra do dia). E a tendência é de crescimento do mercado.
4 - No dia 31/01/2005 apareceu uma ou outra matéria sobre a mais nova aquisição americana em robótica: um robô soldado para matar pessoas no Iraque - mais preciso que um atirador humano e mais "descartável" também. Não, não é ficção científica. É hoje e agora (na verdade já faz umas semanas...). Mas Ricardo Kobashi já fez o trabalho de comentar a matéria muito melhor do que eu (é claro, ele é jornalista...).
5 - Finalmente o que eu considerei a gota d'água ao ler hoje no jornal: Big Brother desde o berço - Reporta a existência hoje de uma série de escolas maternais que dispõe de serviço de vigilância 24 horas por dia para os pais poderem ver seu filhinho no maternal pela internet. Uma breve explicação sobre esse tipo de pai:

Os Novos Deuses
Tendo sido abençoado com privacidade durante a infância, nunca soube o mal que é viver sob sua ausência. Aproveitou-se (durante a juventude) dos avanços tecnológicos, talvez até tenha contribuído para esses avanços. Mas agora já está mais velho, substituiu sua vivacidade por um sedentarismo que só pode ser proporcionado com os atuais avanços científicos. O corpo físico de uns tempos para cá começou a ficar cada vez mais obsoleto, uma vez que pode receber estímulos sensoriais de qualquer lugar do mundo sem sair de sua casa. E receber tudo que precisa para manter o corpo vivo sem sair de casa. E trabalhar para comprar os mantimentos sem sair de casa. Tendo perdido seu caráter físico, o homem tornou-se uma espécie de espírito, tendo como principal fonte de prazer apenas dois atos: mandar e observar. Tornou-se um novo Deus. Onipotente em seu território, sua casa. E (aquilo que o caracteriza como Deus) onipresente graças à internet. Todos vivem sob seus olhos julgadores, sua vigilância. E como futuro, seu filhinho que hoje está no maternal pode apenas se inspirar e entrar pra mais um desses programas Big Brother. Mas não, quando ele tiver idade suficiente, não existirá mais Big Brother como vocês conhecem pela globo, pois 1984 já terá deixado de ser ficção.

Prometi então a mim mesmo, já que trabalharei na área de engenharia mecatrônica, nunca trair meus ideais, o que no caso se traduz em nunca fazer nenhuma oferenda aos Novos Deuses (foda-se o mercado). É como diz a música: "Um Deus incomoda muita gen-te... Dois Deuses incomodam, incomodam muito má-ais. Dois Deuses incomodam...". No fundo eu tenho a impressão de que Prometeus (clique para ler o melhor texto que eu vi sobre essa importante figura que deu origem ao mito de Lúcifer - infelizmente (para alguns) o texto está em inglês) é mais feliz do que eu jamais poderia ser: tem a eternidade para poder se orgulhar de ter contribuído de maneira significativa em favor da humanidade. Quanto ao castigo divino, bom, até a dor pode ser burlada (e não, eu não espero que você leia TODOS os links que eu deixei aqui).

Hoje aproveitei o dia para ler um livro comprado de um cara na rua (provavelmente o próprio escritor) - é uma literatura "underground". Resolvi conhecê-la. O livrinho (menor que o artigo do último link) chama-se Balada Perdida, de Ricardo Carlaccio. O que mais me interessou foi o final da apresentação do livro ("Ler esta história é (...) aceitar enfim a alegria livre dos que percorrem as ruas orgulhosos de seu despojamento, mestres estes da não vida, os que aceitam suas moedas, caro leitor, mas riem da sua hipocrisia. O riso vence a morte"). Essa técnica (ofender o leitor) foi inaugurada por Machado de Assis (não me lembro em qual livro). É uma história sobre um homem do submundo urbano, que acaba morrendo e descreve-nos sua experiência no "pós-vida" de maneira bem humorada e cética (como já havia feito Machado em Memórias Póstumas de Brás Cubas). O livro faz referência a músicas de bandas como "Grand Funk", "The Doors" (fora a Janis Joplin), além de usar termos (horrorshow, drugue) tirados da história símbolo da minha geração e da anterior ("Laranja Mecânica", de Anthony Burgess - que depois virou filme com Stanley Kubrick). Por mais que eu não tenha achado o livro "nada de mais", gostei da experiência de comprá-lo, pois um dos futuros imaginados para (por) mim é sair por aí tentando vender meu livro pelas ruas. E esse livro parece ter sido impresso em papel sulfite e em uma impressora doméstica. Quem sabe não seja uma boa saída?

Pois bem, espero que vocês tenham gostado desse post. Mas lá vai uma inversão intenção/conseqüência: Se você gostou desse post pode já começar a se decepcionar, pois não pretendo ser tão didático para sempre (eufemismo para "NUNCA MAIS"). Eu estava bonzinho hoje... Se vocês não gostaram do estilo, alegrem-se: não se repetirá. Nunca mais haverá tantos "hiperlinks" em um post meu. Mas pretendo usá-los mais, pois, como já diria Michel Melamed, "Tudo é metáfora. Mas só Deus é hipertexto". Um abração pra vocês (acho que já devem ser uns 4...) leitores de "no tribunal do rei escarlate".

11/02/2005

Promessas de um Novo Post

Sim estou sendo pressionado - e não é só por mim mesmo: uma semana de distância (tempo=espaço) entre um "post" e outro, imagina-se que eu teria um monte a dizer. Ao invés de me lançar na escalada desse monte, digo um ou dois parágrafos e interrompo. Sim, foi uma puta sacanagem. Mas meus demônios me atormentaram o suficiente por causa disso (alguns dos meus demônios são pessoas de carne e osso) e é por causa disso que estou escrevendo agora. As respostas às perguntas que não querem calar (a boca - porra deixa eu dormir em paz): Sim, ainda estou seguindo ordens. Sim, a explicação prometida no post anterior ao anterior será adiada (uma vez me disseram que não tenho muitos mistérios e agora me vingo). Sim, eu tenho algo a dizer e sim, eu estou enrolando como sempre.
Mas uma nova evidência chegou "no tribunal do rei escarlate" - é mais um poema (porra, aquele último passou despercebido ninguém falou nada (mentira, mas foi só porque eu OBRIGUEI um amigo a ler e me contar)). Esse poema é de minha autoria, e eu o terminei agora nesse instante momentâneo, ou seja, ainda existe a possibilidade de dentro de alguns dias achar que ficou uma merda, pois não tive distanciamento (espaço=tempo) suficiente para avaliá-lo. Portanto é um "furo de reportagem" em primeira mão para os (2 ou 3) privilegiados que lêem esse blog escondido (não é uma ambigüidade pois escondido está no singular)


Tá aí escondido

Tudo isso que está aí
Todos os problemas sociais
Todas as desgraças humanas
Toda a infelicidade
É totalmente

Minha culpa
Sua culpa
e culpa dele.

Somos unicamente culpados
Exclusivamente responsáveis
Singularmente caos à dores

Dos males dos quais sofrem
Aqueles quais não nos conhecem.

Mas de todas as justas culpas de todos
Por todas as injustiças a todos
Sou justamente o menos culpado que todos
Pois eu não sei disso.

Minha mente é como uma música
Meu corpo é como o ar e a água
Meus sentimentos são como as árvores
Minhas possessões são como um tempo

Preenchi meu poema com palavras vazias
Pra não precisar perceber...
Pra não perceber precisar...
pra não parecer precisar!
Pra me enganar para todo o semprecisar
Pra nunca não saber que sempre nunca fui o que fui feito pra Ser Humano.




A propósito, só por força de hábito: Comentem, mandem-me um e-mail (abramo6@estadao.com.br), julguem-me condenem-me é para isso que serve o tribunal do rei escarlate (pra ser sincero não tem nada a ver com isso - o porquê do título do blog fica prometido para um "post" futuro... Ah, promessas, promessas... cumprir uma promessa é destruí-la. A propósito, o título desse "post" é uma brincadeira com o nome de um documentário chamado Promessas de um Novo Mundo, no qual o problema da palestina é discutido com uma perspectiva diferente: a de crianças judias e muçulmanas que habitam o mesmo espaço em mundos diferentes)

09/02/2005

Revisitando...

Revisitando o blog: Depois de algum tempo abandonado, como havia prometido atualizar o blog no mínimo semanalmente, resolvi aparecer por aqui. Portanto, não pense que eu tenho algo a dizer. Como diriam todos os filhos da puta do mundo, "eu só estou seguindo ordens".

Como o tempo passa... passa e fica todo enrugado, em conserva. Nesse "tempo passa" que passou, revisitei minha auto-escola para pegar o diploma de "30 horas-aula" (que na verdade foram 24, mas eu não ligo e certamente os donos do curso não ligam. Eu me engano daqui, eles se enganam dali. Como diria meu professor de Química, é uma reação de dupla-troca). Quando estava saindo com o diploma em mãos, ouvi algo que minha professora estava falando pros alunos (uma aula que eu ja tinha tido). Lembra aquela menção a "fluvial/pluvial" que eu fiz no outro post (República da Hipocrisia)? Pois era exatamente isso que ela falava. Mas dessa vez eu prestei atenção (é muito mais fácil prestar atenção quando não é obrigatório). E o que ouvi: (sobre transporte fluvial) "Vocês sabem o que é fluvial e pluvial? Não sabem o que é o transporte fluvial e pluvial? É o transporte sobre RIOS e MARES". Aquilo me entristeceu, e me forçou a reavaliar todas as críticas que a professora fez acerca da educação no Brasil.................... tenho que interromper a reflexão por aqui: enquanto eu estava escrevendo esse post nesse exato instante (que eu estou escrevendo, não que você está lendo), escutava feliz da vida meu CD duplo "Absent Lovers", do King Crimson, quando minha irmã invadiu meu quarto com o telefone. Era meu pai, que tinha acabado de ler na Internet que eu tinha sido aprovado na Fuvest! Então enquanto eu recebia telefonemas de toda minha família me congratulando, abri uma correspondência e era meu CPF que finalmente tinha chegado. Agora vou morar em São Carlos, onde estudarei engenharia mecatrônica (?!). Colocarei outro post depois, agora meu dia ficou ocupado... Até mais!

02/02/2005

A Clockwork Orange????

Antes que eu começasse as tão famosas (no meu Blog) aulas teóricas de condução de veículos, minha tão admirada irmã me disse que fizeram ela assistir um vídeo horrível, com cenas de acidentes violentíssimas, que ela saiu de lá prometendo a si mesma dirigir a 20 Km/h. Então, ontem, quando estava pensando no meu Blog, já tinha formulado toda uma comparação dessa experiência com o filme “Laranja Mecânica”, de Stanley Kubrick: No filme, por ter cometido diversos crimes, Alex é submetido a um tratamento que, através de remédios e imagens de ultraviolência, acabam associando na mente de Alex a dor alheia com sua dor. Porém, como as imagens eram acompanhadas das músicas de Ludwig Van Beethoven, o pobre criminoso acabou associando suas músicas tão amadas à dor também. Na vida real, antes mesmo que eu pudesse pegar um veículo, seriam exibidas a mim tais imagens ultraviolentas que associariam infrações à dor. Essa era a comparação que eu pretendia fazer. Mas era apenas uma suposição. O que aconteceu de verdade foi o seguinte: iniciada a aula, a professora advertiu-nos das cenas que veríamos. Então ligou o vídeo. Antes que eu pudesse falar “a”, o televisor começou a tocar uma música de Philip Glass. Lembrei-me de A Laranja Mecânica e senti um pavor profundo. Olhei para a porta, pensei em sair. Mas, por sorte, era o filme errado. Ufa! Depois de colocado o filme certo (e devidamente explicado o motivo de exibição das imagens que se seguiriam – “conscientização”), realmente devo admitir que as imagens eram chocantes. Apesar da má qualidade da fita cassete, o meu tão gostoso almoço ameaçou fugir de seu triste destino corrosivo. Entretanto, os produtores da fita tiveram a consciência de não colocar nenhuma trilha sonora ao fundo. Então foi colocado outro vídeo no aparelho. Uma gravação de Globo Repórter. Pois é, a Globo virou obrigatória aos motoristas. No vídeo, como dita o padrão Globo, entrevistadores faziam perguntas induzindo respostas aos entrevistados. As cenas não eram mais tão chocantes e a trilha sonora ao fundo criava um melodrama que só posso categorizar como ridículo. E ainda dizem que é o Michael Moore que é tendencioso em seus documentários... Como tudo que a Rede Globo faz, o vídeo começou a me entediar (se não fosse tão “Globo” eu até ficaria comovido com as histórias). Me distraí tentando identificar as músicas que os editores colocavam ao fundo. Foi uma tarefa difícil, pois a qualidade do som era ruim e só eram tocados pequenos trechos das músicas. Mas consegui identificar alguns artistas: Queen, Elvis Presley, U2, Michael Jackson e até mesmo (pasmem!) Angelo Badalamenti (com a música tema de Twin Peaks). Depois desse vídeo, nos foi exibido ainda outro, também da Globo. Esse que começava com uma música do Philip Glass. Menos comovente ainda. E depois de uma pequena prova, estava livre para sempre (espero) das aulas teóricas do “CFC”. Resumindo: em pouco tempo passei de “I know the law, you bastards!” para “I was cured allright”. Só uma curiosidade acerca do filme, “Orange”, no título original, provavelmente não se refere a uma “laranja”, mas sim a um orangotango (um primata). Assim percebe-se que o título foi provavelmente mal traduzido. Mas prefiro-o assim. Dá um ar maior de mistério. E pelo menos não tem um subtítulo irritante (Exemplo: “Laranja Mecânica - um criminoso muito louco!”)

Como não fui tão afetado pela aula como havia sido no “post” anterior, resolvi parar de adiar a tão esperada (por quem? Por mim!) explicação sobre a inversão intenção/conseqüência. Entretanto, antes descreverei mais uma cena cotidiana de adesivo em ônibus. Havia um adesivo escrito “Passageiro: sua opinião faz a diferença”. Mas em cima dele havia sido colado com fita adesiva um papel com os dizeres:
“PROCURO UM AMOR
MOÇAS ME LIGUE
82851***
SOU MORENO CLARO
175 Mts 36 ANOS
AS DANIEL”
Achei interessante o suficiente para citar aqui. Me lembrou um cartaz que vi um rapaz segurando em um evento chamado “Anime Dreams” (um espécie de “carnaval de nerds” cheio de gente fantasiada de personagens de desenhos animados japoneses e personagens de jogos eletrônicos. Recomendo esse tipo de evento para todos os amantes da arte da animação (como eu) assim como pessoas que adoram ver gente diferente (como eu (duplo sentido)) ou até mesmo quem tem um senso de humor apurado (...).). Neste evento havia um rapaz com a placa “Case comigo (só mulheres)”. Será que a mensagem no ônibus era um sincero grito por afeto? Seria uma brincadeira de mal gosto com o dono do telefone citado? Ou algum esquema criminoso para seqüestro de pessoas desavisadas? (ocultei os últimos três dígitos por medo que algum visitante fosse vítima por minha causa).

Inversão Intenção/Conseqüência: xiii, a fonte que eu ia consultar não era a que eu achei que era... (acabei de reler “dinamicamente” um livro de ética que eu achei que citava a história que eu ia usar para exemplo...) – terei de lembrar a história de cabeça. Figura ela entre as muitas de “As Mil e Uma Noites” (eu acho...). Nessa história, um homem caminhando pelo deserto encontra uma linda prisioneira de um gênio, que dorme. A mulher, interessada em dormir com o viajante, diz: Você deitará comigo. Se assim fizer e o gênio não acordar, sairá livre. Caso contrário, acordarei o gênio e contarei que você deitou-se comigo. É aí que está a inversão. No caso que eu citava em relação a mim e pessoas medicando, devo ainda citar mais uma informação: em uma palestra do escritor Ferréz (escritor de “Capão Pecado”, “Manual Prático do Ódio” e organizador da revista “Literatura Marginal”), este contou que uma vez viu um garoto de rua conhecido seu todo feliz porque um passante disse “não” quando pediu dinheiro a ele. Quando indagado sobre o motivo de sua felicidade, disse: “Ao menos ele respondeu. A maioria passa reto”. Além desse dado, posso ainda citar uma pesquisa do psicólogo Fernando Braga, autor da tese da chamada “invisibilidade social”, isso é, homens invisíveis por terem condição social desfavorecida (o psicólogo desenvolveu a tese a partir de uma experiência como aluno: vestiu uma roupa de gari e permaneceu pelo campus onde estudava por um bom tempo, e ninguém o reconheceu, ou ao menos disse “oi”. Nem mesmo os professores que haviam dado aula para ele naquela manhã). Portanto, agora a aplicação do conceito de inversão intenção/conseqüência no caso de mendigos e passantes: se eu estou passando, sem dinheiro (ou sem vontade de dar dinheiro), por onde tem um garoto de rua, e eu dou atenção para ele (para dizer “não tenho”, ou simplesmente “não”), o garoto sente-se mais confiante para insistir e tornar-me mais culpado (ou até mesmo ser agressivo, como aconteceu em uma ocasião em que eu disse “não tenho” e o garoto respondeu “Prova, então. Deixa eu ver sua carteira”). Entretanto, se eu passar reto sem olhar para o garoto (ou usar óculos escuros), e simplesmente não responder ao apelo do pobre garoto, sou deixado em paz. O garoto não insiste, não tenta me deixar culpado. Se alguém tem alguma sugestão para esse dilema, por favor apresente-se (agora possibilitei comentários anônimos no blog).

Se você tem alguma sugestão, pedido ou crítica, deixe um comentário. (Assusta-me pensar que TUDO QUE EU DISSER pode e será usado contra mim “no tribunal do rei escarlate”...)

Vou deixar mais uma promessa no ar para que todos fiquem curiosos: no próximo “post” (a não ser que seja adiado, o que é provável), prometo fazer uma análise psicológica de comportamentos humanos teorizando uma suposta “naturalidade” nos valores católicos e dando uma possível explicação para comportamentos masoquistas, tudo isso baseado na observação direta da conduta de meus dois cachorros (o Neo e o Ziggy). Aguardem!

E-mails: mandem para abramo6@estadao.com.br

01/02/2005

O Gato Cinza de Olhos Azuis

1 - Hoje de manhã eu estava em outra cidade (Santa Branca). Antes de pegar o ônibus para São Paulo, vi no banco da rodoviária um gato cinza de olhos azuis. Um gato lindo, ainda muito jovem (provavelmente não tinha atingido a puberdade felina). Enquanto ele recebia sentado os raios de sol, virando o rosto, eu fiquei lendo seu futuro. O gato cinza de olhos azuis estava sozinho. Ele tinha que conseguir comida. Ele tinha que se virar. Ele era um gato enfiado num fim de mundo. Sem perspectivas. Imaginei-o agonizando após ter sido atropelado. Vida simples. Uma mulher ao meu lado na fila pra pegar o ônibus, como que lendo meu pensamento, disse: "Esse gato aí é bonito. Daqui a pouco alguém pega ele pra cuidar". Não resisti a fazer um carinho nele, que o recebeu de olhos fechados, um pouco por prazer, um pouco por causa da luz do sol. Eu queria vê-lo feliz. Eu queria dar leite a ele, e observá-lo beber (o gato abaixou a cabeça quando eu pensei isso). Eu que queria pegá-lo. Mas lembrei-me do ônibus, dos meus dois cachorros, da minha mãe, de mim mesmo. Deixei o gato lá e fui embora. Ainda tenho dúvidas sobre o destino do gato...
2 - Quando eu comprei minha passagem de ônibus, no bilhete estava indicada qual seria minha poltrona. Sentei, e o ônibus partiu, quase lotado. Logo no começo do caminho, o ônibus começou a parar em estações e pegar mais passageiros. Logo não havia assentos para todos. Algumas pessoas ficaram em pé ao longo da viagem. Uma delas, uma garota que olhava quase em minha direção. Um fiscal começou a conferir a passagem de todos os presentes. Tudo em ordem, todos tinham passagem. Inclusive as pessoas em pé. Será que não havia lugar marcado para as pessoas em pé? Elas viajariam em pé todo o trajeto? Teriam pago menos por suas passagens? Não, essa pergunta era irrelevante. Completamente irrelevante. O que me dava mais direitos do que a garota à minha frente? Por que eu estava sentado na minha cadeira reclinada enquanto ela estava de pé se segurando onde podia para não cair? Lembrei-me de uma vez que minha tia-avó teve que voltar de ônibus de Aiuruoca (Sul de Minas). Durante as primeiras uma hora e meia teve que ficar em pé. Pensei "E ninguém cedeu-lhe lugar?". O olhar resignado da garota em frente voltou a chamar minha atenção. Eu queria ceder-lhe meu lugar. Ao invés disso, esbocei umas desculpas na minha cabeça, virei para o lado e dormi. Por sorte não sonhei.
3 - Chegando em São Paulo, peguei o metrô. Perto do meu destino, eu estava sentado, e um homem estava em pé perto da porta. O trem parou na estação Vergueiro, e a voz feminina (de aspecto cansado) na caixa de som cantou o nome da estação. O homem perto da porta disse em voz alta: "Não é estação Verguero, sua idiota, é estação Vergueiro". Na estação Paraíso, onde eu e o homem íamos fazer baldeação, o vagão estava parando, ainda de portas fechadas, e o homem falava em voz alta "vai, caralho. Eu não tenho o dia todo, abre essa porra". Tudo que eu fiz foi simplesmente rir internamente.
4 - Almocei com minha mãe em um restaurante por quilo na Augusta. Lá contei a ela das pessoas que conheci no dia anterior, e de como suas vidas eram diferentes da minha, como se minha vida inteira eu tivesse passado dentro de uma bolha de proteção. Eu achei isso positivo pra mim. Sempre fui incentivado a ler. Tinha muitos livros em casa. Minha mãe me levava em livrarias. Eu via meus pais lendo. Tive uma educação boa desde a pré escola. E uma educação liberal. Meu amigo, que mora em Santa Branca, adora livros. Mas não tem muitos, então acaba lendo o mesmo livro até 7 vezes. Uma amiga, que mora em São José dos Campos, contou-me de sua professora de inglês. Deu aula em apenas três dias do ano. Depois disse "eu só faltei o que era permitido". A professora substituta tinha que se virar. Mandava a classe ler um texto qualquer e traduzir. Minha amiga pedia para um amigo fazer pra ela.
5 - O motivo de ter voltado tão cedo de Santa Branca era assistir à aula do "Centro de Formação de Condutores A". Então, após ter almoçado com minha mãe, peguei um ônibus. Perto do ponto final, um garoto (até bem vestido - vestia uma camiseta da marca "Cavalera" (a que eu vestia também era dessa "grife")) fazia malabarismos com bolas de tênis (em São Paulo isso é bem comum - tem em todas as principais esquinas). Tinha o olhar virado para as bolas, mas não completamente concentrado. O cobrador do ônibus virou-se para a janela para observar o garoto. Então sorriu, com um olhar amoroso para o garoto. Quase paternal. Eu observava os dois através de meus óculos escuros. (Me emocionei, mas logo tive que sair do ônibus).
6 - Antes de entrar na sala de aula, falei com o rapaz da recepção que tinha esquecido um casaco lá na sexta feira. (e na sexta feira antes de entrar na aula eu peguei a apostila "formação de condutores" que havia esquecido na quinta). O rapaz me levou para uma sala onde ele tinha guardado o casaco (era um casaco preto mais velho do que eu). Depois de me entregar, ele disse "só esqueceu o casaco por que fez calor. É igual com guarda-chuva. Se pára de chover a gente esquece". Retribuí seu sorriso e entrei na aula.
7 - A aula era sobre primeiros-socorros. A professora falava sobre como era importante prevenir-se ao tocar um corpo ensangüentado. Com o risco de contrair, por exemplo, Aids (10% de chance se a pessoa tiver o vírus, de acordo com a professora), era melhor, na ausência de luvas, colocar as mãos por dentro de uma camisinha. Quanto ela disse isso boa parte da classe riu. Para se entrar no curso, é necessário ser maior de dezoito anos. Ainda assim as pessoas não estão familiarizadas com o termo "camisinha". Essa era uma reação que eu me lembro bem na primeira série do primário. E ainda se perguntam como que a AIDS continua se alastrando? (Resposta: falta de informação, SIM).
8 - A aula continuou, morbidamente. Cacos de vidro fincados nos olhos. Queimaduras de terceiro grau. Membros empalados. Hemorragia. Pedaços cortados fora. A professora contava casos... sabendo que nenhum de nós ia realmente prestar socorro às vítimas. Mas se nós soubéssemos do processo, poderíamos evitar que coisas erradas fossem feitas à pessoas acidentadas. Se uma garota perdeu a mão, ela irá sangrar até a morte. Se nós colocarmos compressas de pano na mão, ainda assim ela ia sangrar até a morte. A vida da pessoa seria salva apenas se usássemos um "torniquete" (pano amarrado de maneira tão forte que impediria circulação sanguínea na região). Mas, nesse caso, a pessoa muito provavelmente acabaria tendo o braço todo amputado. Então, como ela quer sair ganhando, ela iria nos processar por fazer o "torniquete" nela. E nós teríamos de pagar indenização. A aula continuou nesse clima. Eu estava quase passando mal. A professora fazia uma ou outra piadinha ao longo da aula, e algumas pessoas riam (provavelmente as mesmas que riram da camisinha). A professora estava acostumada com essas pessoas. E como professora, teve contato com muitas pessoas dos mais diferentes tipos, dos menos diferentes tipos. E essas pessoas contavam casos pra ela. E ela contava os casos à gente. Mas nem todos os casos que ela contava eram casos contados pra ela. Ela pôde conhecer pessoalmente muitas situações, pois havia feito um trabalho no corpo de bombeiros e no Hospital das Clínicas.
9 - Esse caso a professora acompanhou ao longo dos meses. A dona-de-casa tinha um filho pequeno. Estava fervendo água para fazer café quando tocou a campainha. Enquanto atendia, o filho curioso esticou os pezinhos para alcançar o fogão, e deixou cair a água fervendo em cima dele. No rosto, no peito, na virilha. O filho chorava, então a mãe, por desinformação e para aliviar a dor, jogou pó de café em cima do filho. A cafeína, como todos os estimulantes, alivia a dor. Então, chegando no hospital, os médicos tiveram que fazer uma "raspagem" no garoto, isto é, passar uma lixa na carne exposta para retirar o pó de café de cima do garoto. É, obviamente, um processo extremamente doloroso. Então o garoto ficou lá no hospital, um mês e meio, mais ou menos, até se recuperar da queimadura (deformado até o resto da vida). No entanto, os médicos não puderam dar alta ao garoto, pois ele tinha febre. O garoto ficou em tratamento antibiótico, mas a febre sempre voltava. Cada vez mais alta. Três meses em febre, até que a temperatura aumentou para 42ºC, ocasionando a morte do garoto. Infecção generalizada. Porque a mãe havia jogado pó de café no garoto. Nesse momento a professora estava com os olhos vermelhos. Eu também. No Brasil muita gente morre ou fica deformada por falta de informação. A professora ainda contou outros casos, de bebês que morreram porque tiveram sangramento nasal e a mãe colocou a cabeça dele pra cima (quando eu tinha sangramento nasal também faziam isso comigo). Bebês que morreram sufocados pela mãe ao amamentar. Um garoto que teve uma queimadura agravada por conta da pasta de dentes que a mãe colocou no local. Destinado a ser um "monstrinho" sem amigos, sem namorada, deformado pro resto da vida porque a mãe era ignorante. Outro caso: garoto atropelado do lado do hospital. A mãe desesperada pega o garoto no colo e sai correndo pro hospital. O garoto tinha uma fratura exposta na perna. Quando a tia viu uma coisinha contra a calça de moletom do garoto, levantou-a. A mãe levou um susto com a visão da perna aberta e deixou o garoto cair no chão. Do lado do hospital...
E a aula não acabava. E eu não queria mais aquilo. Eu era mais feliz antes de saber tudo aquilo. Eu olho para o gato cinza de olhos azuis e quero chorar. Mas ele não chora. Eu tenho dó do gato cinza de olhos azuis. E gostaria, como gostaria, que o gato cinza de olhos azuis tivesse dó de mim também. Só assim eu poderia saber que ele é feliz... feliz como eu fui antes de conhecê-lo. O gato cinza de olhos azuis é, sim, capaz de derramar uma lágrima pelo outro. A aula acabou. As pessoas conversavam normalmente, trocando sorrisos. O gato cinza de olhos azuis é incapaz de derramar uma lágrima por si mesmo. Quem um dia me disse que os gatos têm nove vidas?

obs: a explicação sobre a inversão de intenção/consequência fica adiada mais uma vez para o próximo "post". Perdoem-me pelos erros ortográficos do texto “A República da Hipocrisia”. Comentários: deixem aqui ou mandem-me um e-mail - abramo6@estadao.com.br