14/09/2008

Variações

CONTO



Momento B, Narrador 1:
Daniel então toca o interfone do prédio. O porteiro logo abre a porta. Trocam um boa noite enquanto Daniel se dirige ao elevador. 12º andar, apartamento 123. Enquanto a porta exterior do elevador se fecha, Daniel olha para os 4 cantos superiores em busca de uma câmera. Privacidade total. Assim que o elevador fecha a segunda porta, logo aperta o botão número 1. E o 2, e o 3, rapidamente, até o 11... Daniel senta no chão, em um canto do elevador, a cara enfiada nos braços cruzados sobre os joelhos levantados. Imóvel, enquanto cada um dos andares é anunciado em vão pela placa na respectiva porta. Atingido o destino final, Daniel se levanta, e sai. A luz do hall acende. O chão está cheio de poeira, a porta do 124 está quebrada, o apartamento está em reforma. Caminha lentamente até a porta, encontra-a trancada, toca a campainha de leve e aguarda. Nenhum som durante algum tempo. Daniel senta novamente no chão, desta vez colocando a mochila na sua frente. Esbarra sem querer na porta, o que interrompe o silêncio. Enquanto espera, ouve os barulhos dos motores dos elevadores, poucos andares acima. Cada vez que um dos elevadores pára em um andar, Daniel pode ouvir. Assim como as vozes dos passageiros, embora não possa discernir palavras. A luz se apaga - o sensor de presença não pode detectá-lo naquela posição. Privacidade total, novamente. Reconhece uma luz por trás da porta trancada, que alguém deve ter esquecido acesa ao sair. O próximo evento notável é a luz que o elevador faz ao passar pelo 12º andar, na ida e na volta. 25 minutos depois de ter sentado, Daniel levanta e caminha até o elevador. A luz do Hall se acende. Daniel desce, sem interrupções, troca um novo boa noite com o porteiro e também com um morador do prédio que estava entrando. Encontra-se novamente na rua.



Momento A, Narrador 2:
Agora:
Eram 18h. Os sons do trânsito da cidade chegavam ao apartamento de Daniel de maneira ruidosa. Daniel havia cochilado, das 14 às 16 e pouco e depois tomado banho. Era sempre assim, cochilar de tarde nunca vinha sem um alto preço, o do resto do dia. Uma preguiça com poucos precedentes tomava seu corpo, e não havia nada que pudesse fazer, a não ser, talvez, barganhar uma nova troca com a noite: um copo de café recuperaria parte de suas energias, mas custaria a noite em claro. Não sei se por esse motivo, mas Daniel não tomou o copo de café. Ao invés disso caminhou até a sacada e observou a rua por alguns minutos. Tinha de matar tempo até que pudesse se encontrar com os amigos para estudar. Ou melhor, tinha de matar tempo para que pudesse ir sem trânsito à casa dos amigos. Por esse motivo jantou. E aproveitou a televisão ligada, que a companheira de apartamento estava assistindo. Quando percebeu os barulhos da rua diminuírem, telefonou para o dono da casa, no celular. Estavam pagando a conta em um café próximo, estariam dentro de casa em pouco tempo. As experiências do passado já antecipavam a possibilidade da turma demorar mais do que o previsto, entretanto preferiu pensar que não seria possível demorar muito em um lugar onde já se tinha pedido a conta, sabendo que uma visita chegaria em breve.

Antes:
Essa não havia sido a primeira vez que falavam ao telefone naquele dia. Um bom tanto mais cedo Daniel havia ligado, perguntado por que motivo eles não tinham telefonado ontem, algo que ficara de certa forma implícito no "Amanhã vamos acordar mais cedo e podemos estudar juntos" que Daniel escutara anteontem. Depois de ouvir a explicação, Daniel combinou de encontrá-los mais tarde, quando houvesse menos trânsito. Antes de desligar, ainda conversaram um pouco sobre uma questão prática importante: anteontem, quando estudaram juntos, Daniel tinha estudado no sofá com o laptop no colo - a mesa da sala estava totalmente ocupada, bem como qualquer espaço da casa que ele poderia utilizar para estudar - eram 3 pessoas compartilhando um mesmo espaço, sem contar ele. Daniel sugeriu que todos estudassem na sua casa, mais espaçosa. Sua proposta foi recusada, pois o dono da casa precisava do próprio computador. Ficaram de dar um jeito nessa questão do espaço. Combinou de estudar uma matéria de um curso que fazia em comum com um dos amigos, portanto poderiam compartilhar o espaço dele. Daniel estava tão preguiçoso que nem sabia se conseguiria efetivamente estudar, então não era uma questão que o preocupava muito. Entre os dois telefonemas, Daniel ainda recebeu uma mensagem de texto do amigo no celular: "Dani, nao vou estudar dinamica agora. Estou estudando calculo e nao quero parar no meio. A gente estuda num outro dia. Beijos". Daniel se perguntou se o "a gente estuda num outro dia" não representaria um desejo de que ele não fosse à casa deles hoje. Respondeu com "Posso estudar outras coisas tbm...". Suas dúvidas foram sanadas com a resposta "Sim, sim. Leve outra coisa ;)" do amigo. Sua presença parecia desejada.

Depois:
Daniel arrumou sua mala com cadernos e livros, tudo muito lentamente. Despediu-se da colega de casa e saiu. Não suportava televisão... Na frente de um prédio comercial, já na rua, viu uma mulher esperando sozinha uma carona. Também ele já muitas vezes havia esperado sozinho uma carona. Deu-se conta do fato de que, embora conhecesse muita gente, sempre estava sozinho. A maior parte das pessoas que ele conhecia andavam sempre na mesma turma, "faziam parte". Ele andava pela faculdade cumprimentando cada pessoa que passava. Achava que "fazia parte" de uma série de turmas. Mas muitas vezes comia sozinho, caminhava para lá e para cá sozinho, fazia esportes sozinho, estudava sozinho, viajava sozinho. Embora dividisse uma casa, não compartilhava uma vida em comum com sua colega. No ponto de ônibus encontrou uma mulher que trazia no colo um filho ou filha de apenas 4 dias. Isso era algo que ele nunca tinha visto - ficou até um pouco chocado que uma mãe pudesse transportar uma carga tão frágil e preciosa em um ônibus. A senhora com quem a mãe conversava não demonstrava muita surpresa... Embora Daniel não tivesse sinalizado para o ônibus, o mesmo parou para desembarcarem alguns passageiros. Isso o lembrou do dia anterior:

Lembrança:
Ontem, quando estava um pouco atrasado para encontrar um grande amigo para correr na faculdade (foi a primeira vez que Daniel correu, o que em última análise é o motivo dele se encontrar tão cansado no dia de hoje), Daniel viu do outro lado da rua o ônibus que deveria pegar (e que demora para passar), parado no ponto. Entretanto, a rua era muito movimentada, e ele não pôde atravessar a tempo. Depois de uns 20 minutos de espera, finalmente um ônibus da mesma linha apareceu no horizonte. Quando estava mais perto, Daniel sinalizou. Entretanto, ele passou reto, deixando-o abismado e muito irritado. Por sorte, o farol à frente estava vermelho, e o ônibus teve que parar. Daniel correu, bateu na porta. Entrou sem falar "boa noite" para o motorista.

Voltando:
Daniel embarcou, dizendo boa noite ao motorista. Pagou ao cobrador e foi sentar ao fundo do ônibus. Prestava atenção no caminho, tentando ver quando enxergaria o túnel. Tentava se lembrar da referência que havia marcado para o momento certo de apertar o botão e descer do ônibus - o nome de uma rua, algum estabelecimento comercial... entretanto estava muito cansado e não se recordou de nada. Para piorar, um rapaz de mochila agora bloqueava totalmente sua visão. Decidiu perguntar ao cobrador. Encontrou seu caminho bloqueado pela mochila do garoto, então pediu licença. Logo deu-se conta de que fazia tempo desde a última vez em que pedira licença a um estranho. Nos últimos tempos estava inconscientemente tentando ser invisível, esgueirando-se tentando não esbarrar em ninguém, pedindo desculpas quando esbarrava. Isso o incomodava, portanto o pedido de licença que foi obrigado a fazer o agradou. O cobrador informou-o de que deveria descer no próximo ponto. Enquanto aguardava para atravessar a rua contemplava a quantidade de carros passando. Anteontem Daniel havia feito o trajeto inteiro a pé, com uma mala até mais pesada nas costas. Mas hoje estava cansado demais para isso. Subiu com alguma dificuldade a ladeira até o portão do prédio.



Momento C, Narrador 3:
Enquanto se dirigia ao portão, Daniel viu um provável morador tocando o interfone do prédio. O porteiro teria de abrir a porta para que ele saísse, e Daniel montou rapidamente em sua mente a possibilidade da pessoa na porta não ser um morador - um dilema que teria de ser resolvido rapidamente pelo porteiro. Enquanto o morador abria a porta e entrava no prédio, Daniel pensava se seria uma boa idéia ir até um café, pedir uma água com gás ou outra bebida e ficar um bom tempo esperando... sentiria um pouco de vergonha ao encontrar sua colega de casa depois de tão pouco tempo - seu fracasso ficaria evidente. Avaliando essas possibilidades, Daniel quase perdeu a chance de dizer "boa noite" ao morador. Na rua ainda enrolou olhando para os dois lados, na esperança de encontrar os amigos voltando - isso mudaria totalmente seu destino, suas impressões. Ainda olharia mais uma vez para trás depois de começar a andar. Relutava em admitir a si mesmo que estava bravo. Chateado, sim. De qualquer forma, estava além de resgate - desligou o celular. Abandonou a idéia de ir a um café. Queria estar em casa, não havia necessidade de prolongar o dia. Queria dormir. Também queria chorar, mas segurou. Novamente entrou em um ônibus sem haver pedido para ele parar (a porta não ficava perto do motorista para que ele pudesse dizer boa noite). Talvez aquilo tudo fosse uma metáfora - talvez uma casa em que três pessoas podem estudar, mas não quatro, signifique alguma coisa. Tentou pagar ao cobrador, mas não havia troco, então tinha que esperar até que outros passageiros pagassem. Daniel se perguntou o que aconteceria se tivesse que descer antes de haver troco - provavelmente desceria de graça. Mas logo o cobrador encheu-o de moedas. Daniel pensou um pouco sobre qual era o lado do ônibus no qual teria que desembarcar, logo viu que a porta esquerda ficava mais para trás. Caminhou até perto da porta - era um daqueles ônibus articulados. Equilibrou-se na junção do ônibus enquanto fazia a curva, apertou o botão e desceu. Não se lembrava de ninguém de dentro do ônibus. Começou a andar em direção a sua casa. Olhou o relógio. Menos de uma hora havia se passado desde que anunciara que estava saindo para estudar. Daniel planejou o futuro: entrar, dizer que tinha muito sono, trancar a porta do quarto, chorar silenciosamente. Até lá tinha de manter afastada sua tristeza. Reavaliava na sua cabeça as teorias que tinha sobre o universo e nosso poder dentro dele. Por um lado, temos influência sobre o que nos acontece. Alguma coisa ele devia estar fazendo de errado para que tantas coisas ruins lhe acontecessem. Algo na maneira de estabelecer vínculos emocionais, talvez? Por outro lado, temos de considerar a poderosa força do caos: às vezes diversas coisas ruins ou boas podem ocorrer em sucessão, sem que se possa atribuir responsabilidade a alguém. Talvez ele estivesse fazendo tudo certo, mas o momento fosse ruim... pensou na numerosa lista de amigos, um por um. Apenas uma amizade parecia completa. Estava deprimido, isso já havia sido decretado ha algum tempo, e impunha sua prova. Cancelou em sua mente a balada combinada com esses mesmos amigos amanhã. Não havia nenhum sentido em balada nesse clima. O prédio já estava próximo. A necessidade de chorar aumentava com a necessidade de esconder a tristeza. "Vamos lá, Daniel, faça seu show, você é bom nisso!". Abriu a porta do prédio, foi até o elevador. Subiu até seu apartamento, abriu a porta. "Boa noite", ouviu. "Um amigo seu ligou". Isso não o interessava. Apenas respondeu que queria dormir. Boa parte do sono passou no momento em que começou a lacrimejar, seguro no quarto com a porta trancada. Não sabia se preferia o conforto ergonômico ou o conforto de abraçar o travesseiro.



Momento A, Narrador 1:
Daniel tinha acordado ha pouco tempo e tomado banho. Às 18h saiu para a sacada de seu apartamento e observou a rua por uns instantes. Entrou e foi até a cozinha, onde encontrou sua colega de apartamento esquentando um prato de arroz, feijão, bife de frango e croquete no microondas. Daniel pegou com a mão um bife de frango gelado e comeu. Sua colega de casa fez uma cara chocada. Depois de comer os 3 croquetes restantes, voltou à sacada. Sentou-se no sofá e assistiu um pouco de televisão. Depois de um tempo disse: "Vou à casa de uns amigos estudar". Pegou o telefone, falou "Onde vocês estão? ... Ah, você acha que dá tempo para vocês chegarem antes de mim? ... Ok, então, estou saindo". Arrumou lentamente uma mochila com cadernos de papel reciclado e dois livros: "elementos de álgebra" e "fundamentos de análise complexa". Quando estava na porta, chamando o elevador, sua companheira de casa observou: "você não parece muito animado para ir" "ficar aqui também não faria muito por meu humor" "obrigado pela parte que me toca" "eu teria de estudar, aqui ou lá. Acho que mudar de ares me fará bem". Na rua viu uma mulher que aguardava à frente de um prédio de escritórios, com uma cadeira de rodinhas e uma sacola ao lado. Dobrou a esquina, caminhou até o ponto de ônibus, onde viu uma senhora conversando com uma mulher negra que trazia um bebê no colo. Conversavam sobre a criança, que a mãe dizia ter apenas 4 dias de idade. Daniel viu um ônibus chegar ao ponto. Ninguém fez sinal para que ele parasse, mas assim mesmo o ônibus parou para que alguns passageiros descessem. Daniel fez um sinal para o motorista abrir a porta e entrou. Pagou ao cobrador com uma nota de 2 reais e uma moeda de 1. Sentou-se no fundo do ônibus. Depois de algumas estações, levantou-se, pediu licença a um rapaz de mochila que estava fechando o corredor, caminhou até o cobrador. Perguntou: "O último ponto antes do túnel já é o próximo?", ao que o cobrador respondeu afirmativamente. Desceu no ponto seguinte, aguardou um demorado farol para atravessar a rua. Subiu a ladeira, sempre lentamente. Finalmente chegara ao seu destino, Daniel encontrava-se agora à frente do prédio nº 265.



Momento B, Narrador 2
Agora:
O porteiro permitiu que entrasse sem fazer nenhuma pergunta. Provavelmente lembrava-se de Daniel ter estado lá dois dias antes. Ou talvez pensasse que Daniel fosse um morador do prédio. Daniel entrou no elevador e, após verificar que não havia nenhuma câmera o vigiando, apertou, além do 12, todos os outros botões. Sentou no chão. Lembrou-se de um texto sobre como fingir ser louco em um elevador. Apertar todos os botões e sentar em um canto não estava na lista, mas certamente funcionaria. E se alguém tivesse chamado o elevador, entrasse e se deparasse com aquela cena? Por falar em loucura, aquela não era a primeira vez que Daniel parava em todos os andares até o 12º naquele elevador.

Antes:
Mais de um ano antes, Daniel, os três amigos, sua então futura namorada (ficante na época), e mais duas pessoas, uma das quais por quem estava apaixonado na ocasião subiam naquele mesmo elevador, quando por impulso alguém apertou o botão nº1. Estavam exaustos depois de um dos mais importantes dias de suas vidas, quando todos haviam experimentado LSD, passeado pela Avenida Paulista e tido alucinações coletivas e individuais. Quantos "eu te amo" não haviam fluído naquele dia, quão verdadeiro, eterno e especial era aquele dia. Choraram juntos, riram juntos, tudo havia sido tão mágico... por que não segurar um pouco mais aquele momento incrível - "momento UM!" alguém disse, e logo apertou o 2. Em pouco tempo todos os botões já haviam sido apertados. Cada número seu momento característico, de forma que mesmo não tendo passado todo o efeito da droga, já estavam entediados e de saco cheio lá pelo "momento SEIS!".

Projeção:
Daniel se incomodava um pouco ao pensar nos momentos felizes do passado. Queria concentrar-se nas possíveis boas experiências do presente e futuro, conhecer gente nova... Sempre que tentava compartilhar com uma pessoa nova suas histórias, tudo parecia tão ficcional... era exatamente como uma pessoa que mentia para impressionar outras, gabando-se de algo que não possuía. Daniel sentia-se mentindo sobre uma felicidade que não era dele. "Que diferença faz se três anos atrás o senhor pescou um peixe de 30 quilos? Hoje estamos a comer peixe comprado congelado do supermercado". Seu passado tornara-se impróprio. Como criar um futuro sem possuir um passado?

Depois:
Quando o elevador chegou ao destino final, Daniel saiu para o hall. Lembrou-se do barulho da reforma do 124 de anteontem. A porta quebrada era quase convidativa. Mas seus amigos moravam no 123. Só depois de verificar que a porta estava trancada é que percebeu o quão rude havia sido sua atitude de tentar abrir antes de anunciar a chegada. Tocou de leve a campainha e aguardou um pouco. Nenhuma resposta. Provavelmente ainda não haviam voltado do café. Nem pensou em ligar para eles do celular - ao invés disso sentou-se no chão em frente à porta para esperar. Logo a luz se apagou. O local era bem barulhento, devido aos ruídos do elevador. Daniel sentou-se na mesma posição de momentos antes: o rosto escondido nos braços cruzados sobre os joelhos levantados. Era muito agradável perceber que, quer mantivesse os olhos abertos quer os fechasse, veria a mesma escuridão. Uns 20 minutos se passaram sem que nada notável acontecesse. Daniel levantou-se, no caminho para o elevador as luzes do hall se reacenderam, causando um pequeno incômodo. Daniel desceu ao térreo, disse boa noite ao porteiro e saiu do prédio. Ainda olhou para os dois lados na esperança de ver os amigos voltando. Esperança... talvez também um pouco de medo.



Momento C, Narrador 2
Agora:
Dois dias antes Daniel voltara a pé com uma mochila pesada nas costas, enfrentando uma noite fria e uma garoa. Na ocasião tinha a certeza de que não ficaria doente, de que poderia resistir qualquer coisa (e era verdade!). Voltara para casa confiante e elegante. Hoje, entretanto, estava atordoado e cansado. Pegaria um ônibus. De certa forma era bom que a hora de dormir se aproximava. Desligou o celular, como que para garantir que nada atrapalharia seus planos de dormir. Mais especificamente, desligou o celular para garantir que seu desejo de que os amigos ligassem para ele (pedindo desculpas e chamando de volta) não se concretizasse.

Lembrança:
Enquanto caminhava para o ponto de ônibus, algo o lembrou de sua ex-namorada, antes de ser ex, antes de ser namorada. Lembrou-se de como ela havia sofrido por ele enquanto ele estava apaixonado por outra pessoa... como ela aceitara todas as condições para estarem juntos, sem namorar... seus amigos precisavam de alguém como ela. Ela poderia rastejar e sofrer por eles, com prazer. Essa não era a única lembrança que lhe ocorria na ocasião.

Antes:
Algum tempo antes um desses amigos disse ter ciúmes dos outros (que não os três) amigos de Daniel. Daniel na ocasião dissera a verdade: que eles estavam entre os amigos mais especiais. Por outro lado, sentia-se sozinho e necessitava pessoas que pudessem ocupar seu tempo. Essa verdade encobria uma outra verdade, não revelada ao amigo: Daniel não queria deixar morrer a possibilidade de encontrar outras pessoas especiais. Mas uma terceira verdade agora se erguia para justificar o comportamento social de Daniel: o de que esses amigos não bastariam para amparar a queda caso Daniel saltasse. Pois era ele quem havia de ligar caso desejasse vê-los, correndo o risco de não conseguir entrar em contato ainda que tentasse todos os telefones, como efetivamente ocorrera no dia anterior (apesar do suposto combinado).

Projeção:
Daniel recusava-se a admitir que estava bravo com os amigos. Preferia pensar que estava chateado, mas não muito. Precisaria apenas de uma pequena correção no seu comportamento, deixar que o sentimento do outro ditasse a intensidade do relacionamento... se o outro fosse atrás e demonstrasse amor, faria o mesmo. Caso contrário precisaria apenas aprender a regular suas próprias expectativas. Isso já havia acontecido uma vez, com uma ficante. Ao perceber nela uma certa falta de desejo de encontrá-lo resolveu esperar que ela lhe procurasse caso desejasse. Nunca mais se viram.

Depois:
Entrou no primeiro ônibus, pagou ao cobrador e passou pelo ônibus como se o mesmo não existisse. Não olhou para ninguém. Apenas caminhou em seu passo lento daquele dia arrastado até seu apartamento. Ao chegar disse à sua colega de casa que estava com muito sono e foi para o quarto. Trancou a porta, deitou na cama e chorou silenciosamente.



Momento A, Narrador 3
Apesar de ter tomado um banho, Daniel não se sentia totalmente desperto naquela tarde. Tinha a obrigação de estudar, havia combinado de fazê-lo na casa de amigos, como dois dias antes. Embora dois dias antes não houvesse estudado muito - apenas a parte que não necessitava de mais espaço do que um laptop: a casa era muito apertada e mal comportava o material de estudos dos três amigos. Uma passada pela sacada de seu apartamento lhe informou que o trânsito estava pesado naquele horário. Não havia muito sentido em sair agora. Pensou em tomar um café para passar o sono, mas devido ao sono acabou se esquecendo do café. Sentia-se arrastando o corpo e a mente por aquele dia. Os pensamentos passavam por sua cabeça sem deixar rastros ou conclusões. Foi até a cozinha, onde encontrou sua colega de casa esquentando um prato. Pegou um bife de frango de um pote que acabara de sair da geladeira e começou a comê-lo frio. Daniel ficou se perguntando se a cara de desgosto que sua colega fez era devido ao ato de comer uma carne gelada ou ao fato de tê-lo feito sem usar talheres... A televisão estava ligada. O barulho em geral o incomodava. Mas nesse exato momento parecia ser justamente o que precisava: jogar no lixo uma hora de sua vida. E essa hora passou como se não tivesse passado. O barulho vindo da sacada já indicava uma diminuição no trânsito. Anunciou que ia sair de casa para estudar com amigos. Pegou o telefone para saber onde eles estavam. "Estamos pagando a conta no café e já estamos saindo"..."Pode sair, nós chegaremos antes de você". Arrumou a mala com o material de estudos que muito provavelmente não usaria. Não entendia se o desânimo que sentia naquele momento tinha origem química ou psicológica. Mas estava estampado em sua cara. Tanto que sua colega de casa comentou "Você não parece muito animado para sair". Deixou escapar que ficar naquela casa não estava ajudando muito seu humor. "Obrigado pela parte que me toca", ouviu. Arrependeu-se do que disse e logo emendou uma meia-verdade, de que tinha que estudar e que preferia estudar acompanhado. A verdade inteira é que a televisão o irritava, alguém que estivesse fazendo companhia para a televisão não estaria fazendo companhia a ele.

Na rua lhe chamou a atenção uma mulher que aguardava na frente de um prédio de escritórios, com uma cadeira de rodinhas e uma sacola ao lado. Enquanto a observava pensava em quantas vezes não se sentira constrangido de estar sozinho. É tão raro ver alguém simplesmente sozinho, esperando. Achou que a mulher estivesse buscando o celular no bolso, para ligar para sua carona reclamando do atraso, para saber quanto ainda teria de esperar, para fingir que não estava apenas esperando, sozinha, sem nada para fazer, enquanto sua carona não vinha. Um cigarro também funcionaria. Mas tinha se enganado: a mulher continuou esperando. Daniel, que não estava esperando, seguiu seu caminho até o ponto de ônibus, onde outra cena chamou sua atenção: uma mulher negra carregando um embrulho de panos. Nesse embrulho, Daniel ficou sabendo pelo diálogo da mulher com uma outra senhora, carregava seu filho de apenas 4 dias de idade. Uma mulher, um monte de panos, um filho de 4 dias. Estava chocado! Como podia fazer uma coisa dessas? Daniel ficava imaginando a cara de desespero da mãe caso a criança batesse em algum lugar durante alguma sacudida mais violenta do ônibus. Uma carga tão preciosa, tão desprotegida. Um ônibus chegava. Enquanto tentava reconhecer a placa e lembrar qual ônibus deveria pegar, aquele parou para descarregar alguns passageiros. Daniel lembrou que qualquer ônibus serviria para esse trajeto tão curto - estava tão cansado que nem pensou em ir a pé. Sem se esquecer do "boa noite" ao motorista, sua mente cansada fazia de cada tarefa simples um desafio - procurar a melhor combinação de notas e moedas para facilitar o troco do ônibus, encontrar a melhor combinação de palavras para perguntar ao cobrador se o próximo era o ponto em que deveria desembarcar... E era.



Momento B, Narrador 3
Na ladeira que levava ao prédio Daniel avaliava sua vida enquanto andava. Avaliava no sentido de verificar o valor. A possibilidade de um suicídio logo foi afastada de sua mente - não estava preso a uma situação sem solução. Antes de uma ação tão drástica seria obrigado a tentar algo mais suave, como mudar radicalmente de estilo de vida. Parar de falar com as pessoas que não interessavam, virar um vagabundo, viver à custa dos pais. Logo imaginou um diálogo com o pai. Algo em sua relação com o pai o incomodava muito. Queria falar ao pai que era gay e drogado, que não via sentido em inventar e sustentar uma pessoa fictícia para não desapontá-lo, que aquilo que ele havia se tornado era responsabilidade do pai também, e deveria aceitá-lo como ele era de verdade. O irônico é que a pessoa fictícia era esse que queria se assumir para o pai: Daniel não era gay, nem drogado. Mas havia alguma verdade profunda na sensação de estar sustentando uma imagem fictícia de si mesmo. Algo sincero na sensação de prisão, de não conseguir ser mais autêntico. Ainda lhe ocorreu a possibilidade do pai se suicidar, sendo sua culpa... quando tocou o interfone do prédio, o porteiro permitiu sua entrada sem lhe dirigir nenhuma pergunta, apenas respondendo ao "boa noite", de Daniel. Chegando ao elevador, enquanto a porta se fechava, o botão nº 12 já apertado, Daniel olhou para cima em busca de uma câmera. Não vendo nenhuma apertou correndo o botão nº 1. Será que daria tempo? Deu. Apertou rapidamente todos os botões até o 11 e sentou-se no chão, a cara escondida pelos braços no joelho. Por que havia feito aquilo? Nem ele mesmo entendia ao certo. Certamente queria roubar um pouco desse tempo intermediário para si - um tempo durante o qual os amigos poderiam chegar pelo outro elevador, se fosse o caso. Um tempo no qual poderia se indagar o motivo de não querer encontrar os amigos tão cedo. Não queria estudar, havia saído de casa meio que por inércia. Esperava alguma coisa. Apertara todos os botões para ter tempo de se indagar essa questão: o que esperava desses amigos? A resposta era simples e de certa forma inevitável - achava que entraria pela porta do 123 com a depressão estampada na cara, e os amigos logo o distrairiam com as conversas de sempre, o acolheriam, o distrairiam de si mesmo. Apertara todos os botões por um último momento dentro de si mesmo, antes da fuga, da sociabilização. Mas não deu tempo. O elevador já chegara ao destino. Abriu a porta, adiando as questões internas. A luz acesa do hall iluminou a porta quebrada do 124, que estava em reforma. Daniel tentou abrir a porta do 123. Estava trancada. Tocou a campainha, de leve. O silêncio que se seguiu levou Daniel a cogitar a possibilidade improvável do dono da casa não ter escutado a campainha. Se fosse o caso, Daniel eventualmente ouviria algum ruído vindo da casa enquanto esperava, sentado, com a mochila jogada à sua frente. Pensou em voltar ao salão do prédio e aguardar sentado no sofá. A privacidade daquele lugar era confortável demais. A luz apagou. Daniel estava invisível - nem o sensor o detectava. Ouviria muitos barulhos durante os 25 minutos em que esperaria, imóvel, na mesma posição que no elevador. Esses barulhos lhe provocariam uma série de pensamentos. Alguns jocosos, como a idéia de que alguém o estava seguindo, mas ficara desorientado com todos os andares nos quais o elevador parou. Em qual Daniel havia descido? Certamente não no 12, onde a luz estava apagada. Quando ouvia uma voz no elevador, sua mente enchia-se de uma esperança assustada - seu momento íntimo seria interrompido, e estaria numa situação constrangedora, sentado sozinho. Perguntava-se se escutaria risos e uma conversa animada do elevador, ou se os amigos chegariam sérios para estudar. Em um determinado momento o elevador passou reto pelo 12, iluminando passageiramente o hall. A iluminação promoveria outros pensamentos: será que precisamos piscar por causa da luz, ou por causa da convecção de ar que seca os olhos? A resposta óbvia veio com a sensação de início de lágrima devido à tentativa de manter os olhos abertos. Mas nem todos os pensamentos daqueles minutos seriam promovidos por estímulos externos. Daniel também pensou um pouco mais na sua relação com o pai. A cada pessoa nova que conhecia podia quase enxergar dentro de sua cabeça o pai apontando diretamente para os defeitos que julgava que a pessoa nova possuía. "Se eu acreditasse em Deus rezaria todos os dias para não absorver seus preconceitos" - em suas conversas fictícias era sempre muito duro com o pai. Porque seu pai fictício era muito duro com ele. E com os demais. Queria ter uma visão mais otimista dos seres humanos. Por que não dizer? Mais ingênua. Queria ver os outros com os olhos dos outros, julgá-los pelos seus valores característicos. Não conseguia. E o que essa visão tão cínica da qual não conseguia se livrar lhe impunha ao julgamento de sua situação atual? Resolveu voltar para casa. Algo de muito importante havia acontecido naqueles 25 minutos em que permanecera sentado. Algo que só se concretizaria mais tarde - ainda era cimento fresco. Enquanto descia sem interrupções, imaginava a possibilidade dos amigos estarem justamente subindo pelo outro elevador. Tarde demais.



Momento C, Narrador 1
O que sucederia na volta é muito simples: Daniel desligaria o celular, caminharia até o ponto de ônibus, pegaria o primeiro ônibus que parasse. Tentaria pagar ao cobrador com uma nota de 10 reais e 30 centavos em moedas, mas o cobrador não teria troco. Depois de um tempo o cobrador encheria Daniel de moedas. Daniel caminharia até a parte de trás do ônibus articulado, se equilibraria na junção enquanto o ônibus executaria a curva final. Desceria pelo lado esquerdo do ônibus, caminharia em um passo lento até seu apartamento. Entraria em casa e teria o seguinte diálogo com a colega: "Olá, boa noite" "Boa noite" "Um amigo seu ligou" "estou com muito sono, estou indo dormir. Até amanhã" "até amanhã". Entraria no quarto, daria uma volta na chave, deitaria na cama e choraria durante algum tempo. Um choro que não vinha só daquele momento.

24/02/2008

Substantivo

- André << atordoado >>, ainda bem que tenho você. Não sei mais o que fazer, << soluços medrosos >> vejo essa criatura medonha, seu vulto, seu rastro, passando ligeiramente atrás de mim pelo reflexo da janela nessa noite escura. Esse ser monstruoso é conjurado a cada vez que pronuncio seu nome terrível, "<< terrível! >>". Está me espreitando, me perseguindo, me atordoando. << medo >> ... << suspiro >> Mas com você ao lado sei que esse demônio inteligente, asqueroso, ágil, é apenas fruto de minha imaginação. Você não o viu nesse exato instante em que o conjurei, como senti acontecer, subir pelas escadarias que levam a meu quarto para aguardar-me no escuro, dentro do armário ou embaixo da cama. Você vai me afirmar que ele não existe, de que outro modo você estaria tão calmo, tão seguro?

- Meu caro Ricardo << tranqüilo >> , essa criatura que você descreveu, que tem te perseguido e te atormentado por tantas noites, certamente não existe. Não vi nenhum vulto sinistro subir as escadarias para seu quarto. Se me permite, "<< terrível! >>" << experimentando >> .


<< silêncio >>


<< prendendo a respiração >>


<< descorando >>


- Ricardo << soluços de um choro irreprimível entrecortando essa fala >> , não sei como dizer isso, não sei se você acreditaria, não sei nem se eu mesmo consigo acreditar! Não posso mais te servir de apoio, consolo, proteção. Pois acabo de ver esse ser abissal, que agora também (sinto) me espreita, me aguarda, me agourenta.

16/02/2008

O conto abaixo

O conto abaixo foi iniciado no dia 18 de Janeiro de 2008, e terminado em 16 de Fevereiro de 2008.
É o conto mais longo do blog, sugiro copiarem, colarem no word para lerem melhor (talvez imprimir). Espero que gostem, boa leitura.

Prelúdio e Fuga em prosa menor

Prelúdio

Ariel sonhava um mundo possível dentro do nosso mundo, no qual o mendigo Vinicius era um superherói que não conseguia dinheiro ou uma vida digna por meio de seu heroísmo, a travesthy Madonna tivera no passado um duradouro relacionamento lésbico do qual florescera um filho ou filha alternando sob as influências libertárias de suas duas mães divorciadas. A liberal Elisa no ano que completaria sessenta anos comemoraria sessenta amantes (uma média de 5 por mês!), Leonel se deixaria seduzir por uma dominatrix, com quem teria emoções tão intensas que o absorveriam de todas as trivialidades que o atormentam a cada instante (que invariavelmente deixa(va) transbordar de si para afogar os circundantes). Nesse mundo sonhado, Ariel, a despeito de uma maldição que lhe havia sido jogada, de por onde andar apenas encontrar pelo chão moedas de 1 ou no máximo 5 centavos, ainda haveria de encontrar centenas de moedas mais valiosas, não parando nas de 1 real, pois as mais antigas, de colecionador, valeriam mais que seu peso em platina. Enquanto totalmente chapado, trazendo, além das alterações químicas vindas de fora, as veias carregadas de serotonina e adrenalina das noites de amor, prazer e dor consentida, olharia pela janela, para o escritório ao lado, e veria, para seu espanto (encanto), subvertendo a ordem da sociedade do consumo em prol de seus desejos primitivos irreprimíveis, as duas dentre quase mil e quatrocentas pessoas que a cada instante devem estar transando, considerando uma média de 15 minutos de sexo por semana por pessoa igualmente (im)prováveis em qualquer instante da semana.

Fuga

1 - Ariel:

Qual o sentido da vida? Pareceria, a um observador de fora, como é o caso de Ariel, que para o mendigo Vinicius o sentido da vida estava em absolutamente todas as coisas, como o ar que respiramos. O fato de estarmos vivos para mais um dia... Para Leonel a vida era feita do cuidadoso planejamento para desfrutar da família e da arte em segurança. Elisa acreditava que o sentido da vida estava na felicidade, em sentir-se bem consigo mesma e desfrutar de todas as pequenas coisas prazerosas. Para o próprio Ariel, um ser curiosíssimo cujo maior prazer era a busca de objetos valiosos pelo caminho, aí estava o sentido de sua vida (uma versão distorcida do sentido de Elisa...). Madonna, por fim, via a vida como a constante e dolorosa afirmação de si mesma, como uma cicatriz que se faz ver por seu portador. Mas isso tudo, eu dizia, eram aparências absorvidas de fora, resumidas simplisticamente. Observemos mais de perto o caso de Ariel...

Quando pequeno, seu bisavô lhe trazia da rua pequenos objetos encontrados pelo chão. Por motivos já apagados pelas décadas, foi desse forte e feliz homem que Ariel herdou seu conceito de felicidade, e o ritual de caminhar pelas calçadas olhando o chão foi conservado até a idade adulta. O que fazia com os objetos encontrados variava... era muito comum lavá-los e entregar a alguma de suas paixões platônicas do presente, escolhendo a pessoa a quem o presente caberia melhor. Algumas das coisas guardava para si mesmo, como a ponta de um beck, guardado por meses até ser finalmente desfeita e ter seu conteúdo blendado a outra erva, sendo re-bolado em um novo cigarro utilizado em uma reunião de amigos. De todas as coisas que encontrava, não guardava muito carinho por "nenduas", desfazendo-se delas conforme a ocasião apropriada. havia um tipo, entretanto, do qual nunca se desfazia (a não ser numa ocasião em que precisou muito de dinheiro, tendo arrependido-se amargamente do ocorrido desde o fatídico evento): moedas. Em seus mais de 10 anos de perambulação atenta pelas ruas (antes da terrível maldição), acumulara porcos e mais porcos de cada tipo de moeda. E agradáva-lhe um estranho divertimento de dar a cada porco o nome de um compositor (o pobre César Franck, arrecadador das nobres moedas de 1 real, foi quem sofreu o assassinato que mancharia a alma de Ariel por toda a eternidade, tendo sido sua função transferida a Maurice Ravel e, quando este aposentou-se, Richard Strauss tomara a profissão).

Sendo Ariel uma pessoa muito culta e dada à leitura de contos fantásticos, uma fantasia lida prendeu sua atenção - a história de um colecionador de moedas. Não como ele, que gostava de encontrar suas próprias moedas, mas um rico e inescrupuloso comprador, tendo a seu serviço dezenas de confeccionadores de moedas, bem como informantes e ladrões espalhados pelo reino. Nessa história, ao final da vida desse burguês celerado, já não havia no mundo nenhuma moeda cujo tipo não encontrava semelhante na imensa coleção, ou que, de um novo governo em formação, não tivesse seu formato já previsto e esculpido por um dos artesãos do burguês. Após meses de desespero, um informante retornara de suas expedições com notícias de uma moeda encantada, a mais radiante e bela de todas as moedas. Uma moeda que, dizia-se, uma vez possuída, eliminaria qualquer necessidade ou desejo de outra moeda, a moeda para encerrar a coleção, a obra da vida do nobre burguês. Entretanto, para obtê-la, o inescrupuloso burguês teve de lançar mão de quase todos seus recursos e seu dinheiro (travou uma guerra particular, literalmente, contratando um exército mercenário), acumulando no decorrer uma quantidade copiosa de novos ítens numa coleção de espécie singular: a de inimigos. Obteve, por fim, a moeda tão desejada, do decepado braço de seu rival, mas a que custo... seus inimigos acabaram por arruiná-lo e seus miseráveis últimos anos deixaram-lhe, no momento da morte, como espólio a quem encontrasse (já que não tinha herdeiros), como únicas possessões os trapos que vestia e a encantada moeda, que provou-se amaldiçoada, pois cada um de seus detentores foi vítima de diversos tormentos.

Ariel era um humanista fervoroso e muito dado à filantropia. Não só lhe agradava presentear os amigos com os achados da rua, como dedicava quatro horas por semana a visitar doentes terminais do hospital perto de sua casa, ouvindo suas histórias e oferecendo-lhes às vezes uma visão de mundo com belezas sutis e que em alguns casos podiam até despertar centelhas de esperança nos enfermos mais sensíveis, recebendo em troca uma coleção de experiências e visões maduras de mundo, por vezes excessivamente pessimistas. Talvez Ariel desejasse um conhecimento transcendental, maravilhoso e único. Um desses pacientes, um senhor de quase setenta anos, padecia de um câncer fatal no pulmão em provável decorrência do vício do tabaco. Afeiçoaram-se um ao outro rapidamente. O Senhor W... ainda conservava um brilho nos olhos e o otimismo de quem encontra prazer em cada um dos últimos dias de sua vida. Suas histórias e estórias encantavam Ariel, e muitas delas ainda seriam escritas por ele em seus contos particulares. Seus ensinamentos moldariam para sempre a personalidade e os ideais de Ariel, que passava até mais do que quatro horas por semana com W..., contrabandeava-lhe cigarros, maconha e até cocaína numa ocasião, assim como muitos de seus achados. Pode-se dizer que W... era uma de suas paixões platônicas, até que um acontecimento o afastou para sempre de seu tutor (que morreu sozinho, arrependido) (embora seus ensinamentos e sua imagem tivessem permanecido com seu valor inalterado à lembrança de Ariel), assim como dessa mórbida forma de filantropia. É o que se narra no parágrafo seguinte:

O senhor W... sabia que não lhe sobrava muito mais tempo de vida, e há tempos nutria um profundo desejo que tinha muito medo de não ver realizado e que por conta disso o impeliu a ser muito mais precipitado do que deveria... numa noite em que Ariel dormiria em seu quarto, depois de fumarem maconha clandestinamente, W... confidenciou que havia roubado uma coisa para ambos usarem, apresentando a Ariel uma cartela de Lexotan. Aproximadamente 30 minutos depois de tomarem dois comprimidos cada, ficaram muito sentimentais, chorarando juntos não por tristeza, mas pela emoção e pelo amor que tinham um pelo outro. Conversaram por bastante tempo, até que o assunto chegou na sexualidade. Ariel era bastante liberal, tendo diversos amigos gays e até uma amiga travesthy, Madonna. Entretanto, nunca sentira nenhum desejo por homens nem por travestis, apenas por mulheres (o desejo tímido e amedrontado de um adolescente inexperiente, embora Ariel tivesse 25 anos na ocasião, e algumas experiências com mulheres). W... lhe confessou ser gay, algo que Ariel já sabia. Depois disso, W... lhe confessou que sentia muito desejo por ele. Como em outras vezes que isso lhe aconteceu, Ariel logo pôs-se a afastar as esperanças do pobre W..., mas este soube usar dos sentimentos aflourados naquela noite, aos poucos foi convencendo Ariel de entregar-se a uma experiência. O amor deles ia além disso, W... era um homem deitado numa cama à espera da morte. Ariel estava especialmente carente, talvez devido ao efeito do Lexotan, e lhe agradava a idéia de oferecer ao seu ídolo um último prazer intenso. W... permanecia calmo e soube usar as palavras certas para acalmar Ariel, que a cada instante voltava a se assustar, mas não muito, talvez devido ao efeito do Lexotan. Foi convencido a desnudar-se e desnudar o velho, tudo muito lentamente. O corpo de W... causava um pouco de repulsa a Ariel, com sua púbis e próstata inchadas, seus testículos grandes e soltos na extendida bolsa escrotal, seu pênis, apesar de circuncisado, retraído com a glande parcialmente coberta por pele. Ariel, por sua vez, apresentava ambos testículos e pênis retraídos, talvez por receio. Começaram a acariciar-se mutuamente os genitais, e depois do que pareceu bastante tempo, o pênis de W... começava a apresentar sinais de ereção. O de Ariel, ao longo de toda a experiência, permaneceria flácido (talvez devido ao efeito do Lexotan). Encarava tudo como uma espécie de sacrifício pessoal em benefício de alguém que admirava muito. Deixou o velho tentar enrijecê-lo com o uso da boca, e depois de mais algum tempo acabou convencendo-se de fazer o mesmo por W... A experiência não foi muito além disso, W... dormiu fatigado e extasiado, e acordou sozinho em seu quarto do hospital. Ariel ficou bastante assustado, não soube como lidar com isso. Um dia iria aprender, e também estava fadado a levar para o túmulo o remorso por sua reação ao ocorrido.

Aproximadamente um mês depois desse último encontro, bateram à porta da casa de Ariel. O Senhor W... havia falecido e deixado para ele uma caixa, assim como uma carta, na qual lamentava profundamente o ocorrido, esperava que Ariel não guardasse dele apenas a recordação ruim. No verso, dizia que havia guardado dele um segredo, de que fora detentor da tal moeda encantada que constituía a herança de Ariel. Dizia sobretudo para não temê-la. Os piores males de sua vida eram obra de suas próprias ações, não do encantamento da moeda. Não apenas isso, mas a moeda continha um encantamento positivo capaz de cosolar dos infortúnios nos quais se metesse e que a felicidade com que ele se apresentava a Ariel todos os dias desde o primeiro encontro era em boa parte decorrente desse encanto. Ariel abriu a caixa, e dentro dela resplandecia sua preciosidade. Nesse ponto, eu, narrador, uso um recurso muito antigo do qual particularmente tendo a abusar, que é o de apelar para a impossibilidade do meu teclado de computador registrar com letras uma beleza que em tanto ultrapassa as possibilidades das palavras. Incapacidade, preguiça, o que quer que seja.

Naquela noite, antes de dormir ou depois, Ariel sentiu um prazer tão intenso que só encontra paralelo em opiáceos. Ainda no dia seguinte ao acordar sentia seus efeitos etéreos. A possessão de um objeto tão valioso via como uma recompensa, não pelo sacrifício erótico a que se submetera, mas por todo um conjunto de valores pessoais que o levaram a procurar coisas valiosas no percurso de sua vida em qualquer que fosse a fonte: calçadas públicas, casa de uma travesthy, leitos do hospital. De fato, a moeda "encontrada" era tão valiosa que julgava jamais ser capaz de encontrar qualquer coisa comparável a ela. Suas buscas perdiam parte do sentido nesse momento.

Na noite seguinte, Ariel teria um sonho do qual se lembraria em absolutamente todos os detalhes, algo até então inédito. Uma mulher muito bonita... uma deusa, para ser mais exato, de cabelos e pelos vermelhos, olhos verdes, tez rosada, envolvida em um vestido de tecido gasoso transparente e gelado. Dizia ser a alma da moeda encontrada. Que proporcionaria prazeres nunca nem ao menos sonhados, como os da noite anterior, enquanto mantivesse a moeda em sua possessão. Entretanto, tambem haveria de cuidar das necessidades dela. Paratanto, bastava de início que parasse de se doar tanto a compositores supervalorizados. Ariel neste momento fitou-a com uma expressão tão inequívoca de dor e sofrimento que a deusa se compadeceu. Uma concessão, neste caso: apenas a Schumann, o Louco, e a Schubert, o Miserável, seria permitido alimentar. E nem que tentasse, não encontraria meios de se dedicar a nenhum outro, a não ser que se desfizesse da moeda maravilhosa, que exigia para si por completo o altar de Beethoven. E esse altar não seria porco, mas gato. A deusa então desapareceu com o súbito despertar de Ariel, continente no meio da noite. Após usar o banheiro, voltou a dormir, sonhando novamente com a deusa Beethoven, que desta vez o presenteou com uma amostra do prazer que desfrutaria entregando-se a seu comando irrestrito. Era através de uma dominação extremamente sensual e controle completo de Ariel que ela despertava desejos que ele em vão tentara esquecer ao longo de seus anos. Esse sonho, no entanto, não pôde ser recordado em todos os detalhes, deixando apenas seu sabor na memória de Ariel: prazer e dominação. Mais especificamente, prazer por meio de submissão.

Como pode-se supor, Schumann era o porquinho de 5 centavos, Schubert o de 1. Ariel ainda tentou em vão encontrar moedas mais valiosas pelo chão, por vários dias. Pesava os prós e os contras de ter um objeto que exigia tanta dedicação quanto Beethoven, mas o sentimento por tê-la encontrado superava infinitamente qualquer prazer conhecido até então. Depois dessa pequena rebeldia, resignou-se a aceitar o fim de sua coleção e parou de procurar objetos pelo chão. Por um lado, suas noites eram recheadas de amor, prazer e dor consentida. Seus sonhos um refúgio maravilhoso. Por outro, o sentido de sua vida havia sido procurar e encontrar coisas belas. Agora havia sido impelido antes de sua vontade a desfrutar do mais belo de seus achados. Seus amigos ressentiam silenciosamente o fim dos curiosos presentes.

Do sonho da noite de 31 de Março, Ariel lembrava o seguinte diálogo:

-Eu havia exigido o altar de Beethoven na forma de gato. Não vi nenhum esforço de sua parte nessa direção.

Beethoven empunhava um chicote com o qual proporcionava prazeres que não convém ao tom desse conto descrever com muitos detalhes. Permito-me ressaltar ao leitor, entretanto, que, quando em sonhos, certos excessos não resultam em consequências prejudiciais à saúde do corpo.

-Mas como haveria eu de apreciar a visão tão bela de seu corpo físico quando este estiver dentro de um gato?

-Apreciará quando quiser, isso posso lhe garantir. Sou e hei de ser sempre sua, enquanto me aceitar.

Começou em Abril um novo projeto. Confeccionou ele mesmo uma escultura de vidro em forma de gato, com a moeda no centro. Assim ganhou duas coisas: poderia olhar sempre para ela, além de todo esse esforço ter sido muito apreciado e recompensado por Beethoven. Terminou no tempo exato de comemorar um ano de maldição. Ariel estava perdido. Era como um trabalhador que se aposentava. Qual seria sua função agora que estava impedido de fazer exatamente aquilo que em última análise o levara a Beethoven? Continuava adiando a reestruturação de sua existência, usando sempre como consolo o fato de a qualquer momento poder se desfazer de Beethoven. Apenas não desejava isso ainda. Às vezes enxergava esse fim, para então tornar a caminhar como antes, procurando... mas procurar o quê se já havia encontrado? Perto de Beethoven qualquer descoberta era pálida. Por outro lado, não podia sacrificar sua vida por um sonho. Por ainda outro lado (mas que polígono!), essa tendência vulgar de separar tanto as coisas, desconsiderar o sonho (8 horas por dia, um terço do tempo) como se não fosse parte da vida humana, era totalmente desprezada por ele.

Como era de se esperar de uma vida cujo refúgio de felicidade encontrava-se no sonho, Ariel passou a sonhar mais. Passou a sonhar desperto também. Em seus sonhos diurnos, sonhava um mundo possível dentro do nosso mundo. Mas depois de sonhar esse mundo por um tempo, sozinho retornou à realidade, e percebeu o quanto era infantil a visão de universo que gerava esse mundo dentro do nosso. Em seus anos de vivência já seria capaz de algo mais sensível do que isso. Então reestruturou sua visão sobre todas essas pessoas (com exceção talvez da idéia de Vinicius ser um super-herói), misturando o que sabia com o que inventava, dessa vez de forma mais coerente, gerando essas histórias seguintes:

2 - Leonel:

Leonel era uma dessas pessoas para quem a risada era um ato essencialmente de comunicação. Por mais engraçado o que estivesse lendo (e não havia nada que ele fizesse com mais afinco do que ler), Leonel nunca ria sozinho. Entretanto, mesmo que estivesse desfrutando de um prazer tão solitário quanto a leitura, se houvesse mais alguém na sala, ria até mesmo das pequenas ironias sem graça de certos escritores. Na noite do dia 31 de Março, enquanto eu estava tendo um sonho molhado e prazeroso, Leonel em sua insônia lia um livro sobre uma sociedade na qual o poder de contar histórias (contos, como esse) era privilégio apenas de uma classe. Dessa forma, essa classe criava valores e ditava os rumos da sociedade. O fato era ilustrado por muitos exemplos de como nessa sociedade uma ficção podia moldar a realidade. Eu não saberia dizer se a história dessa civilização era real ou fictícia. Em casos como esse não chega a fazer diferença para mim, basta o fato de ser verossímil e coerente. Leonel era diferente. Leonel sabia se era "verdade" ou "mentira". Se fosse eu o leitor desse livro tão curioso, certamente teria passado os meses de Abril, Maio, talvez até Junho influenciado por essas idéias. Tanto poder nas mãos da criatividade! De que forma não seria a nossa realidade também moldada por ficções, contos, casos. Eu nunca fui assaltado, mas já ouvi tantas histórias... Mas o leitor desse livro nesse último dia de Março não era eu. Leonel, ao contrário, tem uma personalidade muito mais forte que a minha. Lia, guardava a história, começava outro livro e seguia o curso de sua vida inalterável. Talvez devido aos mais de trinta anos de experiências a mais que eu para diluir toda essa informação nova. Nenhuma dominatrix iria distraí-lo das banalidades da vida cotidiana que o incomodavam, pois não eram meras banalidades que o atormentavam. Eram banalidades, sim, os tormentos que deixava extravazar. Por exemplo, foi um dia com sua então mulher, depois de alguns anos de casado, numa lanchonete um pouco mais barata. Serviram os sanduíches, bem como os sachês de condimentos. Leonel abriu um sachê de ketchup e estava colocando no seu sanduíche, quando viu que sua mulher havia tentado abrir o sachê na vertical, ocasionando um rasgo nada propício para a saída da maionese que tentava colocar no seu hamburguer. Ela apenas comentou "detesto quando isso acontece". Leonel chegou a ficar bravo com ela. Na sua visão, sua esposa estava culpando uma espécie de força desconhecida por algo que ela havia causado e que estava no poder dela aprender o que fazia com que "isso acontecesse", desenvolvendo uma técnica adequada para abrir sachês de condimento para não ser condenada a passar o resto da vida reclamando quando "isso acontece". Por causa de casos como esse, em minha visão infantil, imaginava que uma dominatrix poderia distraí-lo de todas essas banalidades cotidianas. Não tinha parado para refletir que Leonel passara a vida em busca de um ideal de família do qual obtivera apenas pedaços distorcidos. Sua primeira mulher mudara de país com seus dois filhos, com os quais só conseguia falar de vez em quando a altíssimas tarifas de telefonia a distância. Isso sem contar a vez que ela mudou o telefone sem avisar ninguém, deixando Leonel desesperado atrás de uma maneira de falar com seus filhos. Vivia numa casa sublocada, com um salário indigno, o peso de três casamentos arruinados ("mulher dura pouco, mas ex-mulher é para a vida toda") e um histórico de depressão na família. As pequenas banalidades do dia a dia o lembravam do quanto seu ideal de vida teve de ser flexionado, fraturado, tudo por pequenas coisinhas, uma de cada vez. Para completar o quadro, já pertencia à mais antiga geração de sua família, a próxima a desaparecer. Seu consolo último era o desfrute, aos seus sessenta anos, de uma amante madura, embora dez anos mais jovem que ele:

3 - Elisa:

A liberal Elisa. Orgulhava-se por não ter tido filhos. Vivera a época entre a descoberta da pílula e a disseminação da AIDS. Quem a conhecia era influenciado por seus valores liberais - poligamia, libertinagem. Desde que, é claro, feitos com segurança. Elisa desprezara o casamento, desprezara filhos, a única coisa que prezava era sua liberdade, as infinitas possibilidades abrindo-se como a vagina de uma mulher quando estimulada... mas agora sentia que perdia uma parte inportante desses lábios de possibilidades. Não poderia mais ter filhos e era muito pouco provável que se casasse. Um caminho para o qual fechara as portas agora fechava as portas para ela. Elisa continuava não desejando filhos ou marido. Mas, ainda assim, era doloroso escorregar em direção ao vale de sua linha da vida. Ainda era desejada, sim, uma "coroa gostosa". Ainda poderia tirar cabaços de garotos tímidos na flor da idade. Mas... por quanto tempo? Quanto tempo até que a vida lhe fechasse a porta das possibilidades que a agradavam? Sessenta amantes aos sessenta anos, ah, como eu desejava que fosse possível! Tal como Sade, gostava de dar números aos desejos, passava tardes enumerando seus amantes imaginários de acordo com os gostos sexuais. Este entregava-lhe um "cinto-pinto" e queria ser comido por ela. Aquele fazia seu corpo curvar-se para frente enquanto segurava seus braços por trás, de maneira dolorosa, deixando-a totalmente incapaz de oferecer qualquer resistência ou fazer qualquer movimento, enquanto penetrava-lhe o que quisesse ouvindo seus gemidos. O outro queria que lhe chutasse o saco inúmeras vezes, até que se recolhesse em posição fetal em agonia e êxtase, numa espécie de preliminar antes de uma relação selvagemente prazerosa. Haviam os que tinham sua excitação redobrada ao ouví-la falar, "surpreendida", do tamanho enorme de seus pintos (que nem sempre eram grandes). Esses também gostavam de segurar sua cabeça durante a felação. Tinha aquele que não conseguia uma ereção até que ela lhe assegurasse que seu pênis tinha um tamanho normal (o que era verdade). Ainda havia um terceiro que gostava que lhe humilhasse ridicularizando o tamanho do seu instumento, rindo dele e desprezando sua capacidade como amante - lhe satisfazia com cunilingus pois gostava de pensar que era incapaz de dar prazer a uma mulher de outra forma. Ah como as mulheres eram diferentes (e em tudo que fazia por uma podia ter certeza de receber em troca uma amostra do mesmo tipo de prazer), havia uma que gostava de ser lambuzada com mel, depois lambida inteira. A brincadeira não acabava por aí - depois tomavam juntas um banho sensual de banheira durante o qual cada uma levava a outra ao orgasmo diversas vezes. Outra gostava de ser vendada e ter pedras de gelo passadas lentamente em seu corpo (mas não gostava nem um pouco de ter a pedra de gelo inserida em qualquer orifício seu). Uma segunda também era vedada, além de amarrada. Então Elisa deixava escorrer cera quente em seu umbigo, subindo pela barriga, até os mamilos. E ela realmente adorava. E as orgias... tinha uma garota que Elisa maltratava como a uma escrava, até que seu próprio dono chegava para castigá-las - um homem, e se fosse negro ainda melhor. Comia ambas de forma degradante, fazendo uma lamber na outra a prova de sua virilidade. Imaginar essas sexualidades diversas era uma de minhas fugas-de-realidade favoritas, e Elisa a representante máxima da possibilidade de conhecê-las todas. Palavras dela: "Que maneira melhor de chegar ao âmago de uma pessoa do que encenando suas fantasias? Se uma pessoa sente-se à vontade para realizar com você uma fantasia, o que ela lhe ocultaria? Se você deseja compreender realmente os outros seres humanos, é imperioso que se transe com eles". Elisa era psicóloga. Freudiana, mas havia passado por uma fase reichiana. As pessoas em geral não gostam de Freud - sentem ao entrar em contato com suas idéias de que o ser humano é uma máquina de acumular doenças. Preferem pensar que o passado é apenas uma fonte de experiências que elas irão dispor como preferirem. Não gostam da idéia de que o comportamento e até parte da personalidade delas tenha causa específica. Me diga um livro de auto-ajuda que não despreze Freud? Que não diga que temos o poder de moldar nosso futuro independentemente de nossas origens? Outra coisa que as pessoas não gostam é da idéia de que a origem de todas essas doenças está ligada a nossa sexualidade. Preferem pensar em sexo só quando estão lúbricas (ou quando esse interesse lhes é explorado para vender algum produto), reduzir sua importância e viver duas vidas separadas, dando até um nome especial para a outra vida, a Vida Sexual. Outras pessoas agarravam-se à sua sexualidade com tal força que eram forçadas a passar a vida afirmando-se como ser existente, para não desaparecerem. Numa eterna luta para ser aceita pelos outros (para assim finalmente provar a si mesma sua auto-aceitação) encontrava-se a vizinha de Elisa, representante dessa difícil afirmação da própria sexualidade à sociedade.

4 - Madonna:

Madonna tinha aversão a amapoas (as travesthys absorveram muitas palavras da língua africana bajubá, que se tornaram gírias próprias, expandindo-se para outras partes da comunidade gay. Uma possível explicação para a relação entre a língua africana e o modo de vida das travestis é o fato de muitas terem um lado bruxa, frequentando terreiros de umbanda e candomblé, sendo essa cultura muito mais receptiva e amistosa ao modo de vida travesthy do que qualquer outra). Embora pudesse ser uma boa babá, jamais seria capaz de fazer uma criança. Situada numa sexualidade que ultrapassava as barreiras de gênero, era procurada por ocós que desejavam uma Gisele Bundchen com neca, um nicaô para comer-lhes o edi. Mas, como a maior parte das travas, Madonna se entregava a esse ato apenas para agradar ao parceiro ou para conseguir aqüé nos tempos em que fazia programa. Seu maior desejo sexual era poder agir como a amapô que era, entregando-se ao sexo de forma passiva, algo raramente permitido a uma trava nos seus encontros sexuais usuais, que são os casuais. Apenas em relacionamentos mais estáveis obtinha esse tipo de satisfação. Madonna lembrava que a música Geni e o Zepellin, de Chico Buarque, é o canto de uma travesty. Perseguidas pela sociedade (mais de uma vez Madonna apanhou na rua sem motivo aparente), consideradas o lixo do lixo, eternas habitantes do submundo. Foram elas que levantaram a bandeira para a causa gay na maior parte do mundo (inclusive, Junho é mês do Orgulho Gay por conta de um evento na madrugada de 27 para 28 de junho de 1969, quando um grupo de drags e transformistas foi assediado por alibãs no bar Stonewall, em New York, resistindo à prisão e iniciando um conflito que duraria três dias, até que o prefeito se comprometeu a encerrar a perseguição de gays, lésbicas e transgêneros). Em São Paulo, no primeiro esboço de parada gay, um ato na praça Roosevelt reunindo cerca de 500 pessoas em 1996, eram na maioria drags e travestis, pessoas sem medo de se expôr, que iniciaram o movimento pelos direitos da diversidade sexual. Depois são obrigadas a pagar mais caro e restritas a certos ambientes em baladas gays que provavelmente nem existiriam sem a luta delas.

Mas para além do ativismo político havia uma pessoa, originalmente um ocó, que teve de se romper em mil pedaços para tomar essa decisão que moldaria todos os dias de sua vida. Transformar-se em uma cicatriz para o mundo, o retrato do que as pessoas não querem ver. E para justificar a si mesma, encarar o papel de mártir em todas as suas facetas - viver cada noite numa empolgação confundida com cocaína pelos demais - mas sem nunca usar drogas, ajudar os necessitados, sustentar a família que um dia a expulsou de casa e encarar o fato de apenas se mostrarem amigáveis por ser ela quem traz o dinheiro. Enfrentar as intrigas dos colegas de trabalho, sua indignação por ela existir. Resignar-se a migrar de local de trabalho o tempo todo. É claro que havia uma válvula de escape: Madonna escrevia aquele grito tão alto que não gritava (ou que quando gritava ninguém ouvia). Acostumada a se expor, atualizava um fotolog com fotos suas bastante sexualizadas, acompanhadas dos textos que comprovavam sua autoconsciência - do que representa para si e para os demais - um escombro, um perigo, um incômodo, sexo sem corpo. Em seu fotolog vomita as mágoas de uma existência tão difícil - é difícil para Madonna existir. E os visitantes comentam, mas nem sequer entendem aquilo que ela escreve, apenas acham bonitinhas as fotos. Cada um vê nela o que quer ver. Para aqueles que julgam sem conhecer, era uma caricatura do que há de mais promíscuo e vulgar no mundo, um ser reduzido a sua sexualidade. Para outras travestis e pessoas iniciando-se no universo transformista, era uma guia espiritual, culta, inteligente, uma veterana de tudo que havia para se viver nessa vida, com suas classificações dos tipos gays que habitam o mundo por aí, seu domínio do dialeto travesthy, a grande e protetora anja Madonna das transformistas. Para mim, Madonna era a representante dos mártires dos dias de hoje, com sua conduta perfeita para nunca ninguém poder dizer que merecia as condições na qual vivia. Uma amapoa altamente sexualizada, com poderes de deixar constrangida qualquer pessoa não habituada ao seu mundo. E também um ser humano muito inteligente, melhor escritora do que eu. Uma vez eu estava fazendo uma peça sobre um rapaz que refletia sobre o suicídio na beirada de um prédio, com a peça terminando antes da conclusão. Madonna me disse que o rapaz devia refletir sobre o suicídio olhando a xícara de chá que acabavam de lhe ser servir num café. O suicídio era uma indagação cotidiana, não o ápice de uma vida.

Na noite do dia 31 de Março, Madonna ouviu a campainha. Lembrou-se que tinha oferecido a casa para um amigo que vivia na rua tomar banho e talvez dormir no sofá. identificava-se com ele pela solidão em meio à maior metrópole da américa latina. Antes de tudo, acomodaram-se na mesa de madeira da sala para uma conversa amigável.

5 - Vinicius:

- Já te contei de como acabei parando na sarjeta?

- Você me disse que uma ou mais amapoas acabaram te arruinando. Ocó esperto vai atrás de ocó...

- As mulheres só nos amam enquanto temos dinheiro. Depois elas vão embora e a gente continua mandando dinheiro...

- Aceita alguma coisa?

- Um copo de água.

- Ainda bem, pois não tenho cerveja em casa.

Silêncio enquanto separados pela parede da cozinha

- Bonito seu mural de recados

- Ah, lembra aquele bofe que colecionava moedas que você conheceu aqui? Ele que fez esse mural com placas de madeira e isopor que encontrou na rua, e papéis de chocolates, balas, etc.

- Ah, sim, o garoto que andava com a cabeça baixa mesmo feliz, procurando coisas pelo chão. Espero que esteja bem.

- Não sei dizer, nunca mais nos falamos. Como vai você?

- Precisando desabafar. Sabe, andar na rua é uma coisa complicada. Sempre tem alguém pra te ajudar, até quando você não precisa. Já fui daqui ao mar andando, e não faltou nada. Ah, mas de vez em quando as pessoas decidem te ignorar, e como dizer isso... já cheguei a pensar que era invisível. Sabe, você fala com uma pessoa, não precisa nem pedir nada. Ele passa os olhos rapidamente por você, depois vira para frente e finge que você era só uma ilusão de ótica. Preferia que a pessoa simplesmente falasse, sabe, "sua existência me incomoda", aí eu pelo menos podia ter certeza que existo.

- Quer tomar um banho?

- Obrigado, já vou. Madonna, sabe, quando te conheci nunca achei que você pudesse ser uma boa pessoa. A gente vem carregando tanto preconceito... mas hoje, quando penso em você, você é a pessoa que mais confio. Na verdade, a única pessoa que confio. Eu nunca desabafo com ninguém, sou uma pessoa muito alegre o tempo todo

- Ah, eu sei como que é. Eu nunca fico reclamando da vida verbalmente, você sempre vai me ver alegre.

- Sim, mas com você é diferente. Eu me sinto à vontade para derramar sobre você aquilo que sou realmente, para ser pessimista, para pedir apoio. Apoio emocional, pois dinheiro ou chuveiro muita gente pode me dar.

(e você nunca vai fazer o mesmo por mim. Mas tudo bem, já estou acostumada a essas coisas...)

- Madonna, eu queria te contar uma coisa que nunca contei a ninguém...

- Ah, e o que é então?

- Eu não falei a verdade sobre como acabei na sarjeta. Ah, se eu soubesse que ia acabar assim tinha atravessado a fronteira do México com os Estados Unidos com meu irmão. Ele está muito bem hoje, e eu tentando recuperar o que perdi... queria minha conta bancária, meus números todos de volta. E também um lugarzinho para morar, com carro na garagem... ah mas eu volto a ter isso, vou voltar a cortar cabelos...

- Meu bem, páre de tergiversar e conte logo!

- Eu tenho tanta vergonha disso, me sinto tão burro, eu que sempre me achei inteligente. Nunca terminei os estudos, isso é certo. Mas me achava muito mais esperto que todo mundo. O que acontecia com os outros não ia acontecer comigo, porque eu era esperto. Quando eu estudava tirava mais nota que todos os meus colegas, saí porque meu pai me fez trabalhar...

- Por que você está na rua, Vinicius?

- Por causa de drogas. Não me olhe com essa cara de "é sempre assim", comigo foi diferente, acho. Eu sempre soube que não era para tomar essas merdas todas. Eu não era idiota. Mas eu tinha encontrado a fonte da felicidade, sabe? Uma pílula da felicidade! E eu não ia ser idiota de reduzir minha vida a isso, igual vi meus colegas fazerem. Eu tinha nas minhas mãos o segredo do universo, e fiquei dias pensando no que fazer com aquilo. Sabe, a felicidade tem uma razão de ser na nossa vida, foi isso que concluí.

(Tem ela uma razão de não ser na minha vida também?)

- A gente não pode simplesmente ficar brincando com ela, sabe, de repente ao invés de sermos recompensados por fazermos algo bom de nossas vidas, a felicidade nos é dada como recompensa por engolir um tóxico... isso não está certo, e só pode dar errado. É por isso que não era para acontecer comigo. Eu sabia disso. Mas eu queria ser uma pessoa feliz, e aquilo era felicidade de verdade. Então estabeleci uma regra: eu ia me recompensar por tudo que fizesse de bom, por mim e pelos outros. Ia ser igual Deus nos fez, com a diferença que eu seria MAIS feliz do que o normal... minha vida ia ser ótima. E foi... até que... bem, na época eu não era mais engraxate, já estava cortando cabelos há treze anos. E tudo ia muito bem, todos gostavam de mim pois eu fazia bem a todo mundo, minha vida profissional estava estável, casado e com duas filhas, e um estoque de felicidade escondido atrás da geladeira. Só que não acontecia nada na minha vida que me fizesse feliz. As coisinhas do dia-a-dia como um cliente que saía satisfeito, a Luiza voltando com uma nota alta da escola, um boquete da mulher, essas coisas não me faziam mais feliz, e sem me sentir feliz eu me policiava pra não tomar a pílula da felicidade, mas eu já estava de saco cheio. Então comecei a fazer boas ações, doava dinheiro, ajudava as pessoas, pra poder tomar a pílula. Quando as coisas começaram a ficar difíceis, a Fran foi embora, ou melhor, eu fui embora, deixei a casa, o carro, etc. É por causa disso que não me sinto mal de dizer que foram as mulheres que me deixaram na rua... só que na ocasião eu fiquei num hotel. Eu ainda tinha emprego... só que eu tava desesperado, viciado em felicidade. Rapidinho perdi o emprego... ah, você pode imaginar.

- ...

- ...

- E aí?

- E aí nada, acabei ficando viciado em fazer o bem, só que era muito mais fácil fazer para os outros do que para mim. Quando passava o efeito da pílula eu me sentia um lixo. Fiquei anos sobrevivendo desse jeito. Cheguei a me machucar seriamente para ajudar uma mulher num acidente, pra poder tomar aquela droga.

- ...

- Eu joguei tudo fora. As pílulas, digo. Faz mais de um ano. Às vezes me arrependo, sabe? Faz mais de um ano que não sinto felicidade... no máximo aquele comecinho que antes fazia eu engolir uma pílula e ficar extasiado por horas. E parece que ela não chega mais, sabe? Mas eu vou reconstruir minha vida, voltar a cortar cabelos, ter casa, carro, visitar minhas filhas... e não vou mais tomar aquelas pílulas, mesmo que eu nunca possa ser feliz...

- ...

- vou tomar meu banho agora.

- Vai lá. Tem toalha na gaveta de baixo, eu te empresto uma roupa minha de quando me fantasio de ocó. Eu também trabalho de vez em quando, "sabe?"

- Não precisa, eu trouxe uma roupa na minha maleta. Obrigado.

05/12/2007

Meu segundo coração

Vocês já foram a uma feira de antiguidades? Dependendo do dia tem no pátio do MuBE, no vão do MASP... em geral as peças encontradas lá são muito caras, não é como se fosse um sebo, no qual se encontram livros valiosíssimos por 1 real. Entretanto, outro dia meu pai me levou a uma, não lembro onde era, que não era tão cara. E de todas as coisas que haviam lá, tinha uma espécie de escultura de cristal, muito complexa, que eu não saberia descrever (eu tentei mas ficou ruim e achei melhor apagar), estava bem conservada, era muito antiga e essa escultura não estava cara, e eu consegui convencer meu pai a comprá-la (para mim). É uma sensação muito boa quando o Destino permite que uma pessoa como eu tenha acesso a uma coisa dessas, que só pode ter pertencido a aristocratas em outros tempos. Eu guardei a escultura no meu quarto, num móvel que fica de frente para a cama, e eu passava horas e horas admirando. Às vezes, quando eu ia ficar muito tempo no computador, mudava a escultura de lugar para ficar mais fácil de olhar para ela. Foi numa dessas vezes que eu acabei esbarrando nela sem querer, e um pedacinho se soltou. Quando eu volto da escola eu fico sozinha em casa pois meu pai trabalha, e eu estava sozinha quando isso aconteceu. Quando cristal quebra ele faz um som muito agudo, parece uma fadinha chorando. Peguei um super-bonder que tinha na geladeira e colei o pedacinho que tinha caído. A escultura é muito intrincada, e para colar o pedacinho acabei cortando o dedo. Não ficou igual era antes, agora tinha uma rachadura. Depois dessa vez, a escultura quebrou ainda muitas e muitas vezes, e eu sempre conserto sozinha, às vezes de madrugada, às vezes à tarde. E até agora não consegui consertá-la nem uma única vez sem machucar minha mão, já me acostumei com esse "custo". E cada vez ela vai ficando mais marcada, o tipo de coisa que diminui o valor dela para um possível comprador no futuro, mas que a mim só a torna mais cara... pois cada rachadura (e cicatriz) é uma lembrança, é algo que me diz respeito e que a torna mais complexa. Meu pai um dia viu minha mão e ficou até assustado com a quantidade de cortes que ela tinha. Me perguntou o que estava acontecendo, e eu expliquei que tinha cortado consertando a escultura. "Mas tantos cortes assim!?" "É que ela quebrou várias vezes...". Me disse que caso acontecesse de novo para deixar que ele consertava para mim. Menti que sim, para ele não ficar triste. Mas não ia deixar ninguém nesse mundo consertar a minha escultura. Quando eu colo um pedaço um pouco torto, ou quando falta uma lasca, continuo a achá-la tão linda quanto antes, mas se outra pessoa fizesse isso ia achar que tinham-na estragado. Da última vez que a escultura quebrou (faltei na escola ontem consertando...), caíram 4 pedaços, um deles bem mais profundo que os outros 3. Mas se eu consertasse qualquer dos 3 antes, minha mão não ia alcançar o outro pedaço. Quando enfiei minha mão para colar esse pedaço, as farpas dos outros três rasgavam meu punho, e mesmo sentindo toda aquela dor e o risco de me machucar seriamente, preferia terminar o que tinha começado. Ia ter que passar por aquilo de qualquer forma (e imagina se a mão grande do meu pai ia alcançar aquele lugar...). Sabe, meu maior medo nessa vida é um dia deixar a escultura quebrar de uma forma que eu não consiga consertar... ver todos os pedaços no chão, acho que ia ficar meses tentando encontrar uma maneira de colar. No final ia pegar um pedacinho mais bonitinho, guardar numa caixa como lembrança do que já tive e que não soube conservar. Quando minha mãe morreu, meu pai me disse que ela agora estava com Deus, e que quando Ele achasse que era nossa hora, a gente ia poder encontrar de novo com ela. Isso me ajudou muito a enfrentar a ausência dela. Se minha escultura de cristal quebrar, ninguém pode dizer que vou encontrá-la numa próxima vida...

03/05/2007

apagado