Se serve de consolo, estou sem internet desde pouco depois do último post. Como é de praxe, um conto. Desta vez em primeira pessoa.
Um dia produtivo
Ontem, ou teria sido hoje? Acordei tarde. Estava sozinho, com um mundo de possibilidades à frente. Mas o caminho que segui foi apenas o mais natural. Não preparei nenhuma refeição, embora esse tenha sido um ritual constante ao longo de todos os anos de minha vida. Ao invés disso cacei comida aos poucos. Nada saudável, é claro, pois seria anti-natural.
Poderia ser que de manhã, pela proximidade do sono da noite anterior, a mente estivesse mais próxima de seu estado onírico, permitindo-a (restringindo-a a) maiores viagens, vertigens, imagens. Mas a prática já provou o contrário. Morpheus é criatura da noite, dorme de dia.
Liguei a televisão, torneira de imagens, almofada cerebral e repousei both fisica e psicologicamente, enquanto assistia a horas de sexo explícito (o sugestivo e sutil pode ser muito entesoante, mas não a essa hora do dia (na minha mente ainda era cedo)). Não ousei me masturbar - já bastava ter sido a primeira coisa que fiz ao acordar. Desejava que os vizinhos vissem a T.V. ligada e pensassem mal de mim. Sentia-me extremamente inadequado ao amor, ao erótico. Um daqueles dias que a gente acorda se sentindo o contrário de sexy, que não dão nem vontade de escovar os dentes nem se pentear nem colocar uma roupa que não seja a mais feia do armário. Pra que uso? E enquanto assistia ao sexo libertino de homens superdotados e frias mulheres percebia o quão distante estava de tudo aquilo, por dentro. Em dias melhores uma divina perversão me permitia que esse mesmo sentimento de inadequabilidade, de feiúra, de vergonha fosse por si erótico o suficiente para suprir minha mente com as mais lascivas fantasias. Sexualidade tirada da anti-sexualidade. Talvez eu já soubesse naquele momento que estava esperando - esperando o melhor momento do dia. Enquanto esperava fiz o que considerei produtivo - li um monte, sentei ao computador e escrevi um conto, ouvi música deitado no chão, fiz música... e foi aí que senti começar (embora eu não estivesse auto-consciente na hora). Acho que foi a música. O fato persistia de que os instrumentos musicais de que dispunha eram inadequados à música que compus. Eventualmente eu iria ter os instrumentos necessários, aí a coisa sairia do jeito que eu queria. Mas foi-se embora, deixando apenas o sabor, o senso. Não obstante, a hora era aquela. Tomei um banho quente e, com a toalha ao redor da cintura para não molhar a cadeira, deixei que o ar me secasse, como é de costume (dessa vez natural), enquanto lia qualquer coisa subversiva no computador. Quando meu cabelo estava seco eu já estava pronto. O momento pelo qual eu havia aguardado (sabendo ou não) o dia todo, aquela uma ou duas horas. Deitei-me na cama, apaguei as luzes e comecei a fabular. De início as coisas impossíveis - universos novos, poderes mágicos que permitissem formas ainda mais refinadas de amor - pois é... sempre o amor. Aos poucos a fantasia exagerada foi se aproximando da realidade. Logo eram poderes atingíveis através de um árduo e disciplinado treinamento ao longo da vida. E o mundo povoado de pessoas apaixonáveis, para o bem ou para o mal. Depois de algum tempo eu já era de novo eu, embora não mais inadequado. Homens e mulheres um pouco mais verossímeis eram os autóctones desse novo mundo a cada segundo. E o auge estava chegando - agora era eu e as pessoas que já existem - amigos, amigas, romances. E a fantasia já tinha um novo nome. Fabulação se torna confabulação. Agora ia mesmo acontecer - planejei. Pronto. Tinha acabado. Empenhei-me em dormir, e para isso distanciei-me novamente do real. Tudo voltou a ser mágico. Um mundo de símbolos. Dormi.