Variações
Momento B, Narrador 1:
Daniel então toca o interfone do prédio. O porteiro logo abre a porta. Trocam um boa noite enquanto Daniel se dirige ao elevador. 12º andar, apartamento 123. Enquanto a porta exterior do elevador se fecha, Daniel olha para os 4 cantos superiores em busca de uma câmera. Privacidade total. Assim que o elevador fecha a segunda porta, logo aperta o botão número 1. E o 2, e o 3, rapidamente, até o 11... Daniel senta no chão, em um canto do elevador, a cara enfiada nos braços cruzados sobre os joelhos levantados. Imóvel, enquanto cada um dos andares é anunciado em vão pela placa na respectiva porta. Atingido o destino final, Daniel se levanta, e sai. A luz do hall acende. O chão está cheio de poeira, a porta do 124 está quebrada, o apartamento está em reforma. Caminha lentamente até a porta, encontra-a trancada, toca a campainha de leve e aguarda. Nenhum som durante algum tempo. Daniel senta novamente no chão, desta vez colocando a mochila na sua frente. Esbarra sem querer na porta, o que interrompe o silêncio. Enquanto espera, ouve os barulhos dos motores dos elevadores, poucos andares acima. Cada vez que um dos elevadores pára em um andar, Daniel pode ouvir. Assim como as vozes dos passageiros, embora não possa discernir palavras. A luz se apaga - o sensor de presença não pode detectá-lo naquela posição. Privacidade total, novamente. Reconhece uma luz por trás da porta trancada, que alguém deve ter esquecido acesa ao sair. O próximo evento notável é a luz que o elevador faz ao passar pelo 12º andar, na ida e na volta. 25 minutos depois de ter sentado, Daniel levanta e caminha até o elevador. A luz do Hall se acende. Daniel desce, sem interrupções, troca um novo boa noite com o porteiro e também com um morador do prédio que estava entrando. Encontra-se novamente na rua.
Momento A, Narrador 2:
Agora:
Eram 18h. Os sons do trânsito da cidade chegavam ao apartamento de Daniel de maneira ruidosa. Daniel havia cochilado, das 14 às 16 e pouco e depois tomado banho. Era sempre assim, cochilar de tarde nunca vinha sem um alto preço, o do resto do dia. Uma preguiça com poucos precedentes tomava seu corpo, e não havia nada que pudesse fazer, a não ser, talvez, barganhar uma nova troca com a noite: um copo de café recuperaria parte de suas energias, mas custaria a noite em claro. Não sei se por esse motivo, mas Daniel não tomou o copo de café. Ao invés disso caminhou até a sacada e observou a rua por alguns minutos. Tinha de matar tempo até que pudesse se encontrar com os amigos para estudar. Ou melhor, tinha de matar tempo para que pudesse ir sem trânsito à casa dos amigos. Por esse motivo jantou. E aproveitou a televisão ligada, que a companheira de apartamento estava assistindo. Quando percebeu os barulhos da rua diminuírem, telefonou para o dono da casa, no celular. Estavam pagando a conta em um café próximo, estariam dentro de casa em pouco tempo. As experiências do passado já antecipavam a possibilidade da turma demorar mais do que o previsto, entretanto preferiu pensar que não seria possível demorar muito em um lugar onde já se tinha pedido a conta, sabendo que uma visita chegaria em breve.
Antes:
Essa não havia sido a primeira vez que falavam ao telefone naquele dia. Um bom tanto mais cedo Daniel havia ligado, perguntado por que motivo eles não tinham telefonado ontem, algo que ficara de certa forma implícito no "Amanhã vamos acordar mais cedo e podemos estudar juntos" que Daniel escutara anteontem. Depois de ouvir a explicação, Daniel combinou de encontrá-los mais tarde, quando houvesse menos trânsito. Antes de desligar, ainda conversaram um pouco sobre uma questão prática importante: anteontem, quando estudaram juntos, Daniel tinha estudado no sofá com o laptop no colo - a mesa da sala estava totalmente ocupada, bem como qualquer espaço da casa que ele poderia utilizar para estudar - eram 3 pessoas compartilhando um mesmo espaço, sem contar ele. Daniel sugeriu que todos estudassem na sua casa, mais espaçosa. Sua proposta foi recusada, pois o dono da casa precisava do próprio computador. Ficaram de dar um jeito nessa questão do espaço. Combinou de estudar uma matéria de um curso que fazia em comum com um dos amigos, portanto poderiam compartilhar o espaço dele. Daniel estava tão preguiçoso que nem sabia se conseguiria efetivamente estudar, então não era uma questão que o preocupava muito. Entre os dois telefonemas, Daniel ainda recebeu uma mensagem de texto do amigo no celular: "Dani, nao vou estudar dinamica agora. Estou estudando calculo e nao quero parar no meio. A gente estuda num outro dia. Beijos". Daniel se perguntou se o "a gente estuda num outro dia" não representaria um desejo de que ele não fosse à casa deles hoje. Respondeu com "Posso estudar outras coisas tbm...". Suas dúvidas foram sanadas com a resposta "Sim, sim. Leve outra coisa ;)" do amigo. Sua presença parecia desejada.
Depois:
Daniel arrumou sua mala com cadernos e livros, tudo muito lentamente. Despediu-se da colega de casa e saiu. Não suportava televisão... Na frente de um prédio comercial, já na rua, viu uma mulher esperando sozinha uma carona. Também ele já muitas vezes havia esperado sozinho uma carona. Deu-se conta do fato de que, embora conhecesse muita gente, sempre estava sozinho. A maior parte das pessoas que ele conhecia andavam sempre na mesma turma, "faziam parte". Ele andava pela faculdade cumprimentando cada pessoa que passava. Achava que "fazia parte" de uma série de turmas. Mas muitas vezes comia sozinho, caminhava para lá e para cá sozinho, fazia esportes sozinho, estudava sozinho, viajava sozinho. Embora dividisse uma casa, não compartilhava uma vida em comum com sua colega. No ponto de ônibus encontrou uma mulher que trazia no colo um filho ou filha de apenas 4 dias. Isso era algo que ele nunca tinha visto - ficou até um pouco chocado que uma mãe pudesse transportar uma carga tão frágil e preciosa em um ônibus. A senhora com quem a mãe conversava não demonstrava muita surpresa... Embora Daniel não tivesse sinalizado para o ônibus, o mesmo parou para desembarcarem alguns passageiros. Isso o lembrou do dia anterior:
Lembrança:
Ontem, quando estava um pouco atrasado para encontrar um grande amigo para correr na faculdade (foi a primeira vez que Daniel correu, o que em última análise é o motivo dele se encontrar tão cansado no dia de hoje), Daniel viu do outro lado da rua o ônibus que deveria pegar (e que demora para passar), parado no ponto. Entretanto, a rua era muito movimentada, e ele não pôde atravessar a tempo. Depois de uns 20 minutos de espera, finalmente um ônibus da mesma linha apareceu no horizonte. Quando estava mais perto, Daniel sinalizou. Entretanto, ele passou reto, deixando-o abismado e muito irritado. Por sorte, o farol à frente estava vermelho, e o ônibus teve que parar. Daniel correu, bateu na porta. Entrou sem falar "boa noite" para o motorista.
Voltando:
Daniel embarcou, dizendo boa noite ao motorista. Pagou ao cobrador e foi sentar ao fundo do ônibus. Prestava atenção no caminho, tentando ver quando enxergaria o túnel. Tentava se lembrar da referência que havia marcado para o momento certo de apertar o botão e descer do ônibus - o nome de uma rua, algum estabelecimento comercial... entretanto estava muito cansado e não se recordou de nada. Para piorar, um rapaz de mochila agora bloqueava totalmente sua visão. Decidiu perguntar ao cobrador. Encontrou seu caminho bloqueado pela mochila do garoto, então pediu licença. Logo deu-se conta de que fazia tempo desde a última vez em que pedira licença a um estranho. Nos últimos tempos estava inconscientemente tentando ser invisível, esgueirando-se tentando não esbarrar em ninguém, pedindo desculpas quando esbarrava. Isso o incomodava, portanto o pedido de licença que foi obrigado a fazer o agradou. O cobrador informou-o de que deveria descer no próximo ponto. Enquanto aguardava para atravessar a rua contemplava a quantidade de carros passando. Anteontem Daniel havia feito o trajeto inteiro a pé, com uma mala até mais pesada nas costas. Mas hoje estava cansado demais para isso. Subiu com alguma dificuldade a ladeira até o portão do prédio.
Momento C, Narrador 3:
Enquanto se dirigia ao portão, Daniel viu um provável morador tocando o interfone do prédio. O porteiro teria de abrir a porta para que ele saísse, e Daniel montou rapidamente em sua mente a possibilidade da pessoa na porta não ser um morador - um dilema que teria de ser resolvido rapidamente pelo porteiro. Enquanto o morador abria a porta e entrava no prédio, Daniel pensava se seria uma boa idéia ir até um café, pedir uma água com gás ou outra bebida e ficar um bom tempo esperando... sentiria um pouco de vergonha ao encontrar sua colega de casa depois de tão pouco tempo - seu fracasso ficaria evidente. Avaliando essas possibilidades, Daniel quase perdeu a chance de dizer "boa noite" ao morador. Na rua ainda enrolou olhando para os dois lados, na esperança de encontrar os amigos voltando - isso mudaria totalmente seu destino, suas impressões. Ainda olharia mais uma vez para trás depois de começar a andar. Relutava em admitir a si mesmo que estava bravo. Chateado, sim. De qualquer forma, estava além de resgate - desligou o celular. Abandonou a idéia de ir a um café. Queria estar em casa, não havia necessidade de prolongar o dia. Queria dormir. Também queria chorar, mas segurou. Novamente entrou em um ônibus sem haver pedido para ele parar (a porta não ficava perto do motorista para que ele pudesse dizer boa noite). Talvez aquilo tudo fosse uma metáfora - talvez uma casa em que três pessoas podem estudar, mas não quatro, signifique alguma coisa. Tentou pagar ao cobrador, mas não havia troco, então tinha que esperar até que outros passageiros pagassem. Daniel se perguntou o que aconteceria se tivesse que descer antes de haver troco - provavelmente desceria de graça. Mas logo o cobrador encheu-o de moedas. Daniel pensou um pouco sobre qual era o lado do ônibus no qual teria que desembarcar, logo viu que a porta esquerda ficava mais para trás. Caminhou até perto da porta - era um daqueles ônibus articulados. Equilibrou-se na junção do ônibus enquanto fazia a curva, apertou o botão e desceu. Não se lembrava de ninguém de dentro do ônibus. Começou a andar em direção a sua casa. Olhou o relógio. Menos de uma hora havia se passado desde que anunciara que estava saindo para estudar. Daniel planejou o futuro: entrar, dizer que tinha muito sono, trancar a porta do quarto, chorar silenciosamente. Até lá tinha de manter afastada sua tristeza. Reavaliava na sua cabeça as teorias que tinha sobre o universo e nosso poder dentro dele. Por um lado, temos influência sobre o que nos acontece. Alguma coisa ele devia estar fazendo de errado para que tantas coisas ruins lhe acontecessem. Algo na maneira de estabelecer vínculos emocionais, talvez? Por outro lado, temos de considerar a poderosa força do caos: às vezes diversas coisas ruins ou boas podem ocorrer em sucessão, sem que se possa atribuir responsabilidade a alguém. Talvez ele estivesse fazendo tudo certo, mas o momento fosse ruim... pensou na numerosa lista de amigos, um por um. Apenas uma amizade parecia completa. Estava deprimido, isso já havia sido decretado ha algum tempo, e impunha sua prova. Cancelou em sua mente a balada combinada com esses mesmos amigos amanhã. Não havia nenhum sentido em balada nesse clima. O prédio já estava próximo. A necessidade de chorar aumentava com a necessidade de esconder a tristeza. "Vamos lá, Daniel, faça seu show, você é bom nisso!". Abriu a porta do prédio, foi até o elevador. Subiu até seu apartamento, abriu a porta. "Boa noite", ouviu. "Um amigo seu ligou". Isso não o interessava. Apenas respondeu que queria dormir. Boa parte do sono passou no momento em que começou a lacrimejar, seguro no quarto com a porta trancada. Não sabia se preferia o conforto ergonômico ou o conforto de abraçar o travesseiro.
Momento A, Narrador 1:
Daniel tinha acordado ha pouco tempo e tomado banho. Às 18h saiu para a sacada de seu apartamento e observou a rua por uns instantes. Entrou e foi até a cozinha, onde encontrou sua colega de apartamento esquentando um prato de arroz, feijão, bife de frango e croquete no microondas. Daniel pegou com a mão um bife de frango gelado e comeu. Sua colega de casa fez uma cara chocada. Depois de comer os 3 croquetes restantes, voltou à sacada. Sentou-se no sofá e assistiu um pouco de televisão. Depois de um tempo disse: "Vou à casa de uns amigos estudar". Pegou o telefone, falou "Onde vocês estão? ... Ah, você acha que dá tempo para vocês chegarem antes de mim? ... Ok, então, estou saindo". Arrumou lentamente uma mochila com cadernos de papel reciclado e dois livros: "elementos de álgebra" e "fundamentos de análise complexa". Quando estava na porta, chamando o elevador, sua companheira de casa observou: "você não parece muito animado para ir" "ficar aqui também não faria muito por meu humor" "obrigado pela parte que me toca" "eu teria de estudar, aqui ou lá. Acho que mudar de ares me fará bem". Na rua viu uma mulher que aguardava à frente de um prédio de escritórios, com uma cadeira de rodinhas e uma sacola ao lado. Dobrou a esquina, caminhou até o ponto de ônibus, onde viu uma senhora conversando com uma mulher negra que trazia um bebê no colo. Conversavam sobre a criança, que a mãe dizia ter apenas 4 dias de idade. Daniel viu um ônibus chegar ao ponto. Ninguém fez sinal para que ele parasse, mas assim mesmo o ônibus parou para que alguns passageiros descessem. Daniel fez um sinal para o motorista abrir a porta e entrou. Pagou ao cobrador com uma nota de 2 reais e uma moeda de 1. Sentou-se no fundo do ônibus. Depois de algumas estações, levantou-se, pediu licença a um rapaz de mochila que estava fechando o corredor, caminhou até o cobrador. Perguntou: "O último ponto antes do túnel já é o próximo?", ao que o cobrador respondeu afirmativamente. Desceu no ponto seguinte, aguardou um demorado farol para atravessar a rua. Subiu a ladeira, sempre lentamente. Finalmente chegara ao seu destino, Daniel encontrava-se agora à frente do prédio nº 265.
Momento B, Narrador 2
Agora:
O porteiro permitiu que entrasse sem fazer nenhuma pergunta. Provavelmente lembrava-se de Daniel ter estado lá dois dias antes. Ou talvez pensasse que Daniel fosse um morador do prédio. Daniel entrou no elevador e, após verificar que não havia nenhuma câmera o vigiando, apertou, além do 12, todos os outros botões. Sentou no chão. Lembrou-se de um texto sobre como fingir ser louco em um elevador. Apertar todos os botões e sentar em um canto não estava na lista, mas certamente funcionaria. E se alguém tivesse chamado o elevador, entrasse e se deparasse com aquela cena? Por falar em loucura, aquela não era a primeira vez que Daniel parava em todos os andares até o 12º naquele elevador.
Antes:
Mais de um ano antes, Daniel, os três amigos, sua então futura namorada (ficante na época), e mais duas pessoas, uma das quais por quem estava apaixonado na ocasião subiam naquele mesmo elevador, quando por impulso alguém apertou o botão nº1. Estavam exaustos depois de um dos mais importantes dias de suas vidas, quando todos haviam experimentado LSD, passeado pela Avenida Paulista e tido alucinações coletivas e individuais. Quantos "eu te amo" não haviam fluído naquele dia, quão verdadeiro, eterno e especial era aquele dia. Choraram juntos, riram juntos, tudo havia sido tão mágico... por que não segurar um pouco mais aquele momento incrível - "momento UM!" alguém disse, e logo apertou o 2. Em pouco tempo todos os botões já haviam sido apertados. Cada número seu momento característico, de forma que mesmo não tendo passado todo o efeito da droga, já estavam entediados e de saco cheio lá pelo "momento SEIS!".
Projeção:
Daniel se incomodava um pouco ao pensar nos momentos felizes do passado. Queria concentrar-se nas possíveis boas experiências do presente e futuro, conhecer gente nova... Sempre que tentava compartilhar com uma pessoa nova suas histórias, tudo parecia tão ficcional... era exatamente como uma pessoa que mentia para impressionar outras, gabando-se de algo que não possuía. Daniel sentia-se mentindo sobre uma felicidade que não era dele. "Que diferença faz se três anos atrás o senhor pescou um peixe de 30 quilos? Hoje estamos a comer peixe comprado congelado do supermercado". Seu passado tornara-se impróprio. Como criar um futuro sem possuir um passado?
Depois:
Quando o elevador chegou ao destino final, Daniel saiu para o hall. Lembrou-se do barulho da reforma do 124 de anteontem. A porta quebrada era quase convidativa. Mas seus amigos moravam no 123. Só depois de verificar que a porta estava trancada é que percebeu o quão rude havia sido sua atitude de tentar abrir antes de anunciar a chegada. Tocou de leve a campainha e aguardou um pouco. Nenhuma resposta. Provavelmente ainda não haviam voltado do café. Nem pensou em ligar para eles do celular - ao invés disso sentou-se no chão em frente à porta para esperar. Logo a luz se apagou. O local era bem barulhento, devido aos ruídos do elevador. Daniel sentou-se na mesma posição de momentos antes: o rosto escondido nos braços cruzados sobre os joelhos levantados. Era muito agradável perceber que, quer mantivesse os olhos abertos quer os fechasse, veria a mesma escuridão. Uns 20 minutos se passaram sem que nada notável acontecesse. Daniel levantou-se, no caminho para o elevador as luzes do hall se reacenderam, causando um pequeno incômodo. Daniel desceu ao térreo, disse boa noite ao porteiro e saiu do prédio. Ainda olhou para os dois lados na esperança de ver os amigos voltando. Esperança... talvez também um pouco de medo.
Momento C, Narrador 2
Agora:
Dois dias antes Daniel voltara a pé com uma mochila pesada nas costas, enfrentando uma noite fria e uma garoa. Na ocasião tinha a certeza de que não ficaria doente, de que poderia resistir qualquer coisa (e era verdade!). Voltara para casa confiante e elegante. Hoje, entretanto, estava atordoado e cansado. Pegaria um ônibus. De certa forma era bom que a hora de dormir se aproximava. Desligou o celular, como que para garantir que nada atrapalharia seus planos de dormir. Mais especificamente, desligou o celular para garantir que seu desejo de que os amigos ligassem para ele (pedindo desculpas e chamando de volta) não se concretizasse.
Lembrança:
Enquanto caminhava para o ponto de ônibus, algo o lembrou de sua ex-namorada, antes de ser ex, antes de ser namorada. Lembrou-se de como ela havia sofrido por ele enquanto ele estava apaixonado por outra pessoa... como ela aceitara todas as condições para estarem juntos, sem namorar... seus amigos precisavam de alguém como ela. Ela poderia rastejar e sofrer por eles, com prazer. Essa não era a única lembrança que lhe ocorria na ocasião.
Antes:
Algum tempo antes um desses amigos disse ter ciúmes dos outros (que não os três) amigos de Daniel. Daniel na ocasião dissera a verdade: que eles estavam entre os amigos mais especiais. Por outro lado, sentia-se sozinho e necessitava pessoas que pudessem ocupar seu tempo. Essa verdade encobria uma outra verdade, não revelada ao amigo: Daniel não queria deixar morrer a possibilidade de encontrar outras pessoas especiais. Mas uma terceira verdade agora se erguia para justificar o comportamento social de Daniel: o de que esses amigos não bastariam para amparar a queda caso Daniel saltasse. Pois era ele quem havia de ligar caso desejasse vê-los, correndo o risco de não conseguir entrar em contato ainda que tentasse todos os telefones, como efetivamente ocorrera no dia anterior (apesar do suposto combinado).
Projeção:
Daniel recusava-se a admitir que estava bravo com os amigos. Preferia pensar que estava chateado, mas não muito. Precisaria apenas de uma pequena correção no seu comportamento, deixar que o sentimento do outro ditasse a intensidade do relacionamento... se o outro fosse atrás e demonstrasse amor, faria o mesmo. Caso contrário precisaria apenas aprender a regular suas próprias expectativas. Isso já havia acontecido uma vez, com uma ficante. Ao perceber nela uma certa falta de desejo de encontrá-lo resolveu esperar que ela lhe procurasse caso desejasse. Nunca mais se viram.
Depois:
Entrou no primeiro ônibus, pagou ao cobrador e passou pelo ônibus como se o mesmo não existisse. Não olhou para ninguém. Apenas caminhou em seu passo lento daquele dia arrastado até seu apartamento. Ao chegar disse à sua colega de casa que estava com muito sono e foi para o quarto. Trancou a porta, deitou na cama e chorou silenciosamente.
Momento A, Narrador 3
Apesar de ter tomado um banho, Daniel não se sentia totalmente desperto naquela tarde. Tinha a obrigação de estudar, havia combinado de fazê-lo na casa de amigos, como dois dias antes. Embora dois dias antes não houvesse estudado muito - apenas a parte que não necessitava de mais espaço do que um laptop: a casa era muito apertada e mal comportava o material de estudos dos três amigos. Uma passada pela sacada de seu apartamento lhe informou que o trânsito estava pesado naquele horário. Não havia muito sentido em sair agora. Pensou em tomar um café para passar o sono, mas devido ao sono acabou se esquecendo do café. Sentia-se arrastando o corpo e a mente por aquele dia. Os pensamentos passavam por sua cabeça sem deixar rastros ou conclusões. Foi até a cozinha, onde encontrou sua colega de casa esquentando um prato. Pegou um bife de frango de um pote que acabara de sair da geladeira e começou a comê-lo frio. Daniel ficou se perguntando se a cara de desgosto que sua colega fez era devido ao ato de comer uma carne gelada ou ao fato de tê-lo feito sem usar talheres... A televisão estava ligada. O barulho em geral o incomodava. Mas nesse exato momento parecia ser justamente o que precisava: jogar no lixo uma hora de sua vida. E essa hora passou como se não tivesse passado. O barulho vindo da sacada já indicava uma diminuição no trânsito. Anunciou que ia sair de casa para estudar com amigos. Pegou o telefone para saber onde eles estavam. "Estamos pagando a conta no café e já estamos saindo"..."Pode sair, nós chegaremos antes de você". Arrumou a mala com o material de estudos que muito provavelmente não usaria. Não entendia se o desânimo que sentia naquele momento tinha origem química ou psicológica. Mas estava estampado em sua cara. Tanto que sua colega de casa comentou "Você não parece muito animado para sair". Deixou escapar que ficar naquela casa não estava ajudando muito seu humor. "Obrigado pela parte que me toca", ouviu. Arrependeu-se do que disse e logo emendou uma meia-verdade, de que tinha que estudar e que preferia estudar acompanhado. A verdade inteira é que a televisão o irritava, alguém que estivesse fazendo companhia para a televisão não estaria fazendo companhia a ele.
Na rua lhe chamou a atenção uma mulher que aguardava na frente de um prédio de escritórios, com uma cadeira de rodinhas e uma sacola ao lado. Enquanto a observava pensava em quantas vezes não se sentira constrangido de estar sozinho. É tão raro ver alguém simplesmente sozinho, esperando. Achou que a mulher estivesse buscando o celular no bolso, para ligar para sua carona reclamando do atraso, para saber quanto ainda teria de esperar, para fingir que não estava apenas esperando, sozinha, sem nada para fazer, enquanto sua carona não vinha. Um cigarro também funcionaria. Mas tinha se enganado: a mulher continuou esperando. Daniel, que não estava esperando, seguiu seu caminho até o ponto de ônibus, onde outra cena chamou sua atenção: uma mulher negra carregando um embrulho de panos. Nesse embrulho, Daniel ficou sabendo pelo diálogo da mulher com uma outra senhora, carregava seu filho de apenas 4 dias de idade. Uma mulher, um monte de panos, um filho de 4 dias. Estava chocado! Como podia fazer uma coisa dessas? Daniel ficava imaginando a cara de desespero da mãe caso a criança batesse em algum lugar durante alguma sacudida mais violenta do ônibus. Uma carga tão preciosa, tão desprotegida. Um ônibus chegava. Enquanto tentava reconhecer a placa e lembrar qual ônibus deveria pegar, aquele parou para descarregar alguns passageiros. Daniel lembrou que qualquer ônibus serviria para esse trajeto tão curto - estava tão cansado que nem pensou em ir a pé. Sem se esquecer do "boa noite" ao motorista, sua mente cansada fazia de cada tarefa simples um desafio - procurar a melhor combinação de notas e moedas para facilitar o troco do ônibus, encontrar a melhor combinação de palavras para perguntar ao cobrador se o próximo era o ponto em que deveria desembarcar... E era.
Momento B, Narrador 3
Na ladeira que levava ao prédio Daniel avaliava sua vida enquanto andava. Avaliava no sentido de verificar o valor. A possibilidade de um suicídio logo foi afastada de sua mente - não estava preso a uma situação sem solução. Antes de uma ação tão drástica seria obrigado a tentar algo mais suave, como mudar radicalmente de estilo de vida. Parar de falar com as pessoas que não interessavam, virar um vagabundo, viver à custa dos pais. Logo imaginou um diálogo com o pai. Algo em sua relação com o pai o incomodava muito. Queria falar ao pai que era gay e drogado, que não via sentido em inventar e sustentar uma pessoa fictícia para não desapontá-lo, que aquilo que ele havia se tornado era responsabilidade do pai também, e deveria aceitá-lo como ele era de verdade. O irônico é que a pessoa fictícia era esse que queria se assumir para o pai: Daniel não era gay, nem drogado. Mas havia alguma verdade profunda na sensação de estar sustentando uma imagem fictícia de si mesmo. Algo sincero na sensação de prisão, de não conseguir ser mais autêntico. Ainda lhe ocorreu a possibilidade do pai se suicidar, sendo sua culpa... quando tocou o interfone do prédio, o porteiro permitiu sua entrada sem lhe dirigir nenhuma pergunta, apenas respondendo ao "boa noite", de Daniel. Chegando ao elevador, enquanto a porta se fechava, o botão nº 12 já apertado, Daniel olhou para cima em busca de uma câmera. Não vendo nenhuma apertou correndo o botão nº 1. Será que daria tempo? Deu. Apertou rapidamente todos os botões até o 11 e sentou-se no chão, a cara escondida pelos braços no joelho. Por que havia feito aquilo? Nem ele mesmo entendia ao certo. Certamente queria roubar um pouco desse tempo intermediário para si - um tempo durante o qual os amigos poderiam chegar pelo outro elevador, se fosse o caso. Um tempo no qual poderia se indagar o motivo de não querer encontrar os amigos tão cedo. Não queria estudar, havia saído de casa meio que por inércia. Esperava alguma coisa. Apertara todos os botões para ter tempo de se indagar essa questão: o que esperava desses amigos? A resposta era simples e de certa forma inevitável - achava que entraria pela porta do 123 com a depressão estampada na cara, e os amigos logo o distrairiam com as conversas de sempre, o acolheriam, o distrairiam de si mesmo. Apertara todos os botões por um último momento dentro de si mesmo, antes da fuga, da sociabilização. Mas não deu tempo. O elevador já chegara ao destino. Abriu a porta, adiando as questões internas. A luz acesa do hall iluminou a porta quebrada do 124, que estava em reforma. Daniel tentou abrir a porta do 123. Estava trancada. Tocou a campainha, de leve. O silêncio que se seguiu levou Daniel a cogitar a possibilidade improvável do dono da casa não ter escutado a campainha. Se fosse o caso, Daniel eventualmente ouviria algum ruído vindo da casa enquanto esperava, sentado, com a mochila jogada à sua frente. Pensou em voltar ao salão do prédio e aguardar sentado no sofá. A privacidade daquele lugar era confortável demais. A luz apagou. Daniel estava invisível - nem o sensor o detectava. Ouviria muitos barulhos durante os 25 minutos em que esperaria, imóvel, na mesma posição que no elevador. Esses barulhos lhe provocariam uma série de pensamentos. Alguns jocosos, como a idéia de que alguém o estava seguindo, mas ficara desorientado com todos os andares nos quais o elevador parou. Em qual Daniel havia descido? Certamente não no 12, onde a luz estava apagada. Quando ouvia uma voz no elevador, sua mente enchia-se de uma esperança assustada - seu momento íntimo seria interrompido, e estaria numa situação constrangedora, sentado sozinho. Perguntava-se se escutaria risos e uma conversa animada do elevador, ou se os amigos chegariam sérios para estudar. Em um determinado momento o elevador passou reto pelo 12, iluminando passageiramente o hall. A iluminação promoveria outros pensamentos: será que precisamos piscar por causa da luz, ou por causa da convecção de ar que seca os olhos? A resposta óbvia veio com a sensação de início de lágrima devido à tentativa de manter os olhos abertos. Mas nem todos os pensamentos daqueles minutos seriam promovidos por estímulos externos. Daniel também pensou um pouco mais na sua relação com o pai. A cada pessoa nova que conhecia podia quase enxergar dentro de sua cabeça o pai apontando diretamente para os defeitos que julgava que a pessoa nova possuía. "Se eu acreditasse em Deus rezaria todos os dias para não absorver seus preconceitos" - em suas conversas fictícias era sempre muito duro com o pai. Porque seu pai fictício era muito duro com ele. E com os demais. Queria ter uma visão mais otimista dos seres humanos. Por que não dizer? Mais ingênua. Queria ver os outros com os olhos dos outros, julgá-los pelos seus valores característicos. Não conseguia. E o que essa visão tão cínica da qual não conseguia se livrar lhe impunha ao julgamento de sua situação atual? Resolveu voltar para casa. Algo de muito importante havia acontecido naqueles 25 minutos em que permanecera sentado. Algo que só se concretizaria mais tarde - ainda era cimento fresco. Enquanto descia sem interrupções, imaginava a possibilidade dos amigos estarem justamente subindo pelo outro elevador. Tarde demais.
Momento C, Narrador 1
O que sucederia na volta é muito simples: Daniel desligaria o celular, caminharia até o ponto de ônibus, pegaria o primeiro ônibus que parasse. Tentaria pagar ao cobrador com uma nota de 10 reais e 30 centavos em moedas, mas o cobrador não teria troco. Depois de um tempo o cobrador encheria Daniel de moedas. Daniel caminharia até a parte de trás do ônibus articulado, se equilibraria na junção enquanto o ônibus executaria a curva final. Desceria pelo lado esquerdo do ônibus, caminharia em um passo lento até seu apartamento. Entraria em casa e teria o seguinte diálogo com a colega: "Olá, boa noite" "Boa noite" "Um amigo seu ligou" "estou com muito sono, estou indo dormir. Até amanhã" "até amanhã". Entraria no quarto, daria uma volta na chave, deitaria na cama e choraria durante algum tempo. Um choro que não vinha só daquele momento.